{"id":4247,"date":"2021-02-02T16:16:25","date_gmt":"2021-02-02T16:16:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4247"},"modified":"2021-02-03T02:16:41","modified_gmt":"2021-02-03T02:16:41","slug":"60-anos-sem-lumumba-da-apoteose-a-maldicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/02\/02\/60-anos-sem-lumumba-da-apoteose-a-maldicao\/","title":{"rendered":"60 anos sem Lumumba. Da apoteose \u00e0 maldi\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p><br><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 60 anos, come\u00e7ava aquele que, para muitos historiadores, foi o <em>annus horribilis<\/em> do Estado Novo: 1961. Logo a 4 de Janeiro dava-se a revolta dos trabalhadores rurais da companhia do algod\u00e3o, na Baixa do Kassange, Angola, reprimidos pelo ex\u00e9rcito portugu\u00eas em retalia\u00e7\u00e3o; o assalto ao paquete Santa Maria, a 22 de Janeiro, pelo golpista Henrique Galv\u00e3o; o assalto do MPLA \u00e0 pris\u00e3o de Luanda, a 4 de fevereiro, seguindo-se os massacres do 15 de Mar\u00e7o, da UPA no norte de Angola. Estava lan\u00e7ada em v\u00e1rias frentes a guerra colonial que s\u00f3 terminaria em consequ\u00eancia do 25 de Abril de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>Estes acontecimentos seguem um rastilho acesso em \u00c1frica pela onda descolonizadora que alastrou a todo o continente no final dos anos 50. A press\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no p\u00f3s-Guerra e as experi\u00eancias de descoloniza\u00e7\u00e3o violentas, como na Arg\u00e9lia, onde a Frente de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional levava j\u00e1 anos de guerra contra os colonos franceses (desde 1954), empurraram o Congo belga para uma transfer\u00eancia de poder, s\u00f3 aparentemente pac\u00edfica, em 1960.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Mais de 10 milh\u00f5es de congoleses morreram em trabalhos for\u00e7ados e escravizados durante o reinado de Leopoldo, que acumulou, \u00e0 \u00e9poca, mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em fortuna em contas na Su\u00ed\u00e7a. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O dom\u00ednio belga do Congo, actual Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo (j\u00e1 se chamou Zaire), foi relativamente curto (80 anos, comparados aos mais de quatro s\u00e9culos de presen\u00e7a portuguesa na \u00c1frica ocidental) mas profundamente violento. O rei Leopoldo II apoderou-se pessoalmente do segundo maior pa\u00eds de \u00c1frica, sob pretexto de \u201cparar a escravatura\u201d, ali iniciada pelos portugueses no s\u00e9culo XV, oficializando a posse na Confer\u00eancia de Berlim (1885), quando imp\u00e9rios europeus dividiram o continente entre si. Mais de 10 milh\u00f5es de congoleses morreram em trabalhos for\u00e7ados e escravizados durante o reinado de Leopoldo, que acumulou, \u00e0 \u00e9poca, mil milh\u00f5es de d\u00f3lares em fortuna em contas na Su\u00ed\u00e7a. Para a extra\u00e7\u00e3o de \u00f3leo de palma, borracha, ouro, cobre, Leopoldo concessionou enormes territ\u00f3rios, rios, florestas ricas em min\u00e9rio, transformando o Congo num sistema de pilhagem organizada que serviu como uma luva aos colonialistas belgas e \u00e0 neo-col\u00f3nia que se seguiu. Como lembrou Frantz Fanon, \u201co bem-estar e o progresso da Europa foram constru\u00eddos com o suor e os cad\u00e1veres de negros, \u00e1rabes, \u00edndios\u201d e a \u201criqueza que a sufoca \u00e9 a que foi roubada dos povos subdesenvolvidos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto nasceu Patrice Lumumba em 1925, numa fam\u00edlia de educa\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. Era um <em>\u00e9volu\u00e9 <\/em>(assimilado, no sistema colonial portugu\u00eas). Na capital, L\u00e9opoldville (actual Kinshasa), foi funcion\u00e1rio dos Correios e depois tesoureiro. Tornou-se presidente regional de um sindicato inteiramente congol\u00eas de trabalhadores governamentais. Visitou a B\u00e9lgica a convite do Ministro das Col\u00f3nias, em 1956, e no regresso, foi preso por alegado desvio de fundos nos Correios. Sa\u00eddo da pris\u00e3o, o seu activismo pol\u00edtico intensificou-se: fundou em 1958 o Movimento Nacional Congol\u00eas (MNC), o primeiro partido pol\u00edtico nacional. Nesse ano, participou na Confer\u00eancia de Todos os Povos Africanos, em Acra, Gana, organizada pelo rec\u00e9m-empossado Kwame Nkrumah, que juntou l\u00edderes de pa\u00edses africanos independentes e outros que come\u00e7avam processos de liberta\u00e7\u00e3o. A partir de ent\u00e3o, Lumumba adoptou a postura de um militante nacionalista anti-colonial, em defesa do pan-Africanismo supra-\u00e9tnico e da independ\u00eancia do Congo.