{"id":4361,"date":"2021-03-01T23:04:42","date_gmt":"2021-03-01T23:04:42","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4361"},"modified":"2021-03-15T12:24:41","modified_gmt":"2021-03-15T12:24:41","slug":"sandra-benfica-o-preconceito-e-um-instrumento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/03\/01\/sandra-benfica-o-preconceito-e-um-instrumento\/","title":{"rendered":"Sandra Benfica: &#8220;O preconceito \u00e9 um instrumento&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<p><em>No dia 8 de Mar\u00e7o, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. Apesar dos avan\u00e7os conquistados, subsistem muitas formas de discrimina\u00e7\u00e3o. Sandra Benfica \u00e9 dirigente do Movimento Democr\u00e1tico de Mulheres e considera que \u00e9 atrav\u00e9s da luta que se defendem, se garantem e se cumprem os direitos das mulheres.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Estamos em 2021 e as mulheres continuam a ser discriminadas. \u00c9 apenas fruto de&nbsp;preconceitos sociais ou esses preconceitos s\u00e3o consequ\u00eancia de uma discrimina\u00e7\u00e3o&nbsp;que \u00e9 instrumental para o sistema em que vivemos?<\/p>\n\n\n\n<p>Se existe preconceito? Existe, como \u00e9 evidente. Mas o preconceito n\u00e3o \u00e9 a raiz dos problemas da discrimina\u00e7\u00e3o das mulheres. Se quiser, o preconceito \u00e9 um instrumento e \u00e9 tamb\u00e9m uma consequ\u00eancia, da discrimina\u00e7\u00e3o que \u00e9 estrutural, da desigualdade que \u00e9 estrutural. Os problemas fundamentais das mulheres prendem-se ao n\u00edvel da desigualdade estrutural que existe na sociedade e decorre, naturalmente, daquilo que \u00e9 a valoriza\u00e7\u00e3o do papel das mulheres na sociedade. E esse papel, particularmente ao n\u00edvel do trabalho, do seu papel no trabalho, e tamb\u00e9m nas suas diferentes condi\u00e7\u00f5es, nomeadamente tamb\u00e9m a valoriza\u00e7\u00e3o, ou a desvaloriza\u00e7\u00e3o, que se faz da maternidade. E, portanto, depois existe um conjunto de consequ\u00eancias mas algumas n\u00e3o s\u00e3o consequ\u00eancias, algumas s\u00e3o at\u00e9 muletas que servem, necessariamente, para garantir que as mulheres ficam confinadas nesse estatuto que, naquele per\u00edodo e naquele momento muito em concreto, interessa ou n\u00e3o ao capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Podemos ent\u00e3o dizer que a discrimina\u00e7\u00e3o sobre as mulheres \u00e9 estrutural?<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 t\u00e3o estrutural como a discrimina\u00e7\u00e3o que existe sobre tantos outros grupos. Repare, quando se diz que a desigualdade entre pa\u00edses ricos e entre pa\u00edses pobres se vai acentuando, naturalmente que tamb\u00e9m entre homens e mulheres se vai acentuando, de acordo com aquilo que s\u00e3o os objetivos do sistema econ\u00f3mico. As mulheres n\u00e3o s\u00e3o uma coisa, como costumam ser tratadas, como um grupo \u00e0 parte, remetidas para o interno feminino. As mulheres s\u00e3o mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o, as mulheres contribuem para o desenvolvimento do pa\u00eds, as mulheres, por exemplo, no quadro desta pandemia, est\u00e3o na linha da frente e que ningu\u00e9m venha dizer o contr\u00e1rio. S\u00e3o elas que est\u00e3o nas linhas avan\u00e7adas, s\u00e3o elas que est\u00e3o na sa\u00fade, s\u00e3o elas que est\u00e3o na educa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o elas que est\u00e3o nos cuidados, s\u00e3o elas que est\u00e3o na maior parte dos servi\u00e7os que s\u00e3o considerados absolutamente essenciais e, no entanto, s\u00e3o elas que continuam a ter os sal\u00e1rios mais baixos, s\u00e3o elas que continuam a ser discriminadas de uma forma absolutamente aviltante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">\u00c9 isso que explica a discrimina\u00e7\u00e3o salarial?<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, evidente. Aquilo que nos roubam do nosso sal\u00e1rio n\u00e3o vai para o sal\u00e1rio dos homens [trabalhadores].