{"id":4454,"date":"2021-04-05T09:45:53","date_gmt":"2021-04-05T09:45:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4454"},"modified":"2021-04-05T09:45:54","modified_gmt":"2021-04-05T09:45:54","slug":"tudo-conseguem-quando-coletivamente-organizados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/04\/05\/tudo-conseguem-quando-coletivamente-organizados\/","title":{"rendered":"&#8220;Tudo conseguem quando coletivamente organizados&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cTudo conseguem quando coletivamente organizados\u201d, dizia o sindicalista J\u00falio F. de Matos<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">I.<\/h2>\n\n\n\n<p>O anivers\u00e1rio da sociedade&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio&nbsp;em Fevereiro de 1934 coincidiu com um momento particularmente pesado para a classe trabalhadora em Portugal. Sob a lideran\u00e7a de Salazar, a ditadura militar transformara-se num regime do tipo fascista.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava aberta uma verdadeira \u00e9poca de \u201cca\u00e7a\u201d aos ativistas pelos direitos dos trabalhadores. As pris\u00f5es sucediam-se, para esmagar a contesta\u00e7\u00e3o \u00e0 dissolu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada dos antigos sindicatos livres.<\/p>\n\n\n\n<p>A PIDE tinha acabado de nascer e j\u00e1 vinha com os dentes bem afiados: dois meses depois assassinava o sindicalista Manuel Tom\u00e9, torturado at\u00e9 \u00e0 morte.<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio&nbsp;tamb\u00e9m tremeu. Manuel Tom\u00e9 era nosso vizinho, da nossa rua, como dirigente da cooperativa Caixa Ec\u00f3mica Oper\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Um ex-presidente da assembleia geral de&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio, J\u00falio Luiz, que deixara este cargo ainda h\u00e1 poucos meses, tamb\u00e9m tinha sido preso. Felizmente, dessa vez n\u00e3o foi deportado para \u00c1frica, como j\u00e1 tinha acontecido.<\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e1 fora, Mussolini era senhor de It\u00e1lia e Hitler j\u00e1 comandava a Alemanha. A grande crise econ\u00f3mica de 1929 ainda multiplicava desemprego e mis\u00e9ria pelo mundo fora.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II.<\/h2>\n\n\n\n<p>Era preciso resistir!<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos ativistas que nesses anos asseguraram a continuidade de&nbsp;A Voz do Oper\u00e1riofoi o torneiro mec\u00e2nico J\u00falio Ferreira de Matos. Integrou ent\u00e3o a dire\u00e7\u00e3o, o conselho fiscal, a comiss\u00e3o de pareceres. E colaborou pontualmente no jornal.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse anivers\u00e1rio da sociedade&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio, em 1934, J\u00falio Ferreira de Matos recordou o passado e procurou um caminho para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>Do passado, recordou os \u201cbatalhadores, oper\u00e1rios conscientes\u201d que \u201cse dedicaram de alma e cora\u00e7\u00e3o \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o de um jornal que demonstrasse o sentir da classe trabalhadora\u201d. Sobre a sociedade&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio, \u201cfilha leg\u00edtima do mesmo jornal\u201d evocou o \u201cesfor\u00e7o empregado por todos quantos por ela t\u00eam passado como corpos gerentes, deixando cada um desses elementos a sua cota parte da bagagem que possuem para que ela se possa erguer ao mais alto p\u00edncaro\u201d na causa da instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Onde \u00e9 que ele vislumbrou futuro?<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sublinhar que \u201ctodo este trabalho foi e ser\u00e1 colectivo, e nunca individual\u201d. O caminho para a resist\u00eancia da classe trabalhadora passava por a\u00ed: \u201cque todos os homens se capacitem que isolados nada valem, assim como nada fazem, mas sim tudo conseguem quando coletivamente organizados\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III.<\/h2>\n\n\n\n<p>Quem era J\u00falio Ferreira de Matos?<\/p>\n\n\n\n<p>Nascido no Porto, em 1888, salientou-se por volta de 1920 como dirigente do novo Sindicato \u00danico das Classes Metal\u00fargicas de Lisboa, que veio unificar oper\u00e1rios que antes estavam divididos em v\u00e1rias organiza\u00e7\u00f5es, de diferentes of\u00edcios do mesmo sector.