{"id":4177,"date":"2021-01-04T17:01:40","date_gmt":"2021-01-04T17:01:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4177"},"modified":"2021-01-04T17:01:44","modified_gmt":"2021-01-04T17:01:44","slug":"porque-ha-direito-ao-grito-entao-eu-grito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/01\/04\/porque-ha-direito-ao-grito-entao-eu-grito\/","title":{"rendered":"\u201cPorque h\u00e1 direito ao grito, ent\u00e3o eu grito\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Disse um dia que pelo lado avesso trazia um ser que fazia do seu corpo casa &#8211; um cavalo preto e lustroso, inteiramente selvagem por jamais ter morado em qualquer outro corpo e jamais lhe ter sido aplicada r\u00e9dea, nem sela. \u201c\u00c9 um bicho que chamado com autoridade, vem. \u00c0s vezes at\u00e9 come na minha m\u00e3o. Mas quando eu morrer este cavalo preto ficar\u00e1 sem casa e vai sofrer muito\u201d. Pode dizer-se que ter\u00e1 dedicado toda a sua vida a descobrir este bicho, o seu passo e galope, os seus sons, a dualidade entre o seu portento e a sua fragilidade. Nascida Haya Pinkhasovna Lispector na Ucr\u00e2nia, em 1920, cedo emigra com a fam\u00edlia para o Brasil onde se instalam em Macei\u00f3, Alagoas. Mudam-se depois para o Recife que deixa para se fixar no Rio de Janeiro para estudar Direito. Em 1940 torna-se uma das primeiras mulheres jornalistas no pa\u00eds como rep\u00f3rter da Ag\u00eancia Nacional e dois anos depois do jornal A Noite.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1943, com 23 anos, publica a sua primeira obra, Perto do Cora\u00e7\u00e3o Selvagem \u2013 imediatamente aclamado e premiado pela cr\u00edtica. No mesmo ano, casa-se com Maury Gurgel Valente, um diplomata, o que lhe vale a hip\u00f3tese de viver em v\u00e1rios lugares \u00e0 volta do globo.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os anos de casamento publica um livro de contos, O Lustre e Cidade Sitiada e depois da decis\u00e3o de separa\u00e7\u00e3o regressa ao Rio de Janeiro onde se torna colunista em v\u00e1rios jornais \u2013 sendo a sua mais conhecida cr\u00f3nica, Feira de Utilidades, assinada sob o pseud\u00f3nimo de Helen Palmer. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 1966 um brutal inc\u00eandio acidental, causado por um cigarro que se esqueceu de apagar, deixou-lhe o corpo profundamente marcado por queimaduras, a mais grave na m\u00e3o direita (com a qual escrevia) que s\u00f3 n\u00e3o perdeu por resili\u00eancia m\u00e9dica.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuperada do acidente come\u00e7a a dar sinais de um forte engajamento pol\u00edtico tendo participado em v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es pela democracia, nomeadamente a que teve lugar em Junho desse ano, quando centenas de intelectuais e artistas tomaram a linha da frente na passeata dos cem mil contra a ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> Procurava sem cessar os limites de si pr\u00f3pria, o \u00edmpeto, e a liberta\u00e7\u00e3o \u2013 estado que dizia ser \u201cimenso, cheio de mist\u00e9rios e dores\u201d.  <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Absolutamente enigm\u00e1tica, dizia viver em esbo\u00e7os n\u00e3o acabados e vacilantes. Procurava sem cessar os limites de si pr\u00f3pria, o \u00edmpeto, e a liberta\u00e7\u00e3o \u2013 estado que dizia ser \u201cimenso, cheio de mist\u00e9rios e dores\u201d. Como resultado dessa procura das suas pr\u00f3prias profundezas, foi muitas vezes descrita como controversa, peculiar e fazia quest\u00e3o de jamais desmentir estas adjectiva\u00e7\u00f5es; pelo contr\u00e1rio, cuidava-as como plantas e usava-as como for\u00e7as propulsoras para ser quem era e mesmo testar ser quem n\u00e3o era. N\u00e3o \u00e9 portanto estranho que tenha participado no 1\u00ba Congresso Mundial de Bruxaria, na Col\u00f4mbia, onde discursou sobre a liga\u00e7\u00e3o entre a magia e a literatura.<\/p>\n\n\n\n<p>Dedicou os anos seguintes \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o de autores incontorn\u00e1veis como J\u00falio Verne, Agatha Christie e Edgar Allan Poe e publica o seu \u00faltimo romance, A Hora da Estrela e uma \u00faltima selec\u00e7\u00e3o de cr\u00f3nicas, Para N\u00e3o Esquecer, em 1977. Morre no final desse ano, um dia antes do seu anivers\u00e1rio, a 9 de Dezembro. Algumas das suas obras foram publicadas postumamente, como \u00e9 o caso de Um Sopro de Vida e a colect\u00e2nea de contos A Bela e \u201cPorque h\u00e1 direito ao grito, ent\u00e3o eu grito\u201d a Fera. Al\u00e9m do inconfund\u00edvel estilo, presen\u00e7a e escrita, Clarice deixou como legado o impulso para a pergunta, para a procura, para o mergulho interior constante &#8211; \u201cpersigo o que fica atr\u00e1s do pensamento. \u00c9 in\u00fatil querer classificar-me, porque eu escapo. Al\u00e9m disso a vida \u00e9 curta demais para que eu possa ler todos os grossos dicion\u00e1rios a fim de por acaso descobrir a palavra salvadora. Entender \u00e9 sempre limitado. Nem tudo tem que fazer sentido \u2013 n\u00e3o quero ter a terr\u00edvel limita\u00e7\u00e3o de quem vive apenas do que \u00e9 poss\u00edvel. Eu n\u00e3o: quero \u00e9 uma verdade inventada, porque no fundo todos s\u00f3 queremos desabrochar, de uma forma ou de outra\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 o ano em que Clarice Lispector viveria o seu centen\u00e1rio. Assinalamo-lo num exerc\u00edcio de evoca\u00e7\u00e3o, de um<br \/>\ncerto malabarismo humano de quem procura o entendimento sobre as nossas curvas e contra-curvas interiores.<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":4179,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[125],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4177"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4177"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4177\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4183,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4177\/revisions\/4183"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4179"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4177"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4177"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4177"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4177"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}