{"id":4422,"date":"2021-03-15T11:28:45","date_gmt":"2021-03-15T11:28:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4422"},"modified":"2021-03-15T11:28:48","modified_gmt":"2021-03-15T11:28:48","slug":"baptista-bastos-e-o-cristal-das-palavras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/03\/15\/baptista-bastos-e-o-cristal-das-palavras\/","title":{"rendered":"Baptista Bastos, e o cristal das palavras"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cN\u00e3o posso perdoar ao fascismo o ter-me sequestrado os sonhos e sonegado a adolesc\u00eancia e a juventude.\u201d B-B, in \u201cDi\u00e1rio da Realidade como Simula\u00e7\u00e3o\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Havia na cidade, nesses dias largos, mesmo cercados de grades, um territ\u00f3rio respir\u00e1vel, o Bairro Alto dos jornais, de&nbsp;O S\u00e9culo,&nbsp;do&nbsp;Di\u00e1rio Popular, do&nbsp;Di\u00e1rio de Lisboa,&nbsp;de&nbsp;A Bola,&nbsp;esse circunscrito espa\u00e7o de margens e de afectos, polvilhado de ardinas e botecos, de gente mi\u00fada, do pov\u00e3o galhofeiro diariamente humilhado e ofendido, a az\u00e1fama das redac\u00e7\u00f5es, o cheiro a chumbo das tipografias; havia nos jornais, em alguns jornais, uma atmosfera de cumplicidade, um sentido deontol\u00f3gico sem normas de figurino, quase m\u00edtico, de urdir as not\u00edcias, de reinventar os dias mesmo sabendo que um l\u00e1pis azul vigiava os t extos. Havia jornalistas e escritores que se espalhavam pelos tascos da zona, ou pela Brasileira, a polemizar, a tertuliar, em volta de bejecas ou de um bom tinto com corpo e esp\u00edrito, sobre o tempo cercado da ditadura, as malfeitorias do fascismo, ou de um filme, um novo livro, um poema com farpas de vento que escapara \u00e0 censura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Bastos foi o \u00faltimo representante de um estilo inteiro, l\u00edrico e visceral, de paix\u00e3o sem manhas, de olhar a cidade e de no-la dar a ver nos seus amplos sentidos, com casas, gentes, bairros, vida a fervilhar nas ruas, tamb\u00e9m as n\u00f3doas e o esplendor, a mis\u00e9ria e a luta, a exalta\u00e7\u00e3o dos nomes incontorn\u00e1veis da nossa cultura (Carlos de Oliveira, Redol, Sena, Am\u00e1lia, Saramago), o ran\u00e7o bo\u00e7al dos pr\u00f3ceres do salazarismo, a ignom\u00ednia e a dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>B-B, a dizer-nos que&nbsp;\u201co jornalismo \u00e9 uma disciplina superior da literatura\u201d&nbsp;e n\u00f3s, hoje, sobrepujando as excep\u00e7\u00f5es que n\u00e3o impedem o deserto, a ler nos peri\u00f3dicos uma prosa coxa, e pior, manchada de subservi\u00eancia, rendida aos ditames do capital e das ag\u00eancias que controlam, e tentam impor, o pensamento \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanta tarimba B-B, desde os dezoito anos, tanta noite de banca, tanta conspira\u00e7\u00e3o \u00e0 mesa dos caf\u00e9s, ou nas tipografias \u2013 gente fixe, os tip\u00f3grafos! \u2013, tanta mis\u00e9ria recolhida nas ruas da cidade, e que dizer da fome!?, a indigna\u00e7\u00e3o a vir \u00e0 pena, a revelar-se na cr\u00f3nica e na prosa luminosa dos seus livros, desde o inicial&nbsp;O Secreto Adeus, refinando at\u00e9 ao derradeiro&nbsp;A Bolsa da Av\u00f3 Palha\u00e7a,&nbsp;passando por esse bel\u00edssimo romance que \u00e9&nbsp;Colina de Cristal, dorido, nost\u00e1lgico percurso pelo espa\u00e7o de Lisboa que o viu nascer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cN\u00e3o posso perdoar ao fascismo o ter-me sequestrado os sonhos e sonegado a adolesc\u00eancia e a juventude.\u201d B-B, in \u201cDi\u00e1rio da Realidade como Simula\u00e7\u00e3o\u201d Havia na cidade, nesses dias largos, mesmo cercados de grades, um territ\u00f3rio respir\u00e1vel, o Bairro Alto dos jornais, de&nbsp;O S\u00e9culo,&nbsp;do&nbsp;Di\u00e1rio Popular, do&nbsp;Di\u00e1rio de Lisboa,&nbsp;de&nbsp;A Bola,&nbsp;esse circunscrito espa\u00e7o de margens e de &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/03\/15\/baptista-bastos-e-o-cristal-das-palavras\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Baptista Bastos, e o cristal das palavras<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":4423,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48,52],"tags":[],"coauthors":[108],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4422"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4422"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4422\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4425,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4422\/revisions\/4425"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4423"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4422"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4422"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4422"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4422"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}