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Caos e desordem<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Fanon escreveu que \u201ca descoloniza\u00e7\u00e3o que se prop\u00f5e mudar a ordem do mundo \u00e9, obviamente, um programa de desordem absoluta\u201d. E o que se seguiu entre Maio de 1960 at\u00e9 ao assassinato de Lumumba, em Janeiro de 1961, \u00e9 precisamente um programa de desordem absoluta, instaurado pelos seus inimigos pol\u00edticos, pelo governo belga, pelos Estados Unidos e a CIA, e pelas pr\u00f3prias Na\u00e7\u00f5es Unidas, para manter no Congo a ordem do mundo como o colonialismo a desenhara.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da vit\u00f3ria do MNC nas elei\u00e7\u00f5es de Maio de 60, uma s\u00e9rie de golpes e contra-golpes sucederam-se, impedido Lumumba, primeiro-ministro, de formar o governo que pretendia. Ainda assim, o dia da independ\u00eancia chegou a 30 de Junho, com visita do rei Baldu\u00edno e em clima de \u201ccordialidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEmbora a independ\u00eancia do Congo seja hoje proclamada em acordo com a B\u00e9lgica, (&#8230;) nenhum congol\u00eas jamais esquecer\u00e1 que a independ\u00eancia foi conquistada na luta&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Baldu\u00edno elogiou o trabalho \u201cde g\u00e9nio\u201d de Leopoldo II, descrevendo o fim da era belga no Congo como o culminar da sua \u201cmiss\u00e3o civilizadora\u201d, e transmitiu desejos de uma rela\u00e7\u00e3o estreita entre os dois pa\u00edses. Lumumba, que n\u00e3o estava destacado para falar, improvisou o discurso que fez soar todos os alarmes. Lembrando a audi\u00eancia e a imprensa estrangeira que a independ\u00eancia do Congo n\u00e3o tinha sido \u201cconcedida\u201d pela B\u00e9lgica, disse: \u201cEmbora a independ\u00eancia do Congo seja hoje proclamada em acordo com a B\u00e9lgica, um pa\u00eds amigo, com o qual estamos em igualdade de condi\u00e7\u00f5es, nenhum congol\u00eas jamais esquecer\u00e1 que a independ\u00eancia foi conquistada na luta, uma luta perseverante e inspirada que se desenvolveu diariamente, uma luta na qual fomos intimidados pela priva\u00e7\u00e3o ou pelo sofrimento e n\u00e3o poup\u00e1mos a for\u00e7a nem o sangue. Cheia de l\u00e1grimas, fogo e sangue. Estamos profundamente orgulhosos de nossa luta, porque foi justa, nobre e indispens\u00e1vel para acabar com a escravid\u00e3o humilhante que nos foi imposta. Essa foi a nossa sorte durante os 80 anos de dom\u00ednio colonial e as nossas feridas s\u00e3o demasiado recentes e dolorosas para serem esquecidas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A revista <em>Time<\/em> classificou o discurso de \u201cataque venenoso\u201d. O Ocidente viu nele um \u201capelo \u00e0s armas\u201d. \u00c9 assim, dizia Fanon, que \u201ca apoteose da independ\u00eancia \u00e9 transformada na maldi\u00e7\u00e3o da independ\u00eancia, e o poder colonial, atrav\u00e9s do seu enorme poder de coer\u00e7\u00e3o, condena a jovem na\u00e7\u00e3o a regredir.\u201d As repercuss\u00f5es fizeram-se sentir de imediato, sobretudo na hostilidade crescente dos congoleses face aos belgas. Motins no ex\u00e9rcito e a debanda de funcion\u00e1rios belgas mergulhou o pa\u00eds no caos.<\/p>\n\n\n\n<p>De seguida, a prov\u00edncia de Katanga no sudeste, anunciou a secess\u00e3o. A companhia mineira anglo-belga UMHK, de onde sa\u00edra 75% do cobre para armas da Segunda-Guerra e o ur\u00e2nio para a bomba de Hiroshima, juntou-se aos separatistas e apoiou o golpe. J\u00e1 ent\u00e3o, Katanga tinha (como hoje) das maiores reservas de cobre, cobalto e t\u00e2ntalo do mundo \u2013 min\u00e9rios essenciais para motores, tubagens, maquinaria industrial, electr\u00f3nica e telecomunica\u00e7\u00f5es. Lumumba pede a ajuda da ONU para garantir a ordem, sobretudo no Katanga onde as tropas belgas apoiavam os secessionistas. Mas os capacetes azuis serviram sobretudo para a \u201cmanuten\u00e7\u00e3o da paz\u201d e recusaram-se a intervir na prov\u00edncia. Encurralado e a perder o controlo do