{"id":4135,"date":"2021-01-04T14:49:46","date_gmt":"2021-01-04T14:49:46","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4135"},"modified":"2021-02-02T16:39:48","modified_gmt":"2021-02-02T16:39:48","slug":"a-bater-os-dentes-quando-o-inverno-tambem-e-dentro-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2021\/01\/04\/a-bater-os-dentes-quando-o-inverno-tambem-e-dentro-de-casa\/","title":{"rendered":"A bater os dentes: quando o inverno tamb\u00e9m \u00e9 dentro de casa"},"content":{"rendered":"\n<p>Escolhem-se \u2018chori\u00e7os\u2019 para encostar \u00e0 porta da rua, compram-se fitas isoladoras para calafetar janelas e, quando a carteira o permite, n\u00e3o h\u00e1 casa que dispense um aquecedor a \u00f3leo ou a g\u00e1s. \u00c9 uma batalha que passa de pais para filhos e ningu\u00e9m esquece aquela av\u00f3 que dormia com um saco de \u00e1gua quente. <br><br>Carla Ara\u00fajo repete um gesto na luta incans\u00e1vel contra o frio. Como muitos portugueses, a primeira coisa que faz quando chega a casa, no Bairro do Caram\u00e3o da Ajuda, em Lisboa, \u00e9 vestir o pijama e p\u00f4r um robe por cima. Vive aqui desde que nasceu, h\u00e1 51 anos, e s\u00e3o 51 invernos sem tr\u00e9guas e sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. A casa que pertence \u00e0 C\u00e2mara Municipal de Lisboa nunca teve obras e as queixas s\u00e3o muitas. Sobretudo, da humidade que deixa muitas marcas nas paredes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando chove, o telhado mete \u00e1gua por todo o lado e as paredes escorrem \u00e1gua por causa da humidade\u201d, descreve esta trabalhadora da limpeza. Coabita com o pai, o filho, a nora e o neto e o aquecedor, como em muitos lares portugueses, \u00e9 um bem de luxo. S\u00f3 se liga ao fim da noite, imediatamente antes da hora do sono. Carla Ara\u00fajo diz que \u00e9 assim porque o peso ao fim do m\u00eas na conta da luz pode ser avultado. Reconhece que se o pre\u00e7o da eletricidade fosse baixo, estenderia os per\u00edodos em que o aparelho est\u00e1 ligado. Mas diz viver num pa\u00eds \u201cem que nada \u00e9 barato, \u00e9 tudo caro e onde se ganha pouco\u201d e por isso socorrem-se de roupa quente para enfrentar o frio dom\u00e9stico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, todo o cuidado \u00e9 pouco com os aparelhos el\u00e9tricos. Fruto da humidade, suspeita Carla Ara\u00fajo, o quadro dispara v\u00e1rias vezes e j\u00e1 ficaram com uma televis\u00e3o avariada. Noutra ocasi\u00e3o, o quadro el\u00e9trico chegou mesmo a arder.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as baixas temperaturas t\u00eam outras consequ\u00eancias. Al\u00e9rgico desde crian\u00e7a, o filho de Carla Ara\u00fajo \u201cfica muito pior no inverno\u201d numa casa que n\u00e3o o consegue proteger do frio. \u201cE eu normalmente ando sempre constipada nesta altura do ano. \u00c9 demais\u201d, acrescenta, para logo denunciar que j\u00e1 fez v\u00e1rias queixas na autarquia sem que isso tivesse resolvido o problema.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt-768x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4136\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt-768x1024.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt-225x300.jpeg 225w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt-510x680.jpeg 510w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt-135x180.jpeg 135w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Alberto-Gonc\u0327alves_300_opt.jpeg 1181w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption> Em casa, Alberto Gon\u00e7alves veste roupa quente para combater o frio. <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Do outro lado da cidade, na Rua dos Anjos, perto do Intendente, vive Alberto Gon\u00e7alves. Tamb\u00e9m numa casa alugada, aos 64 anos, tem medo de ser despejado porque acaba de morrer o propriet\u00e1rio do im\u00f3vel onde mora h\u00e1 cerca de cinco anos. \u00c9 uma casa t\u00e3o antiga que n\u00e3o se recorda da idade. O que sabe \u00e9 que arranjaram o teto e j\u00e1 n\u00e3o chove no interior mas o velho inimigo n\u00e3o baixa a guarda. \u201c\u00c9 muito complicado, faz muito frio\u201d, explica.  <\/p>\n\n\n\n<p>Para superar as baixas temperaturas, este antigo jardineiro da autarquia de Lisboa diz que veste muita roupa e que quando vai dormir se deita com muitos cobertores. Aquecedor n\u00e3o usa e a raz\u00e3o \u00e9 simples: \u00e9 \u201cmuito caro\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>As queixas repetem-se com Rosa Madalena da Silva, que mora na Quinta do Ferro. Como Carla Ara\u00fajo, esta mulher de 65 anos, diz ter muita humidade nas paredes. \u00c0 espera de uma reforma, por parte da senhoria da casa, tamb\u00e9m sofre muito frio no inverno. Com o rendimento m\u00ednimo de inser\u00e7\u00e3o e sem reforma, o aluguer \u00e9 pago pela Santa Casa da Miseric\u00f3rdia e tem muitas dificuldades em enfrentar as baixas temperaturas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA casa parece gelo. Parece que estamos com o frigor\u00edfico aberto\u201d, descreve Rosa Madalena da Silva. \u201cEst\u00e1 mais frio dentro de casa do que na rua. Pode crer\u201d. Se Alberto Gon\u00e7alves n\u00e3o usa aquecedores devido ao custo da eletricidade, esta moradora, h\u00e1 oito anos na Quinta do Ferro, tem o mesmo problema que Carla Ara\u00fajo. \u201cDa \u00faltima vez que liguei um eletrodom\u00e9stico, fiquei sem luz. Foi l\u00e1 um homem a casa e explicou-me que tinha um curto circuito\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4137\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt-300x225.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt-768x576.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt-220x165.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Rosa-Madalena-da-Silva_opt.jpeg 1181w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption> Rosa Madalena da Silva tem mais frio em casa do que na rua <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao lado, uma vizinha de Rosa denuncia os mesmos problemas. Marta Figueiredo, de 26 anos, vive na Quinta do Ferro desde abril, em casa do pai, com graves problemas estruturais. \u00c0 espera de uma resposta da autarquia, socorre-se de outra vizinha que foi realojada pela autarquia e que lhe deixou mantas e roupas quentes. \u201cPara mim, torna-se mais complicado porque a minha casa de banho \u00e9 na rua e quando est\u00e1 a chover tamb\u00e9m chove dentro da casa de banho\u201d, descreve a jovem. Foi, ali\u00e1s, o que aconteceu na \u00faltima noite. \u201cTive de levar o chap\u00e9u de chuva para dentro da casa de banho\u201d, denuncia. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4138\" srcset=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt-300x225.jpeg 300w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt-768x576.jpeg 768w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt-220x165.jpeg 220w, https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/01\/Marta-Figueiredo_300cm_opt.jpeg 1181w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption> Marta Figueiredo vai \u00e0 casa de banho de chap\u00e9u de chuva <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Portugal \u00e9 um dos pa\u00edses onde mais frio se passa dentro de casa <\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o deixa de ser extraordin\u00e1rio que num pa\u00eds com um dos climas mais moderados da Europa se passe tanto frio dentro de casa. De acordo com dados do Eurostat divulgados em fevereiro de 2019, pior do que Portugal s\u00f3 a Bulg\u00e1ria, Gr\u00e9cia e Chipre. A m\u00e9dia de casas mal aquecidas na Uni\u00e3o Europeia anda em torno dos 8%. Em Portugal, esse valor sobe para os 22%. <\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 