<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">H\u00e1 quem entenda que haver mais mulheres em cargos de chefia ou em cargos de administra\u00e7\u00e3o de grandes empresas permitiria esbater essa desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>Bom, se n\u00f3s formos ver em algumas empresas, cujos cargos de topo s\u00e3o ocupados por mulheres, e se formos analisar se isso fez aumentar ou diminuir, neste caso, a discrimina\u00e7\u00e3o salarial, por exemplo, ou as discrimina\u00e7\u00f5es indiretas que vezam sobre as mulheres, eu acho que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma evid\u00eancia nesse sentido. Naturalmente que o MDM sempre se bateu, e bate-se, para que n\u00e3o haja nenhuma discrimina\u00e7\u00e3o no acesso das mulheres, por exemplo, \u00e0 carreira, como \u00e9 \u00f3bvio. Mas n\u00f3s n\u00e3o vemos a participa\u00e7\u00e3o das mulheres apenas num \u00e2mbito de representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, e neste caso representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, por exemplo, na Assembleia da Rep\u00fablica ou nas autarquias, ou nas chefias das multinacionais. A nossa quest\u00e3o de princ\u00edpio prende-se com a possibilidade, para j\u00e1, de n\u00e3o haver nenhuma forma institucional de discrimina\u00e7\u00e3o, como existia de proibi\u00e7\u00e3o concreta da participa\u00e7\u00e3o das mulheres em v\u00e1rios espa\u00e7os da vida, mas a participa\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o se esgota nisto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres para participarem precisam de ter condi\u00e7\u00f5es sociais e econ\u00f3micas para o fazer. Portanto, n\u00e3o nos opomos a uma ideia de que as mulheres t\u00eam que ocupar lugares de topo, desde logo na administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica, mas o que nos preocupa \u00e9 por que \u00e9 que as mulheres n\u00e3o os ocupam. E n\u00e3o os ocupam porque h\u00e1 atrasos muito substanciais naquilo que \u00e9 a capacidade das mulheres progredirem na carreira. Mas vamos l\u00e1 ver, h\u00e1 quanto tempo \u00e9 que as carreiras est\u00e3o congeladas? O problema do congelamento das carreiras \u00e9 um obst\u00e1culo muito s\u00e9rio para que as mulheres possam ocupar lugares de topo e, portanto, isto tem que entrar na esfera daquilo que \u00e9 a discuss\u00e3o desta mat\u00e9ria, n\u00e3o pode ser um ato isolado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Mas existem desigualdades, tamb\u00e9m, dentro das paredes de casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Claro, n\u00e3o negamos, \u00e9 uma evid\u00eancia. Portanto, as mulheres continuam a ser discriminadas n\u00e3o apenas no quadro do trabalho mas no quadro tamb\u00e9m da fam\u00edlia e no quadro da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Que consequ\u00eancias \u00e9 que a pandemia trouxe para a realidade das mulheres?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, creio que \u00e9 preciso reconhecer que vivemos tempos muito dif\u00edceis, que t\u00eam um impacto profundo, a v\u00e1rios n\u00edveis, na vida das pessoas. E todos n\u00f3s enfrent\u00e1mos profundas tens\u00f5es, muitas perdas, e muitas delas dolorosas, debatemo-nos, muitas vezes, com a impossibilidade de conciliar aquilo que \u00e9 a vida profissional com a vida familiar, com a vida pessoal\u2026 Porque as mulheres tamb\u00e9m t\u00eam vida pessoal, t\u00eam direito ao lazer. \u00c9 verdade que usam pouco, t\u00eam pouco usufruto desse direito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que enfrentamos uma pandemia, \u00e9 verdade que ela tem que ser enfrentada mas \u00e9 verdade tamb\u00e9m que tem tido um impacto terr\u00edvel e profundamente desproporcional na vida das mulheres. A economia continua a funcionar, com muitas dificuldades, com grandes perdas como n\u00f3s sabemos, e que ter\u00e1 seguramente, num futuro pr\u00f3ximo, consequ\u00eancias muito mais dram\u00e1ticas do que j\u00e1 tem na realidade ou que j\u00e1 tem hoje, mas as mulheres continuam a trabalhar. E continuam a trabalhar em n\u00fameros elevad\u00edssimos. S\u00e3o elas que est\u00e3o, como dizia, que est\u00e3o na linha da frente. Se formos aos hospitais, quem s\u00e3o as pessoas que est\u00e3o a trabalhar, na maioria? \u00c9 um setor de mulheres, no essencial. E n\u00e3o estou s\u00f3 a falar das m\u00e9dicas e das enfermeiras. Quem \u00e9 que mant\u00e9m