{"id":4147,"date":"2021-01-04T16:14:33","date_gmt":"2021-01-04T16:14:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4147"},"modified":"2021-02-02T16:41:27","modified_gmt":"2021-02-02T16:41:27","slug":"a-fuga-de-peniche","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/01\/04\/a-fuga-de-peniche\/","title":{"rendered":"A fuga de Peniche"},"content":{"rendered":"\n<p>Portugal vivia sob o regime fascista de Salazar que, em s\u00edntese, impunha uma ditadura terrorista dos monop\u00f3lios ao pa\u00eds e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que se caracterizava pelo dom\u00ednio e concentra\u00e7\u00e3o da economia nacional num reduzido conjunto de grupos econ\u00f3micos, dom\u00ednio nas f\u00e1bricas e nos campos, de grupos simultaneamente apoiados e apoiantes do regime. Em aux\u00edlio da \u201csitua\u00e7\u00e3o\u201d, as liberdades c\u00edvicas e pol\u00edticas eram coartadas, a censura impunha-se sobre a Imprensa, a Arte e todas as formas de express\u00e3o cultural e de ensino, o povo era condenado \u00e0s mais vis e diversificadas express\u00f5es de mis\u00e9ria material e espiritual. As burlas eleitorais sucediam-se.<\/p>\n\n\n\n<p>No quadro internacional, a ditadura restringia as rela\u00e7\u00f5es internacionais do pa\u00eds, pouco diversificadas e limitadas, reduzidas a pa\u00edses como Espanha, Inglaterra, EUA ou a organiza\u00e7\u00f5es como a NATO. O colonialismo do regime lutava por sobreviver e o confronto com outros povos oprimidos j\u00e1 era inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>A repress\u00e3o pol\u00edtica impunha-se, a Uni\u00e3o Nacional exercia em farsa o seu poder pol\u00edtico, e os que, de diversas formas lhe resistiam, estavam condenados \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o, ao ex\u00edlio, clandestinidade ou pris\u00e3o. Ou \u00e0 morte. Desde o seu in\u00edcio, o regime fascista dinamizara uma persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica (a partir da sua PIDE) e um sistema penal dirigido aos seus opositores, do qual o sistema prisional era v\u00e9rtice central e s\u00edmbolo, contando, entre tantos outros lugares de deten\u00e7\u00e3o com as pris\u00f5es de Tarrafal, Angra, Aljube, PIDE no Porto, Caxias&#8230; e Forte de Peniche.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>A oposi\u00e7\u00e3o ao regime foi sendo variada, teve ciclos, personagens diversificadas, momentos. Momentos de valentia, individual e coletiva, homens e mulheres, organiza\u00e7\u00f5es, que a Hist\u00f3ria tornou incontorn\u00e1veis. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A oposi\u00e7\u00e3o ao regime foi sendo variada, teve ciclos, personagens diversificadas, momentos. Momentos de valentia, individual e coletiva, homens e mulheres, organiza\u00e7\u00f5es, que a Hist\u00f3ria tornou incontorn\u00e1veis. E  neste movimento constante, destaca-se o Partido Comunista Portugu\u00eas, \u00fanico resistente clandestinamente omnipresente aos 48 anos de fascismo, reprimido at\u00e9 \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, conhecido apenas por \u201co Partido\u201d, tanto por amigos como por inimigos.<\/p>\n\n\n\n<p>A centralidade pol\u00edtica na oposi\u00e7\u00e3o, que o PCP detinha, fez recair sobre os seus membros a mais feroz repress\u00e3o. Os seus militantes, foram perseguidos em todas as esferas da vida, presos, torturados, assassinados. Por isso, entre os presos do Forte de Peniche, estavam v\u00e1rios dirigentes e militantes do PCP (alguns j\u00e1 com mais de 10 anos de c\u00e1rcere). E estes planearam uma fuga, com rigor e coordena\u00e7\u00e3o, que a Hist\u00f3ria memoriza e a Liberdade celebra.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa noite de 1960, entre o frio de Janeiro, entre o mar agitado que embatia nas muralhas, e o som das gaivotas no c\u00e9u, nas imedia\u00e7\u00f5es do Forte, um carro abre o porta-bagagens, sinal, que do exterior tudo estava pronto. Comece a a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s meses de conluio, com o apoio de um carcereiro, outro \u00e9 manietado e anestesiado, permitindo a passagem despercebida dos presos por uma zona de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. Ainda no piso superior, por uma \u00e1rvore, descem ao piso inferior. Da\u00ed prosseguem em corrida, para a muralha exterior, por onde descem, \u00e0 vez, por uma corda de len\u00e7\u00f3is rumo ao fosso exterior. Faltava agora saltar um \u00faltimo muro, e fugir, e divididos por tr\u00eas autom\u00f3veis, assim foi.