<\/p>\n\n\n\n<p>Este importante sindicato contou com v\u00e1rios dirigentes ilustres como Francisco Viana, Jos\u00e9 de Sousa ou Em\u00eddio Santana. E foi um foco de cultura: nele funcionou uma escola de&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio&nbsp;e uma sec\u00e7\u00e3o da Universidade Popular Portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos trabalhos recentemente concretizados na biblioteca de&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio&nbsp;foi poss\u00edvel identificar e reunir um precioso esp\u00f3lio com 112 volumes que pertenceram \u00e0 biblioteca deste sindicato. Seguramente bastante incompleto, constitui ainda assim uma importante amostra do que eram as bibliotecas sindicais da \u00e9poca, com um acervo n\u00e3o apenas de cariz sindical, pol\u00edtico e associativo, mas tamb\u00e9m cultural, t\u00e9cnico e cient\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Como foi frequente acontecer a sindicalistas sob o regime da 1\u00aa Rep\u00fablica, J\u00falio Ferreira de Matos foi ent\u00e3o v\u00e1rias vezes preso pol\u00edtico:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; em 1919, \u201cpor se manifestar contra o governo e gritos subversivos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; em 1920, \u201cpor ordem superior\u201d;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; em 1921, quando se preparava para realizar uma palestra no sindicato dos mineiros de Aljustrel;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; em 1923 acusado de ser um \u201cbombista perigoso\u201d;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; e em 1924 \u201cpor ser agitador\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Como muitos outros sindicalistas da sua gera\u00e7\u00e3o, voltou a ser preso pol\u00edtico no tempo do fascismo. No seu caso, em 1937, por auxiliar militantes clandestinos.<\/p>\n\n\n\n<p>A dada altura, J\u00falio Ferreira de Matos tinha ido trabalhar para o Arsenal do Ex\u00e9rcito. E tamb\u00e9m a\u00ed se notabilizou como dirigente sindical, cooperativista e mutualista. Foi ainda presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Inquilinos Lisbonenses.<\/p>\n\n\n\n<p>Faleceu em 1948, sendo ent\u00e3o recordado como um \u201coper\u00e1rio metal\u00fargico muito sabedor e inteligente\u201d, um \u201cdos elementos mais activos e organizadores da sua classe\u201d e \u201cum dos dedicados amigos\u201d de&nbsp;A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV.<\/h2>\n\n\n\n<p>No ano do centen\u00e1rio do Partido Comunista Portugu\u00eas, recorde-se que J\u00falio Ferreira de Matos foi um dos seus principais fundadores, como membro da comiss\u00e3o organizadora formada em Dezembro de 1920.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Admirador da Revolu\u00e7\u00e3o Russa, esteve depois entre os vinte e um subscritores do manifesto que deu origem \u00e0 corrente sindical afecta ao PCP, em maio de 1923. E ainda nesse ano, presidiu \u00e0 sess\u00e3o de encerramento do 1\u00ba congresso do PCP.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00falio Ferreira de Matos \u00e9 um exemplo dos fundadores e primeiros dirigentes do PCP que depois, sob a ditadura, foram presos pol\u00edticos antifascistas.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi esse o caso de:<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 39% dos membros da comiss\u00e3o organizadora;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 40% dos membros da primeira dire\u00e7\u00e3o, a \u201cJunta Nacional\u201d eleita em mar\u00e7o de 1921;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; 60% dos membros do \u201ccomit\u00e9 central\u201d eleito na confer\u00eancia nacional de mar\u00e7o de 1923;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; e 43% dos membros das dire\u00e7\u00f5es eleitas nos congressos de novembro de 1923 e maio de 1926.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes s\u00e3o n\u00fameros corrigidos e numa contagem ainda por baixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Contabilizando exemplos como o de J\u00falio Ferreira de Matos, ilustram as ra\u00edzes antifascistas dum partido que nasceu sobretudo no seio do movimento sindical.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cTudo conseguem quando coletivamente organizados\u201d, dizia o sindicalista J\u00falio F. de Matos I. 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