os supermercados a funcionar? S\u00e3o, no essencial, as mulheres. Quem \u00e9 que mant\u00e9m a educa\u00e7\u00e3o, no essencial, a funcionar? S\u00e3o as mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>As que est\u00e3o em teletrabalho est\u00e3o com uma sobrecarga familiar brutal, est\u00e3o a trabalhar muito mais horas, est\u00e3o permanentemente ligadas. Recebemos algumas den\u00fancias, por exemplo de mulheres muito jovens, m\u00e3es com os filhos em casa, que trabalham, por exemplo, na teleassist\u00eancia e que est\u00e3o permanentemente com as crian\u00e7as aos gritos e n\u00e3o conseguem, de forma alguma, garantir nem o bem-estar da crian\u00e7a, nem acompanhar a escola em casa, nem efetuar o seu trabalho. Quantas delas n\u00e3o est\u00e3o a assumir tamb\u00e9m o cuidado dos seus ascendentes, das pessoas mais idosas, acompanhando os seus pais. H\u00e1 de facto uma sobrecarga muito grande sobre estas mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Existem diferentes realidades entre as pr\u00f3prias mulheres. O MDM tem trabalho sobre isso?<\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0s mulheres com defici\u00eancia, h\u00e1 v\u00e1rias realidades porque h\u00e1 muitos tipos de defici\u00eancias. H\u00e1 mulheres que t\u00eam defici\u00eancia e que trabalham, h\u00e1 mulheres que s\u00e3o m\u00e3es de pessoas com defici\u00eancia e que n\u00e3o deixam de tamb\u00e9m estar no quadro desta realidade e, portanto, preocupa-nos muito o pouco conhecimento. Ou seja, as mulheres imigrantes, as mulheres com defici\u00eancia, s\u00e3o as mais invis\u00edveis de todas n\u00f3s e, portanto, n\u00f3s n\u00e3o conhecemos, neste momento, a extens\u00e3o do impacto que isto est\u00e1 a ter nas suas vidas. Mas dou um exemplo muito concreto: as mulheres ciganas: o MDM, neste momento, est\u00e1 a desenvolver com a AMUCIP [Associa\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento das Mulheres Ciganas Portuguesas] um projeto de educa\u00e7\u00e3o, no munic\u00edpio do Seixal. Trata-se de um projeto de educa\u00e7\u00e3o formal e informal de mulheres ciganas. Esta era uma oportunidade que estas mulheres estavam a ter de elevar a sua forma\u00e7\u00e3o e at\u00e9 da sua participa\u00e7\u00e3o, era um espa\u00e7o, muito importante. As coisas est\u00e3o mais ou menos interrompidas\u2026 Estamos a encontrar solu\u00e7\u00f5es mas n\u00e3o s\u00e3o as mesmas solu\u00e7\u00f5es que permitiriam \u00e0s mulheres desenvolverem a atividade que estava projetada com elas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">A mediatiza\u00e7\u00e3o do discurso da extrema-direita contra as mulheres e contra as camadas da popula\u00e7\u00e3o que se estava a referir \u00e9 uma coisa que vos preocupa?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Claro que sim. At\u00e9 porque essa faz parte da nossa matriz. O MDM nasce durante o fascismo, n\u00e3o \u00e9? Como costumamos dizer, \u00e9 herdeiro do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas. E, portanto, sabemos bem o que \u00e9 que o fascismo tem como consequ\u00eancia negativa na vida das mulheres e naquilo que \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do estatuto social das mulheres nesse regime. Sabemos bem o que \u00e9 que o 25 de Abril nos permitiu. O 25 de Abril permitiu \u00e0s mulheres portuguesas um estatuto de igualdade que n\u00e3o existia e que nunca teve possibilidade de existir durante o fascismo. Portanto, a matriz do MDM \u00e9 profundamente antifascista. E n\u00f3s estamos a assistir a um processo \u2014 que n\u00e3o dizemos que \u00e9 novo, por c\u00e1 sempre andou \u2014 mas neste momento salta das pedras, perdeu toda a vergonha, procura muscular, integra-se em estruturas importantes da sociedade e vai ganhando, naturalmente, eu n\u00e3o diria for\u00e7a, mas express\u00e3o \u00e0 medida em que tamb\u00e9m muita comunica\u00e7\u00e3o social o leva ao colo. Se vir bem, em 2015 \u2013 \u00e9 preciso ter cuidado porque eu n\u00e3o quero chamar fascistas a estes senhores porque n\u00e3o \u00e9 disso que se trata \u2013 na altura da interven\u00e7\u00e3o da troika, a \u00faltima lei a ser aprovada pelo governo de Passos Coelho, \u00e0s sete da tarde, no \u00faltimo