pa\u00eds, Lumumba chamou a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. A CIA responde: \u201cSe Lumumba continua no poder, o resultado ser\u00e1 no m\u00ednimo caos e no m\u00e1ximo a eventual tomada do poder pelos comunistas, <\/p>\n\n\n\n<p>A troca de mensagens entre o representante da CIA no Congo (onde tamb\u00e9m estava Frank Carlucci, depois embaixador em Portugal ap\u00f3s 1974) e o diretor nos EUA, no Ver\u00e3o de 60, mostra que a cria\u00e7\u00e3o de Lumumba como inimigo estava consolidada\u201cPatrice Lumumba nasceu para ser um revolucion\u00e1rio, mas n\u00e3o tem qualidades para exercer o poder uma vez tomado. Mais cedo do que tarde, Moscovo tomar\u00e1 as r\u00e9deas. Ele acha que consegue manipular os sovi\u00e9ticos, mas s\u00e3o eles a mandar.\u201d A CIA responde: \u201cSe Lumumba continua no poder, o resultado ser\u00e1 no m\u00ednimo caos e no m\u00e1ximo a eventual tomada do poder pelos comunistas, com consequ\u00eancias desastrosas para o prest\u00edgio das Na\u00e7\u00f5es Unidas e os interesses do mundo livre. A sua retirada deve, por isso, ser um objetivo urgente e priorit\u00e1rio para si.\u201d Os belgas concordavam no diagn\u00f3stico: \u201cLumumba pessoalmente n\u00e3o \u00e9 mais do que o agente de uma execu\u00e7\u00e3o gigantesca manipulada pelo Leste\u201d e alertavam para os EUA que, no Congo, se veriam a bra\u00e7os com uma situa\u00e7\u00e3o \u201csemelhante \u00e0 de Castro ou pior\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Setembro, o jovem coronel afecto a Lumumba, Joseph Mobutu (mais tarde conhecido como Mobutu Sese Seko), anunciou uma \u201crevolu\u00e7\u00e3o pac\u00edfica\u201d que era, efetivamente, um golpe de estado. Meses depois, a ONU reconheceu a delega\u00e7\u00e3o enviada por Mobutu \u00e0 Assembleia Geral. Acusado de incitar uma rebeli\u00e3o contra o novo l\u00edder, Lumumba foi preso. Em Janeiro de 1961, foi enviado para Katanga e recebido pelas for\u00e7as belgas e separatistas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>O seu corpo foi enterrado e depois, sob ordens dos belgas, que n\u00e3o queriam vest\u00edgios nem campa, foi desmembrado e dissolvido em \u00e1cido sulf\u00farico. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Quem matou Patrice Lumumba?, pergunta 60 anos depois, a Radio France Internationale, que tem publicado uma s\u00e9rie de trabalhos sobre o congol\u00eas. \u201cO assassinato do nacionalista congol\u00eas em 17 de janeiro de 1961 perto de Lubumbashi, foi a ac\u00e7\u00e3o coletiva de uma \u2018associa\u00e7\u00e3o de criminosos\u2019. A responsabilidade pelo crime \u00e9 partilhada entre quatro grupos de actores, que agora est\u00e3o bem identificados. Cada um fez o seu papel: o americano patrocinou, o belga apoiou, o grupo de Mobutu comandou e o grupo de Tshombe atuou. Neste crime, h\u00e1 treze personagens.\u201d Sabe-se que Lumumba foi torturado, antes de ser executado. O seu corpo foi enterrado e depois, sob ordens dos belgas, que n\u00e3o queriam vest\u00edgios nem campa, foi desmembrado e dissolvido em \u00e1cido sulf\u00farico. O an\u00fancio oficial da sua morte s\u00f3 foi feito a 13 Fevereiro de 1961. Com ele, morreu tamb\u00e9m o sonho de um Congo unido, democr\u00e1tico, etnicamente plural e pan-Africanista.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 60 anos, Patrice Lumumba, o jovem l\u00edder do rec\u00e9m-independente Congo belga, era assassinado em Janeiro de 1961 \u00e0s m\u00e3os dos seus inimigos, com a cumplicidade da CIA, de Eisenhower, da ONU e do rei da B\u00e9lgica. Estava consolidada a pilhagem organizada do Congo.<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":4248,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[47],"tags":[],"coauthors":[147],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4247"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4247"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4247\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4315,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4247\/revisions\/4315"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4248"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4247"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4247"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4247"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4247"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}