{"id":4335,"date":"2021-02-24T08:45:02","date_gmt":"2021-02-24T08:45:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4335"},"modified":"2021-02-24T08:45:05","modified_gmt":"2021-02-24T08:45:05","slug":"tal-qual-o-corpo-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/02\/24\/tal-qual-o-corpo-da-cidade\/","title":{"rendered":"Tal Qual o Corpo da Cidade"},"content":{"rendered":"\n<p>As ruas de Lisboa t\u00eam uma agita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Os dias correm por elas com az\u00e1famas de muitas vidas. Mas se em qualquer uma delas se der o acaso de nos encontrarmos com o sil\u00eancio e se conseguirmos ouvir adiante desse sil\u00eancio, n\u00e3o ser\u00e1 estranho que ou\u00e7amos a voz de Carlos do Carmo, como um preg\u00e3o, um aceno, uma onda que desagua devagarinho, onde o Tejo encontra a sua margem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu lembro-me dessa Lisboa da fadistagem, at\u00e9 o cheirinho que a cidade tinha. \u00cdamos ao Faia todos os anos, e ouv\u00edamos o Carlos. Pensava sempre que Lisboa era aquele homem e aquele homem era Lisboa\u201d, disse-nos Pedro. \u201cEu era pequena e pedia \u00e0 minha av\u00f3 um xaile e num cantinho da sala cantava o C<em>anoa do Tejo<\/em>, s\u00f3 para no fim poder ouvir o meu av\u00f4 dizer: melhor que tu, s\u00f3 cantado pelo Carlos do Carmo\u201d, acrescenta Isabel. \u201cFado. Para mim, Am\u00e1lia era o seu lado feminino, e Carlos do Carmo, o masculino. Hoje, no reino dos c\u00e9us, l\u00e1 onde habitam os deuses, haver\u00e1 um bonito encontro de fado e poesia\u201d disse Rosa, no dia da sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Carlos do Carmo mora na mem\u00f3ria de muitos de n\u00f3s. Foi para muitos companhia da vida inteira, no r\u00e1dio, nos discos, nas poesias ditas e cantadas ao ouvido. Deixou-nos no primeiro dia do ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Certamente que sem ele o fado n\u00e3o seria hoje o que \u00e9: pelo tanto que cantou, como cantou, com quem cantou, a quem pediu poemas, por todos os fadistas mais novos que \u201clevou pela m\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Filho de uma importante fadista, Luc\u00edlia do Carmo, deambulou por outros destinos e caminhos, at\u00e9 regressar inevitavelmente ao seio do fado quando assumiu a gest\u00e3o do Faia, onde come\u00e7ou a cantar publicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1964 grava uma vers\u00e3o do&nbsp;<em>Loucura&nbsp;<\/em>que pelo engenho e aud\u00e1cia incendeia o mundo do fado. Incorporou sem pudor todas as suas influ\u00eancias musicais que n\u00e3o se limitavam ao fado, tra\u00e7o que manteve ao longo de toda a carreira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na sequ\u00eancia da distin\u00e7\u00e3o enquanto melhor interprete pela Casa da Imprensa em 1967, grava o seu primeiro \u00e1lbum e lan\u00e7a assim a primeira pedra do \u201ccastelo\u201d que viria a erigir no meio. Um dos pontos altos da sua carreira viria a acontecer com o lan\u00e7amento de&nbsp;<em>Um Homem na Cidade<\/em>, \u00e1lbum clamado como inovador pelas suas composi\u00e7\u00f5es, onde apenas canta poemas de Ary dos Santos. Esta foi aposta que manteve ao longo do tempo, trazendo ao universo do fado autores como Ant\u00f3nio Lobo Antunes, J\u00falio Pomar, Jos\u00e9 Saramago. E tamb\u00e9m musicalmente se manteve ousado editando \u00e1lbuns conjuntos com Bernardo Sassetti ou Maria Jo\u00e3o Pires.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Envolveu-se sempre com a vida da cidade, com as suas pessoas e n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio n\u00e3o podemos deixar de lembr\u00e1-lo, pela rela\u00e7\u00e3o profunda que connosco desenvolveu. Em 1992 foi-lhe atribu\u00eddo o t\u00edtulo de S\u00f3cio Honor\u00e1rio e entre tantos outros gestos, em 2008, o fadista doou as receitas do espect\u00e1culo comemorativo dos seus 45 anos de carreira \u00e0 institui\u00e7\u00e3o, num momento particularmente dif\u00edcil. Em 2017, na primeira Gala de Fado d\u2019a Voz do Oper\u00e1rio, foi-lhe atribu\u00eddo o Pr\u00e9mio Solidariedade, como express\u00e3o desta rela\u00e7\u00e3o de companheirismo t\u00e3o c\u00famplice.<\/p>\n\n\n\n<p>A par de todo o sucesso do seu trabalho nunca deixou de ser um homem de fortes convic\u00e7\u00f5es, cr\u00edtico da noite fascista, defensor da liberdade c\u00edvica e art\u00edstica. Quando em 2014 lhe foi atribu\u00eddo um Grammy Latino que celebrava todo o seu percurso (o primeiro atribu\u00eddo a um artista portugu\u00eas) n\u00e3o recebeu os parab\u00e9ns do ent\u00e3o Presidente da Rep\u00fablica, Cavaco Silva \u2013 muitos supuseram que talvez como consequ\u00eancia da sua proximidade com o Partido Comunista Portugu\u00eas \u2013 anos mais tarde, quando numa entrevista lhe perguntaram se a falta de apoio o havia incomodado, respondeu com um franco sorriso que n\u00e3o, \u201cconsiderei at\u00e9 um elogio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A cidade, o pa\u00eds e o povo sentir\u00e3o falta das suas cantigas, do aconchego das suas palavras, do embalo da sua m\u00fasica. Devemos ficar atentos ao lugar depois dos sil\u00eancios, por todas as ruas, certamente que a\u00ed, o encontraremos sempre.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As ruas de Lisboa t\u00eam uma agita\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Os dias correm por elas com az\u00e1famas de muitas vidas. 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