{"id":4186,"date":"2021-01-04T17:34:39","date_gmt":"2021-01-04T17:34:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4186"},"modified":"2021-01-04T17:53:47","modified_gmt":"2021-01-04T17:53:47","slug":"a-voz-do-operario-na-campanha-de-norton-de-matos-em-1949","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/01\/04\/a-voz-do-operario-na-campanha-de-norton-de-matos-em-1949\/","title":{"rendered":"A Voz do Oper\u00e1rio na campanha de Norton de Matos, em 1949"},"content":{"rendered":"\n<p>Aqui se realizaram depois mais tr\u00eas sess\u00f5es: no dia 12 de Janeiro, uma sess\u00e3o de jovens (presidida por um dirigente do MUD Juvenil, M\u00e1rio Soares); no dia 24, uma sess\u00e3o a n\u00edvel distrital (presidida pelo diretor da revista Seara Nova, Luis C\u00e2mara Reis); e por fim no dia 28, uma sess\u00e3o promovida por mulheres (presidida pelo fundador da Universidade Popular Portuguesa, o professor Ferreira de Macedo).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">I<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi uma campanha verdadeira numas elei\u00e7\u00f5es falsas.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da derrota dos regimes fascistas de Hitler e Mussolini em 1945, na 2\u00aa Guerra Mundial, a estrat\u00e9gia de sobreviv\u00eancia da ditadura de Salazar incluiu a encena\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de elei\u00e7\u00f5es que eram falsificadas a todos os n\u00edveis, desde o recenseamento eleitoral \u00e0 liberdade de fazer campanha e \u00e0 contagem de votos. Mas durante algumas semanas a censura e a repress\u00e3o abrandavam, e a oposi\u00e7\u00e3o aproveitava para se expressar. Neste contexto, foram importantes momentos de resist\u00eancia e de unidade antifascista em Portugal. Em 1958, foi de tal forma evidente o apoio popular aglutinado em torno da candidatura do general Humberto Delgado, que Salazar decidiu acabar com elei\u00e7\u00f5es presidenciais. E Delgado acabou assassinado pela PIDE alguns anos depois.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">II<\/h2>\n\n\n\n<p>Uma das novidades da campanha de Norton de Matos foi o protagonismo de mulheres que nela se expressou. Significativo, apesar de marcado pela desigualdade social, pois n\u00e3o foi coisa de oper\u00e1rias, camponesas ou simples dom\u00e9sticas \u2013 como eram a maioria das mulheres portuguesas de ent\u00e3o. Foi um protagonismo oriundo sobretudo da pequen\u00edssima minoria de mulheres que neste pa\u00eds j\u00e1 tinha tido acesso a estudar numa universidade. Figuras intelectuais como a escritora Maria Lamas e a m\u00e9dica Cesina Bermudes em Lisboa, a engenheira Virg\u00ednia Moura no Porto e a farmac\u00eautica Sofia Pomba Guerra em Louren\u00e7o Marques (Mo\u00e7ambique). Quatro mulheres que pagaram cara a sua coragem, pois no espa\u00e7o de um ano todas elas foram presas pela PIDE.<\/p>\n\n\n\n<p>Um discurso particularmente interessante que ent\u00e3o se ouviu na Voz do Oper\u00e1rio foi proferido por Palmira Tito de Morais. Falou de democracia como um \u201csistema pol\u00edtico que postula a igualdade de direitos dos cidad\u00e3os\u201d e a \u201cparticipa\u00e7\u00e3o efetiva de toda a popula\u00e7\u00e3o trabalhadora\u201d. Especificamente sobre a condi\u00e7\u00e3o feminina, disse que \u201ca n\u00f3s mulheres, o fascismo lan\u00e7ou-nos como marco orientador a c\u00e9lebre f\u00f3rmula hitleriana de \u00abkinder, kuche und kirche\u201d (ter filhos, cozinhar e ir \u00e0 igreja)\u201d. Mas ao mesmo tempo, jovens com menos de 20 anos eram matriculadas como prostitutas.