{"id":4264,"date":"2021-02-02T16:29:58","date_gmt":"2021-02-02T16:29:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4264"},"modified":"2021-03-01T23:04:39","modified_gmt":"2021-03-01T23:04:39","slug":"a-primeira-reuniao-do-pcp-foi-logo-proibida-ainda-em-1920","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/02\/02\/a-primeira-reuniao-do-pcp-foi-logo-proibida-ainda-em-1920\/","title":{"rendered":"A primeira reuni\u00e3o do PCP foi logo proibida, ainda em 1920"},"content":{"rendered":"\n<p>Estava marcada para o dia 22 de Dezembro de 1920, na sede de um sindicato (a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Caixeiros de Lisboa), na rua Ant\u00f3nio Maria Cardoso. Seria a primeira reuni\u00e3o da rec\u00e9m formada \u201cComiss\u00e3o Organizadora\u201d do Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo \u00e0 partida, um dos membros, Manuel Ribeiro, n\u00e3o poderia participar porque era preso pol\u00edtico h\u00e1 j\u00e1 dois meses. A reuni\u00e3o ainda teve in\u00edcio, sob a presid\u00eancia de Eduardo Metzner. Mas a pol\u00edcia invadiu o edif\u00edcio e n\u00e3o \u201cconsentiu\u201d que a reuni\u00e3o prosseguisse.<\/p>\n\n\n\n<p>Alegou a for\u00e7a de autoridade que os promotores da reuni\u00e3o n\u00e3o possu\u00edam a devida autoriza\u00e7\u00e3o do governador civil, e que n\u00e3o podiam ser discutidos assuntos pol\u00edticos na sede de um sindicato.<\/p>\n\n\n\n<p>Era o Portugal da 1\u00aa Rep\u00fablica. Desta vez, a pol\u00edcia limitou-se a impedir a reuni\u00e3o sem prender ningu\u00e9m. Mas foi relativamente comum esse tipo de repress\u00e3o sobre reuni\u00f5es perfeitamente pac\u00edficas de diferentes estruturas da classe trabalhadora (do jovem PCP a sindicatos e ao velho Partido Socialista Portugu\u00eas).<\/p>\n\n\n\n<p>Este caso foi particularmente simb\u00f3lico por se tratar da primeira reuni\u00e3o do PCP e da primeira repress\u00e3o que este partido sofreu, logo \u00e0 nascen\u00e7a, ainda antes de enfrentar a mais longa ditadura fascista. E por se ter realizado no mesmo edif\u00edcio onde depois funcionou a sede da PIDE.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A sede da PIDE<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1920 era uma das mais importantes sedes sindicais na cidade de Lisboa. Al\u00e9m do sindicato dos caixeiros, estava ali sediada a federa\u00e7\u00e3o de oper\u00e1rios gr\u00e1ficos, a cooperativa dos trabalhadores da Casa Ramiro Le\u00e3o e a Federa\u00e7\u00e3o Nacional de Cooperativas. Ali tinha nascido, no ano anterior, o primeiro sindicato da fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica (a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Empregados do Estado).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 tinha sido ali, naquele mesmo edif\u00edcio, que num debate p\u00fablico dias antes se tinha decido fundar o PCP, numa proposta apresentada por Jo\u00e3o de Castro, ex-deputado e ex-vice-presidente do antigo Partido Socialista. E ali se tinha constitu\u00eddo a sua comiss\u00e3o organizadora.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao instalar a sede da sua pol\u00edcia pol\u00edtica num edif\u00edcio marcante na hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio, a ditadura de Salazar n\u00e3o foi original. Limitou-se a imitar um exemplo de Adolf Hitler.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas semanas depois de chegarem ao poder, em 1933, os nazis ocuparam a Casa Karl Liebknecht, em Berlim, onde desde 1926 funcionava a sede central do Partido Comunista Alem\u00e3o. E ali instalaram uma sec\u00e7\u00e3o da GESTAPO, tornando-o um local de deten\u00e7\u00e3o e tortura de resistentes antifascistas e de judeus.