{"id":4512,"date":"2021-04-20T12:20:51","date_gmt":"2021-04-20T12:20:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4512"},"modified":"2021-05-12T10:13:29","modified_gmt":"2021-05-12T10:13:29","slug":"cipriano-dourado-o-abandono-do-idealismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/04\/20\/cipriano-dourado-o-abandono-do-idealismo\/","title":{"rendered":"Cipriano Dourado: O abandono do idealismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Sobre a mesa de trabalho as grafites dispostas. \u00c0 m\u00e3o de trazerem ideias pela min\u00fascula diferen\u00e7a de cor entre si. O preto mais preto que talvez usasse para cavar os cansa\u00e7os no olhar daquelas mulheres em busca do arroz. O preto seguinte, menos preto mas ainda t\u00e3o preto, para sombrear nas m\u00e3os a enxada. E por a\u00ed adiante at\u00e9 aos parcos apontamentos vermelhos, corajosos gritos presos no papel, gravados na t\u00e1bua, postos sobre a pedra&#8230; &#8211;<\/p>\n\n\n\n<p>Assim se poderiam convocar mem\u00f3rias de Cipriano Dourado. Uma grafite, um cinzel, uma m\u00e3o que os segura com uma firmeza tamanha que seria o tra\u00e7o a decidir o seu percurso. Jamais a m\u00e3o cederia \u00e0 sua pr\u00f3pria fragilidade, \u00e0 capacidade finita do nervo permanecer quieto, \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de abrilhantar a realidade. O tra\u00e7o, senhor de si, fiel \u00e0quilo que veriam os olhos, figura de fidelidade \u00e0 mem\u00f3ria, \u00e0 dureza, \u00e0 condi\u00e7\u00e3o do quotidiano, \u00e0 revolta contida &#8211; tra\u00e7o que diz at\u00e9 ao fim do que h\u00e1 a ser dito. Um tra\u00e7o que acompanhou o abandono do idealismo no olhar art\u00edstico e iluminou o homem comum, interessou-se pela vida dos oper\u00e1rios, pelo escrut\u00ednio das injusti\u00e7as, pela an\u00e1lise do modelo social vigente, sem lirismos.<\/p>\n\n\n\n<p>Cipriano Dourado, inicialmente auto-didata, come\u00e7a a trabalhar como desenhador-lit\u00f3grafo alguns anos antes de frequentar o curso nocturno da Sociedade Nacional de Belas Artes, em 1939, com 18 anos. Os saberes que adquire nesta fase transformam-no num precoce militante do rigor oper\u00e1rio do trabalho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de algumas exposi\u00e7\u00f5es colectivas, arranca, em 1947, em viagem pela Europa, num intento simult\u00e2neo de actualiza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e colec\u00e7\u00e3o de inspira\u00e7\u00f5es que termina em 1949 em Paris, com um est\u00e1gio na prestigiada Academia Livre Grande Chaumi\u00e8re. O avan\u00e7o da sua actividade art\u00edstica consubstanciou-se num crescente comprometimento ideol\u00f3gico e actividade pol\u00edtica \u2013 antifascista convicto, materializa a sua certeza revolucion\u00e1ria tornando-se militante do Partido Comunista Portugu\u00eas, o que lhe permitiu adensar, at\u00e9 ao final dos seus dias, agita\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia nos meios art\u00edsticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 53 integra um colectivo com Alves Redol, J\u00falio Pomar, Lima de Freitas e Ant\u00f3nio Alfredo, que se prop\u00f5e a acompanhar o quotidiano das jornadas de trabalho nos arrozais ribatejanos. Do contacto com os trabalhadores, a sua vida, as suas condi\u00e7\u00f5es de trabalho, surge um importante conjunto de obras que viriam a apelidar a experi\u00eancia \u2013 o Ciclo do Arroz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres e a terra s\u00e3o presen\u00e7a constante nos trabalhos de Cipriano \u2013 \u00e9 atrav\u00e9s deles que inscreve nos seus desenhos, litografias e ilustra\u00e7\u00f5es a vitalidade da sua milit\u00e2ncia, da sua confian\u00e7a na vida, dedica\u00e7\u00e3o aos amigos, aos camaradas, aos companheiros de trabalho e of\u00edcio \u2013 jamais ref\u00e9m de elogios ou ambi\u00e7\u00f5es carreiristas.<\/p>\n\n\n\n<p>Funda a Gravura \u2013 Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses em 1956 e participa em todas as exposi\u00e7\u00f5es itinerantes de gravura portuguesa organizadas pela mesma a partir desse ano. Trabalhou tamb\u00e9m como ilustrador, nomeadamente de prestigiados livros de poesia e prosa, dos quais destacamos A Paz Inteira, de Armindo Rodrigues; Serranos, de M\u00e1rio Braga; Sete Odes do Canto Comum, de Orlando da Costa (apreendido pela PIDE no prelo); O Livro das Mil e Uma Noites e 20 Poemas de Amor e uma Can\u00e7\u00e3o Desesperada, de Pablo Neruda; Can\u00e7\u00f5es para a Primavera, de Jos\u00e9 Carlos de Vasconcelos; O Amante de Lady Chaterley, de D. H. Laurence.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de todos os preciosos contributos colaborou ainda com publica\u00e7\u00f5es peri\u00f3dicas como a V\u00e9rtice, Seara Nova, Col\u00f3quio-Letras e Cassiopeia.<\/p>\n\n\n\n<p>Se ainda estivesse entre n\u00f3s, teria completado cem anos em Fevereiro.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sobre a mesa de trabalho as grafites dispostas. \u00c0 m\u00e3o de trazerem ideias pela min\u00fascula diferen\u00e7a de cor entre si. 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