momento da legislatura, foi a lei que retirou \u2014 momentaneamente mas retirou \u2014 \u00e0s mulheres o direito \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez, tal como n\u00f3s lut\u00e1mos durante tantos anos para ter. E, portanto, esta direita nunca aceitou e nunca perdoou aquilo que foram as conquistas das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Algo curioso, \u00e9 o facto de a prostitui\u00e7\u00e3o&nbsp;ter sido amplamente tolerada durante o fascismo e, simultaneamente, haver grupos que defendem que a prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma&nbsp;forma de trabalho e que deve ser liberalizada. Como \u00e9 que isto \u00e9 compat\u00edvel?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel, como \u00e9 \u00f3bvio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 trabalho?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o, prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 trabalho, embora o neoliberalismo nos queira fazer acreditar que tudo em que existe uma troca de dinheiro entre as pessoas se transformou em trabalho. Ora, eu creio que tamb\u00e9m se fez um longo percurso da express\u00e3o de luta dos trabalhadores para que existisse uma defini\u00e7\u00e3o muito clara daquilo que \u00e9 trabalho. E n\u00e3o \u00e9 preciso ir muito longe, basta usar aquilo que \u00e9 a pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho para sabermos que, naturalmente, a prostitui\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um trabalho, nem decente nem digno para ningu\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">O patriarcado \u00e9 um dos pilares da prostitui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>A prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 um sistema, n\u00e3o \u00e9? E, como sistema, pelo menos interv\u00eam aqui tr\u00eas aspetos muito importantes, ou digamos, indispens\u00e1veis. Uma pessoa que \u00e9 prostitu\u00edda \u2013 e o MDM n\u00e3o utiliza a express\u00e3o prostituta nem prostituto \u2013, existe um proxeneta, ou v\u00e1rios proxenetas, e existe, naturalmente, aquilo que s\u00e3o os prostituidores. Portanto, naturalmente que o papel do consumidor de prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 muito relevante e \u00e9 muito importante. Por falar do confinamento, em mar\u00e7o do ano passado, quando come\u00e7ou, em Espanha, uma das medidas tomada pelos canais de televis\u00e3o foi abrir os canais pagos de pornografia para o consumo generalizado da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Ou seja, a prostitui\u00e7\u00e3o, desde a d\u00e9cada de 90, que se alterou radicalmente. Deixou de ser uma coisa que existia de recurso de algumas pessoas para se transformar, de facto, numa ind\u00fastria. Hoje, \u00e9 uma ind\u00fastria. Se uma mulher rende a cada proxeneta na Europa cerca de 110 mil euros anuais, ou se esta ind\u00fastria anualmente tem cerca de 183 mil milh\u00f5es de euros de lucros, portanto, n\u00f3s n\u00e3o estamos aqui a falar de uma brincadeira. Massificou-se, ampliou-se e diversificou-se tamb\u00e9m nos meios, nas plataformas em que \u00e9 praticada e veio para ficar. Portanto, no nosso pa\u00eds o enquadramento legal, que \u00e9 um enquadramento de inspira\u00e7\u00e3o abolicionista e n\u00e3o h\u00e1 nenhuma pessoa que seja prostitu\u00edda e que seja penalizada legalmente pelo facto de o fazer, o que \u00e9 de facto penalizado \u00e9 o lenoc\u00ednio. Tampouco o cliente \u00e9 penalizado. <\/p>\n\n\n\n<p>As pessoas prostitu\u00eddas, de facto, s\u00e3o pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de grande vulnerabilidade, de grande viol\u00eancia, de aus\u00eancia total de direitos e tem sido usado este argumento que \u00e9 verdadeiro para, de uma forma aviltante, levar a \u00e1gua ao moinho de quem defende a legaliza\u00e7\u00e3o. O que aconteceu muito recentemente e que, de certa forma, nos ajuda a clarificar tem a ver com o facto de ter entrado uma peti\u00e7\u00e3o na Assembleia da Rep\u00fablica levada a cabo por uma proxeneta. E o que pretende \u00e9 a legaliza\u00e7\u00e3o, a despenaliza\u00e7\u00e3o ou descriminaliza\u00e7\u00e3o, se quiseres, do lenoc\u00ednio, ou seja, dar m\u00e3os livres aos