{"id":4300,"date":"2021-02-02T17:05:37","date_gmt":"2021-02-02T17:05:37","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4300"},"modified":"2021-03-01T23:26:58","modified_gmt":"2021-03-01T23:26:58","slug":"eleicoes-americanas-e-como-os-eua-continuarao-a-ser-os-eua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/02\/02\/eleicoes-americanas-e-como-os-eua-continuarao-a-ser-os-eua\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00f5es Americanas e como os EUA continuar\u00e3o a ser os EUA"},"content":{"rendered":"\n<p>Como portugu\u00eas emigrado nos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA) acompanhei com todo o interesse as elei\u00e7\u00f5es americanas desde as prim\u00e1rias at\u00e9 \u00e0 tomada de posse de Joe Biden que ocorreu no passado dia 20 de Janeiro. Era fundamental que estas elei\u00e7\u00f5es fossem marcadas pela derrota de um Presidente com uma vis\u00e3o fascizante, conservadora, racista e promotora de \u00f3dios. Como imigrante trabalhador, senti e ainda sinto na pr\u00e1tica algumas das medidas injustas que Donald Trump procurou aplicar ao longo do seu mandato. Mas mais do que isto, vi como os sectores mais conservadores da sociedade se galvanizaram atr\u00e1ves de Trump e da sua presid\u00eancia. O \u00f3dio e o preconceito banalizaram-se e aqueles que o promovem ganharam confian\u00e7a e, com isso, for\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em todo o per\u00edodo pr\u00e9-eleitoral e eleitoral, Donald Trump fez tudo para radicalizar ainda mais o que era um discurso j\u00e1 radical. Perante a pandemia, a palavra de ordem do ex-Presidente foi fragilizar ainda mais os mais fragilizados. Desta forma, tentou atrasar a aprova\u00e7\u00e3o dos est\u00edmulos econ\u00f3micos que ajudariam aqueles que no contexto do COVID-19 se viram sem emprego e sem uma seguran\u00e7a social que os pudesse proteger. Da mesma forma, Trump colocou milh\u00f5es de imigrantes entre a espada e a parede por via da suspens\u00e3o da atribui\u00e7\u00e3o ou renova\u00e7\u00e3o de vistos e do refor\u00e7o das iniciativas de ex-patriamento por parte do ICE, os servi\u00e7os respons\u00e1veis pela imigra\u00e7\u00e3o nos EUA. Por tudo isto, deixei de me surpreender por ver sindicalistas ou aqueles envolvidos na luta dos direitos humanos empenhados em participar activamente nas elei\u00e7\u00f5es americanas e na sua derrota. Tornou-se compreens\u00edvel. Era a batalha necess\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de tudo o que descrevi anteriormente, Trump teve a capacidade de levar a pol\u00edtica ao plano do irracional. Disse que o COVID-19 ia desaparecer sozinho. Disse para as pessoas injectarem lix\u00edvia. Distorceu a verdade a uma velocidade quase superior \u00e0quela com que falava. Gerou e alimentou \u00f3dios. Promoveu e procurou banalizar a extrema-direita. Tudo isto foi certamente horr\u00edvel de observar. Por fim, aquilo que se viu no Capit\u00f3lio, no dia 6 de Janeiro, representou simplesmente o momento apote\u00f3tico da vis\u00e3o fascizante, anti-democr\u00e1tica e racista que Trump promoveu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para mim, como imigrante nos EUA, a op\u00e7\u00e3o de quem era melhor era demasiado \u00f3bvia nestas elei\u00e7\u00f5es. Para todos que se posicionam na defesa da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o universal ou em prol da redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais ficou claro que Donald Trump tinha de ser derrotado. Na verdade, arrisco-me a dizer que nos \u00faltimos 30 anos, nunca dois candidatos pareceram t\u00e3o diferentes numas elei\u00e7\u00f5es americanas. A culpa disso \u00e9 exclusivamente de Donald Trump e de tudo o que defendeu e de como o defendeu. Mas isso n\u00e3o faz Biden diferente do que sempre foi. Altera o contexto das elei\u00e7\u00f5es, claro. E o contexto importa. Mas por favor, n\u00e3o esque\u00e7amos que Biden tem responsabilidades na pol\u00edtica americana h\u00e1 quase quatro d\u00e9cadas. Esteve envolvido em Administra\u00e7\u00f5es desde o tempo de Clinton e antes disso j\u00e1 era um senador influente. Donald Trump defender tudo o que \u00e9 repudi\u00e1vel n\u00e3o altera a natureza de Joe Biden e tudo aquilo que ele tem defendido. Mas a derrota de Trump n\u00e3o garante, de forma alguma, que haja uma pol\u00edtica orientada para defender os mais fracos. Para isso, tamb\u00e9m a pol\u00edtica defendida por Joe Biden precisa de ser derrotada. Deixem-me