{"id":4321,"date":"2021-02-24T08:36:13","date_gmt":"2021-02-24T08:36:13","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4321"},"modified":"2021-02-24T08:36:15","modified_gmt":"2021-02-24T08:36:15","slug":"os-velhos-e-os-novos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/02\/24\/os-velhos-e-os-novos\/","title":{"rendered":"Os velhos e os novos&#8230;"},"content":{"rendered":"\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 velhos no jardim do meu bairro. Foi o v\u00edrus e o frio que os espantaram.<\/p>\n\n\n\n<p>Vem, pois, da mem\u00f3ria a imagem que ent\u00e3o me encantava: havia aqueles que l\u00e1 iam para apanhar sol e se quedavam sentados num banco, o queixo apoiado na bengala e se limitavam a olhar \u00e0 volta e com isso se sentiam vivos; havia os que se sentavam nas mesas que l\u00e1 h\u00e1 e jogavam \u00e0s cartas, rodeados por uns quantos interessados mas que, fi\u00e9is a um princ\u00edpio \u00e9tico, impl\u00edcito, comentavam sem interferirem no jogo; e havia ainda, talvez o grupo mais numeroso, aqueles que se juntavam para conversar e comentar acontecimentos que tanto podiam&nbsp;&nbsp;ser de car\u00e1ter futebol\u00edstico, mundano ou pol\u00edtico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje nada disto acontece e ousa-se perguntar como ser\u00e1 em meados de 2021 quando, assim se espera, o v\u00edrus for excomungado, mandado para as profundezas do inferno, nos deixe em paz e os velhos do jardim do meu bairro voltarem a conviver, sejam os mesmos ou mais aqueles que se lhes juntarem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a velhice compara-se bem aos alcatruzes de uma nora \u2013 h\u00e1 sempre os que v\u00e3o chegando e h\u00e1 sempre aqueles que v\u00e3o desaparecendo\u2026 e isso p\u00f5e-nos a adivinhar como ser\u00e3o os novos velhos do s\u00e9culo XXI, no per\u00edodo p\u00f3s-pandemia, que substituir\u00e3o os velhos que h\u00e1 tempos se reuniam no jardim do meu bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 muito prov\u00e1vel que j\u00e1 n\u00e3o sejam os mesmos e \u00e9 quase certo que os novos velhos ter\u00e3o h\u00e1bitos e comportamentos diferentes dos velhos de hoje \u2013 j\u00e1 n\u00e3o jogar\u00e3o \u00e0s cartas, nem \u00e0 bisca lambida, nem \u00e0 sueca, nem ao sete-e-meio, nem a qualquer outro jogo, \u00e9 at\u00e9 prov\u00e1vel que n\u00e3o se juntem, nem conversem ou simplesmente olhem e vejam o que se passa \u00e0 sua volta. Quase certo \u00e9 que a solid\u00e3o vir\u00e1 ter com eles e passar\u00e3o dias ausentes de si pr\u00f3prios a olharem sem verem o que passa na televis\u00e3o ou mergulhados em qualquer dos outros instrumentos (sem d\u00favida maravilhosos) que lhes fornecer\u00e3o divertimento, informa\u00e7\u00e3o e cultura j\u00e1 digerida ou semi-digerida como a papa que os alimentar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma coisa \u00e9 certa: a situa\u00e7\u00e3o atual pode ser ponto de partida para a configura\u00e7\u00e3o de uma nova pol\u00edtica p\u00fablica para a velhice, porque se assim n\u00e3o for, maior ser\u00e1 o n\u00famero do que, hoje novos, quando forem velhos estar\u00e3o mudos, quedos, sozinhos, sem nem sequer olharem \u00e0 volta a mandar e receber mensagens estereotipadas ou not\u00edcias enlatadas.<\/p>\n\n\n\n<p>Excluindo aqueles a quem a doen\u00e7a limita, por n\u00e3o andarem, por n\u00e3o ouvirem, por n\u00e3o verem ou porque se lhe emperra o pensamento e n\u00e3o conseguindo totalmente superar essas limita\u00e7\u00f5es, o potencial de participa\u00e7\u00e3o de todos os velhos \u00e9 consider\u00e1vel e muito mais poder\u00e1 ser se for implementado e isto sem recorrer \u00e0 excepcionalidade de Beethoven, que no final da sua vida era surdo e ainda compunha, Helen Keller, que cega desde crian\u00e7a, chegou onde chegou ou de Stephen Hawking, cosm\u00f3logo, que ficou velho, cinquenta anos antes de morrer e sempre trabalhou e foi \u00fatil na difus\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso aqui se ousa afirmar que a velhice se dever\u00e1 come\u00e7ar a preparar no jardim de inf\u00e2ncia pois \u00e9 ent\u00e3o que lan\u00e7am as sementes pelo gosto da vida, o saber ler, o saber ouvir todos os outros e a m\u00fasica, o saber desenhar que \u00e9 forma universal de comunicar, o conhecer as potencialidades expressivas do nosso corpo, o dan\u00e7ar ou apreciar a dan\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 velhos no jardim do meu bairro. 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