proxenetas. <\/p>\n\n\n\n<p>As mulheres n\u00e3o nascem com nenhum bot\u00e3o nem com nenhum gene especial que \u00e9 acionado em algum momento da sua vida para o desejo de fazer uma carreira na prostitui\u00e7\u00e3o. O que leva as mulheres \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o s\u00e3o, no essencial, quest\u00f5es econ\u00f3micas, s\u00e3o quest\u00f5es de grande viol\u00eancia. \u00c9 um problema muito concreto que seria resolvido, seguramente, se as mulheres tivessem oportunidades decentes para os resolver sem recurso \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"pergunta\">Qual \u00e9 a import\u00e2ncia de celebrar o 8 de Mar\u00e7o?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00f3s costumamos dizer que o 8 de Mar\u00e7o n\u00e3o \u00e9 um dia qualquer porque \u00e9 um dia que se reveste de atualidade. Se n\u00f3s olharmos para aquilo que eram as reivindica\u00e7\u00f5es de h\u00e1 cento e tal anos, elas continuam atuais. E, portanto, o 8 de Mar\u00e7o \u00e9 um dia que lembra qu\u00e3o fr\u00e1gil, desigual e injusto \u00e9, ainda, o estatuto das mulheres na sociedade. Para n\u00f3s \u00e9 um dia de luta para denunciar as causas e as consequ\u00eancias dessa desigualdade nas nossas vidas e, sobretudo, para apontar caminhos e para fazer exig\u00eancias. E \u00e9 tamb\u00e9m um dia de profunda solidariedade com as mulheres do Saara Ocidental que continuam agora em guerra novamente, a lutar pela autodetermina\u00e7\u00e3o, pela independ\u00eancia dos seus povos e dos seus pa\u00edses, com as mulheres da Palestina, com as mulheres que na Pol\u00f3nia continuam a lutar pelo direito \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o volunt\u00e1ria da gravidez, por todas as express\u00f5es de luta e de resist\u00eancia das mulheres. N\u00e3o apenas no que toca aos seus direitos pr\u00f3prios mas tamb\u00e9m com a luta que desenvolvem, com o contributo que d\u00e3o para o desenvolvimento dos seus pa\u00edses e para a autodetermina\u00e7\u00e3o e independ\u00eancia dos seus povos. Temos conseguido mostrar que \u00e9 pelo caminho da luta, uma luta que seja organizada, com objetivos muito concretos, que se defende, se garante e se cumprem os direitos das mulheres. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es de absoluto terrorismo. Por exemplo, n\u00f3s tivemos contacto com uma jovem que, numa situa\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria, engravidou e lhe foi dito \u201cque pena teres engravidado agora no momento em que te \u00edamos renovar o contrato\u201d. E ela teve de fazer uma op\u00e7\u00e3o muito dif\u00edcil porque tinha outro beb\u00e9 em casa. E depois de ter tomado essa decis\u00e3o dif\u00edcil n\u00e3o lhe renovaram o contrato. E se isto n\u00e3o \u00e9 viol\u00eancia, \u00e9 o qu\u00ea? A viol\u00eancia n\u00e3o \u00e9 apenas aquela que acontece no contexto de intimidade, entre uma e outra pessoa. Isto \u00e9 viol\u00eancia institucional, \u00e9 terrorismo e \u00e9 muito daquilo que as mulheres est\u00e3o a viver.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 8 de Mar\u00e7o, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. Apesar dos avan\u00e7os conquistados, subsistem muitas formas de discrimina\u00e7\u00e3o. Sandra Benfica \u00e9 dirigente do Movimento Democr\u00e1tico de Mulheres e considera que \u00e9 atrav\u00e9s da luta que se defendem, se garantem e se cumprem os direitos das mulheres. Estamos em 2021 e as mulheres continuam &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/03\/01\/sandra-benfica-o-preconceito-e-um-instrumento\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Sandra Benfica: &#8220;O preconceito \u00e9 um instrumento&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":4362,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4361"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4361"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4361\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4432,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4361\/revisions\/4432"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4362"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4361"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}