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Recordemos os seus nomes, dos que fugiram, \u00c1lvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Jos\u00e9 Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rog\u00e9rio Carvalho e Francisco Martins Rodrigues; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Recordemos os seus nomes, dos que fugiram, \u00c1lvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, Jos\u00e9 Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rog\u00e9rio Carvalho e Francisco Martins Rodrigues; e dos auxiliares no exterior: Pires Jorge e Ant\u00f3nio Dias Louren\u00e7o, com a ajuda de Oct\u00e1vio Pato, Rui Perdig\u00e3o e Rog\u00e9rio Paulo. E recorde-se tamb\u00e9m os que, j\u00e1 anteriormente se tinham evadido daquele Forte, e tamb\u00e9m militantes do PCP, Jaime Serra, Francisco Miguel e Dias Louren\u00e7o.<\/p>\n\n\n\n<p>A fuga de presos pol\u00edticos \u00e9 por defini\u00e7\u00e3o uma humilha\u00e7\u00e3o para os carcereiros, e a fuga de 1960 assim foi tamb\u00e9m, derrota e humilha\u00e7\u00e3o do regime fascista de Salazar. Pelo n\u00famero de evadidos, pela sua filia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, pela sua import\u00e2ncia org\u00e2nica, pelos moldes da pr\u00f3pria fuga e pelo reconhecimento internacional que teve. Mas foi mais importante que isso, nomeadamente onde mais importava, na resist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A not\u00edcia da fuga de Peniche foi significativa para toda a oposi\u00e7\u00e3o, e recebida com grande \u00e2nimo, mas os efeitos pol\u00edticos da fuga foram particularmente importantes para o PCP, desde logo permitindo-lhe recuperar um conjunto de quadros (refor\u00e7ando a sua composi\u00e7\u00e3o, din\u00e2mica e ideologia). Resultando a partir da\u00ed, uma altera\u00e7\u00e3o na sua linha pol\u00edtica (com a substitui\u00e7\u00e3o do per\u00edodo designado por \u201cdesvio de direita\u201d, iniciado em 1956) e a subsequente elei\u00e7\u00e3o de \u00c1lvaro Cunhal para seu Secret\u00e1rio-Geral. Alcan\u00e7ou-se uma nova din\u00e2mica de luta, nas empresas e nos campos, nos 1\u00ba de Maio, com destaque para a reivindica\u00e7\u00e3o da jornada das 8 horas de trabalho. Mas tamb\u00e9m novos patamares na luta estudantil, nasceram outros movimentos de unidade entre democratas, deu-se o aparecimento da R\u00e1dio Portugal Livre.<\/p>\n\n\n\n<p>No VI Congresso do PCP, logo ap\u00f3s a fuga de Peniche, \u00c1lvaro Cunhal apresenta a sua obra \u201cRumo \u00e0 Vit\u00f3ria \u2013 as tarefas do Partido na Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica e nacional\u201d, onde al\u00e9m da carateriza\u00e7\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o nacional e do regime, nos seus v\u00e1rios aspetos, econ\u00f3micos, sociais e at\u00e9 culturais, da vida pol\u00edtica nacional e internacional, tra\u00e7a o levantamento pela for\u00e7a como \u00fanico caminho para liquidar a ditadura, assim como oito objetivos fundamentais para a Revolu\u00e7\u00e3o, e em larga medida atingidos na Revolu\u00e7\u00e3o de 25 de Abril de 1974.<\/p>\n\n\n\n<p>Recordar a fuga de Peniche \u00e9 celebrar a mem\u00f3ria do antifascismo e da resist\u00eancia, \u00e9 recordar a repress\u00e3o e o c\u00e1rcere, obstando aos exerc\u00edcios frequentes de branqueamento e adultera\u00e7\u00e3o da Hist\u00f3ria e \u00e9, lembrar, que se manteve heroicamente esperan\u00e7a na aurora, mesmo quando a noite n\u00e3o podia ser mais escura.   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Portugal vivia sob o regime fascista de Salazar que, em s\u00edntese, impunha uma ditadura terrorista dos monop\u00f3lios ao pa\u00eds e \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, que se caracterizava pelo dom\u00ednio e concentra\u00e7\u00e3o da economia nacional num reduzido conjunto de grupos econ\u00f3micos, dom\u00ednio nas f\u00e1bricas e nos campos, de grupos simultaneamente apoiados e apoiantes do regime. 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