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m desta hipocrisia, Palmira apontou o dedo \u00e0 desigualdade social e de g\u00e9nero que atingia as mulheres da classe trabalhadora: \u201cquanto \u00e0 remunera\u00e7\u00e3o do trabalho, n\u00f3s vemos que a mulher tem sido sempre quem mais sofre, o seu trabalho \u00e9 pago tomando como base o princ\u00edpio de que tudo quanto ganha \u00e9 para os seus alfinetes e que ser\u00e1 sempre dependente, para a sua manuten\u00e7\u00e3o, do sal\u00e1rio do marido ou do pai. Varrem-se assim da exist\u00eancia [\u2026] as mulheres solteiras e vi\u00favas. Ora como o sistema econ\u00f3mico em que vivemos leva o homem trabalhador \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de escravo, a mulher torna-se assim a escrava do escravo\u201d. [Rep\u00fablica, 12\/01\/1949, p.3]<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">III<\/h2>\n\n\n\n<p>Outra voz que nesta casa se ouviu, na campanha presidencial de 1949, foi a de um jovem oper\u00e1rio chamado Oscar Reis. Falou que \u201cos jovens trabalhadores desejam possuir um of\u00edcio, receber um sal\u00e1rio compat\u00edvel com o seu trabalho e necessidades, acesso \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e \u00e0 cultura, e aspiram ainda a viver uma vida mais digna, mais alegre e mais feliz\u201d. Mas al\u00e9m da falta de liberdade geral, a ditadura cortava-lhes particularmente as possibilidades de defenderem os seus direitos e aspira\u00e7\u00f5es. Denunciava este orador que os jovens oper\u00e1rios de 18 anos n\u00e3o eram admitidos nos sindicatos e que os camponeses, \u201cem piores condi\u00e7\u00f5es de vida\u201d, nem sindicatos possu\u00edam. [Rep\u00fablica, 13\/01\/1949 p.4].<\/p>\n\n\n\n<p>Estava a referir-se n\u00e3o aos antigos sindicatos livres dissolvidos pela ditadura em 1934, mas aos sindicatos tutelados depois permitidos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">IV<\/h2>\n\n\n\n<p>Na campanha de Norton de Matos ainda marcaram presen\u00e7a alguns elementos da velha guarda do movimento oper\u00e1rio anterior \u00e0 ditadura. Na mesa de uma sess\u00e3o realizada na Cooperativa do Povo Portuense esteve o velho oper\u00e1rio socialista Jo\u00e3o Maravilhas Pereira, j\u00e1 com uns 80 anos de idade. E noutra sess\u00e3o discursou ali o oper\u00e1rio Jos\u00e9 da Silva, que havia sido dirigente do Partido Comunista Portugu\u00eas ainda no tempo da 1\u00aa Rep\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio foi certamente curioso ouvir um dos mais importantes intelectuais anarquistas portugueses, o velho Jo\u00e3o Campos Lima, que se tinha destacado nas grandes lutas estudantis que ocorreram em Coimbra ainda no reinado de D. Carlos.<\/p>\n\n\n\n<p>Disse ele que era \u201calheio por princ\u00edpio \u00e0s pugnas eleitorais\u201d mas que n\u00e3o podia deixar de comparecer naquele momento. Defendeu que, embora fosse \u201cracionada como o azeite e a manteiga\u201d e outros g\u00e9neros que na altura estavam racionados em Portugal, era preciso aproveitar aquela relativa liberdade moment\u00e2nea para \u201clevar avante a realiza\u00e7\u00e3o dos ideais progressivos da Democracia\u201d. [Rep\u00fablica, 25\/01\/1949, p.5] <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foi n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio que se realizou a primeira sess\u00e3o da campanha presidencial do general Norton de Matos, no dia 10 de janeiro de 1949. Ali\u00e1s, \u00e0 semelhan\u00e7a do aconteceu no Porto, com a Cooperativa do Povo Portuense, A Voz do Oper\u00e1rio foi cen\u00e1rio privilegiado dessa campanha na cidade de Lisboa. <\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":4187,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4186"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4199,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4186\/revisions\/4199"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4186"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}