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma diferen\u00e7a que salta \u00e0 vista \u00e9 que no caso alem\u00e3o, depois do fascismo, a mem\u00f3ria e a fun\u00e7\u00e3o do edif\u00edcio foram em grande medida recuperadas e preservadas \u2013 apesar de ter sido bombardeado durante a 2\u00aa Guerra Mundial. Situado na zona leste da cidade, foi reconstruindo e albergou o \u201cInstituto Marx-Engels-Lenin\u201d. Funciona hoje como sede do partido A Esquerda (Die Linke).<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sebasti\u00e3o Eug\u00e9nio e J\u00falio Ferreira de Matos<\/h2>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comiss\u00e3o organizadora do PCP, um tra\u00e7o a salientar \u00e9 que pelo menos um ter\u00e7o dos seus membros vieram a ser presos pol\u00edticos sob a ditadura. Houve um que acabaria por se tornar salazarista, Carlos Rates, mas foi uma excep\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois deles tiveram um papel relevante na vida da Voz do Oper\u00e1rio: Sebasti\u00e3o Eug\u00e9nio, um dos mais importantes sindicalistas entre os oper\u00e1rios corticeiros e depois entre os funcion\u00e1rios p\u00fablicos; e J\u00falio Ferreira de Matos, destacado sindicalista metal\u00fargico e do Arsenal do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1919, a classe trabalhadora sofria ainda as consequ\u00eancias da 1\u00aa Guerra Mundial, com uma tremenda desvaloriza\u00e7\u00e3o dos sal\u00e1rios, mis\u00e9ria e fome. Deram-se ent\u00e3o muitos conflitos laborais por quest\u00f5es salariais, com greves e repress\u00e3o policial sobre os trabalhadores. Na sociedade A Voz do Oper\u00e1rio um diferendo entre funcion\u00e1rios e a dire\u00e7\u00e3o foi resolvido atrav\u00e9s do di\u00e1logo, com uma comiss\u00e3o arbitral composta por 2 representantes de cada parte e um \u201c\u00e1rbitro de desempate\u201d &#8211; que foi Sebasti\u00e3o Eug\u00e9nio.<\/p>\n\n\n\n<p>Este fundador do PCP mal chegou a ver a ditadura, pois faleceu de doen\u00e7a prolongada logo em Junho de 1926.<\/p>\n\n\n\n<p>Quanto a J\u00falio Ferreira de Matos, foi um dos ativistas que asseguraram a continuidade da Voz do Oper\u00e1rio na d\u00edficil d\u00e9cada de 1930, altura em que integrou a dire\u00e7\u00e3o e o conselho fiscal, al\u00e9m de colaborar pontualmente no jornal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Vivendo at\u00e9 1948, J\u00falio de Matos conheceu bem a ditadura. Esteve entre os membros da comiss\u00e3o organizadora do PCP que foram presos pol\u00edticos sob o fascismo.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Eduardo Metzner<\/h2>\n\n\n\n<p>Tratando-se aqui da primeira reuni\u00e3o do PCP, cabe dizer algo mais acerca da pessoa que a ela presidiu, at\u00e9 aparecer a pol\u00edcia: Eduardo Metzner. Foi tamb\u00e9m um dos primeiros dirigentes e porta-vozes do PCP, apesar de j\u00e1 gravemente doente, vindo a falecer em 1922.<\/p>\n\n\n\n<p>Este jornalista, que vinha de ser redator do jornal socialista&nbsp;<em>O Combate<\/em>, salientou-se como poeta revolucion\u00e1rio. O que lhe valeu ser preso pol\u00edtico ainda no tempo da monarquia, quando apoiou a causa republicana. Mas depressa percebeu os limites do Partido Republicano. E tornou-se anarquista. Impulsionado pela simpatia que lhe despertou a revolu\u00e7\u00e3o bolchevique na R\u00fassia, aproximou-se primeiro do antigo Partido Socialista e lan\u00e7ou-se depois \u00e0 funda\u00e7\u00e3o do PCP.<\/p>\n\n\n\n<p>No seu funeral, que saiu da sede do sindicato dos jornalistas, o primeiro discurso coube a um futuro presidente d&#8217;A Voz do Oper\u00e1rio, Domingos Cruz, seu companheiro de trabalho.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estava marcada para o dia 22 de Dezembro de 1920, na sede de um sindicato (a Associa\u00e7\u00e3o de Classe dos Caixeiros de Lisboa), na rua Ant\u00f3nio Maria Cardoso. Seria a primeira reuni\u00e3o da rec\u00e9m formada \u201cComiss\u00e3o Organizadora\u201d do Partido Comunista Portugu\u00eas. 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