ser um pouco mais claro. Mesmo com Joe Biden, o cidad\u00e3o m\u00e9dio americano continuar\u00e1 muito longe de ter acesso aos direitos que na maioria das constitui\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses europeus est\u00e3o garantidos universalmente e mais longe ainda do que os progressistas do mundo continuam a reinvidicar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que seguramente n\u00e3o pareceu isso a muitos dos que acompanharam as elei\u00e7\u00f5es e h\u00e1 muitos leitores a torcer o nariz neste momento. O espect\u00e1culo proporcionado pelo modelo presidencialista americano e que faz os partidos ref\u00e9ns das suas vedetas tem tudo para atriar multid\u00f5es dentro dos EUA mas tamb\u00e9m para o Resto do Mundo. \u00c9 tamb\u00e9m um espect\u00e1culo, de cor, publicidade, acontecimentos provocados e outros acidentais. Os \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o tomam partido. Ver um ou outro canal televisivo \u00e9 como ver uma televis\u00e3o afiliada com um partido. Toda a gente tem de ter uma posi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 objectividade. Com isto tudo, o espect\u00e1culo torna-se envolvente e transborda fronteiras. O mundo global tem a capacidade de tornar pr\u00f3ximas coisas que acontecem do outro lado do mundo. Apenas um \u00e0parte para dizer que n\u00e3o me parece que seja assim com tudo. Fico com a impress\u00e3o que se determinado acontecimento sucede nos EUA ou na Europa dos Ricos (Paris, Londres, Berlim) a aten\u00e7\u00e3o dada em Portugal \u00e9 infinitamente proporcional do que se o mesmo fen\u00f3meno se passasse num qualquer pa\u00eds africano ou asi\u00e1tico. Acabamos por nos sentir familiarizados com coisas que acontecem sem nos apercebermos que o que chega at\u00e9 n\u00f3s \u00e9 sempre uma vis\u00e3o simplificada da realidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi neste contexto que me apercebi que alguns dos meus conhecidos e amigos em Portugal acompanharam esta elei\u00e7\u00e3o com uma esperan\u00e7a redobrada que s\u00f3 consigo explicar se acreditar que eles partilham da convic\u00e7\u00e3o que um ou outro resultado ia influenciar a sua vida. Vi pessoas e \u00f3rg\u00e3os de comunica\u00e7\u00e3o a dar mais aten\u00e7\u00e3o a estas elei\u00e7\u00f5es do que a acontecimentos relevantes em Portugal e isso deixou-me confuso. Deixem-me ser mais claro. \u00c9 minha convic\u00e7\u00e3o que se para um americano de rendimento m\u00e9dio, trabalhador, latino ou negro, \u00e9 diferente que Joe Biden tenha ganho, tamb\u00e9m acredito que para um trabalhador em Portugal isso n\u00e3o far\u00e1 grande diferen\u00e7a. Os EUA j\u00e1 provaram que a sua natureza intervencionista no mundo n\u00e3o depende exactamente de quem \u00e9 o seu Presidente. Se \u00e9 verdade que os discursos de Obama podem ser comoventes e que o Obamacare revolucionou o acesso \u00e0 sa\u00fade nos EUA, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que as ac\u00e7\u00f5es na L\u00edbia ou no M\u00e9dio Oriente n\u00e3o podem ser esquecidas. Claro que n\u00e3o \u00e9 indiferente que o Presidente dos EUA tenha uma mensagem mais pacificadora ou uma outra mais incendi\u00e1ria, mas o que seria mesmo diferente e radicalmente novo era que houvesse um Presidente dos EUA empenhado em alterar o posicionamento que este pa\u00eds tem tido em termos geo-pol\u00edticos e em termos econ\u00f3micos. Um Presidente que fosse capaz de ter uma vis\u00e3o menos imperial e mais solid\u00e1ria. Que levantasse o embargo a Cuba e que em vez de balas e m\u00edsseis enviasse comida e m\u00e9dicos. Esse Presidente n\u00e3o \u00e9 seguramente Joe Biden e para a esquerda americana \u00e9 mais que compreens\u00edvel que com Trump e Biden h\u00e1 sempre muita luta a fazer. Quanto ao resto do mundo, esse tem que entender que entre um Presidente mais rude ou outro mais fofinho, os EUA continuar\u00e3o a ser a sede das maiores multi-nacionais mundiais e ter\u00e3o o objectivo de aprofundar a domina\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e de explorar de forma insustent\u00e1vel os recursos mundiais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como portugu\u00eas emigrado nos Estados Unidos da Am\u00e9rica (EUA) acompanhei com todo o interesse as elei\u00e7\u00f5es americanas desde as prim\u00e1rias at\u00e9 \u00e0 tomada de posse de Joe Biden que ocorreu no passado dia 20 de Janeiro. 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