pode n\u00e3o estar demasiado frio na rua mas enregela-se dentro de casa. Por exemplo, a temperatura m\u00e9dia em janeiro, que \u00e9 habitualmente o m\u00eas mais frio em Lisboa, \u00e9 de 11,6\u00baC. J\u00e1 em Turku, no sudoeste da Finl\u00e2ndia onde o m\u00eas com temperaturas mais baixas \u00e9 fevereiro, essa m\u00e9dia \u00e9 de -5,2\u00baC. Contudo, enfrentar o inverno n\u00e3o \u00e9 um sacrif\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>A viver nesta cidade desde 2012, Tiago Silva confessou \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio que sempre que vai a Portugal no inverno, tem medo. \u201cEu sou de Almeida, distrito da Guarda, ent\u00e3o \u00e9 muito frio\u201d, explica o doutorando de 34 anos. \u201cO inverno aqui n\u00e3o custa nada. Aqui temos a casa sempre com 21 graus de temperatura e mesmo na casa anterior, uma casa de madeira, com mais de cem anos, portanto, mais fria e dif\u00edcil de aquecer, mesmo com lareira, estava sempre por volta dessa temperatura\u201d, descreve. \u201cEm Portugal, custa-me sair da cama para tomar duche, isso torna o inverno muito mais dif\u00edcil do que aqui\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O frio mata e m\u00f3i<\/h2>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2017, o excesso de \u00f3bitos do inverno anterior chegou \u00e0s capas dos jornais. Ent\u00e3o, a Ag\u00eancia Lusa destacava que a gripe e a vaga de frio teriam sido respons\u00e1veis por essa vaga mortal, segundo dados do relat\u00f3rio anual do Programa Nacional de Vigil\u00e2ncia da Gripe. O documento elaborado pelo Instituto Nacional de Sa\u00fade Dr. Ricardo Jorge, em colabora\u00e7\u00e3o com a Dire\u00e7\u00e3o-Geral da Sa\u00fade, referia que durante a \u00e9poca de gripe 2016\/2017 se teria registado um excesso de 4.467 \u00f3bitos em rela\u00e7\u00e3o ao esperado.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a \u00e9poca de gripe 2016\/2017 registou-se um excesso de 4.467 \u00f3bitos em rela\u00e7\u00e3o ao esperado. <\/p>\n\n\n\n<p>Este excesso de mortalidade \u201ccoincidiu com um per\u00edodo epid\u00e9mico da gripe e com um per\u00edodo em que se registaram temperaturas extremamente baixas, estimando-se que 84% dos excessos sejam atribu\u00edveis \u00e0 epidemia de gripe sazonal e 16% \u00e0 vaga de frio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio indica que, a n\u00edvel hospitalar, \u201cfoi nos indiv\u00edduos adultos, com mais de 64 anos que se detetou uma maior percentagem de casos de gripe\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cFoi tamb\u00e9m nos doentes mais velhos, com 65 ou mais anos, que se verificou a maior taxa de internamento hospitalar e em unidades de cuidados intensivos\u201d, prossegue o documento, avan\u00e7ando que \u201ca febre, as cefaleias, as mialgias, a tosse e os calafrios foram os sintomas mais frequentemente associados a casos de gripe confirmados laboratorialmente\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao n\u00edvel dos grupos de risco, \u201cfoi nos doentes com obesidade, diabetes e doen\u00e7a respirat\u00f3ria cr\u00f3nica que se observou a maior propor\u00e7\u00e3o de casos de gripe confirmada laboratorialmente, seguindo-se dos indiv\u00edduos com doen\u00e7a cardiovascular e doen\u00e7a renal cr\u00f3nica\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o Di\u00e1rio de Not\u00edcias, em 2003, o investigador J. D. Haley publicou um estudo que mostrava que Portugal, apesar do clima moderado, era o pa\u00eds com o maior excesso de mortalidade no inverno.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00e1tia Martins, m\u00e9dica de fam\u00edlia num Centro de Sa\u00fade em Campanh\u00e3, no Porto, explica \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio que \u201cda mesma forma que aumenta a mortalidade durante as ondas de calor, o mesmo acontece quando h\u00e1 ondas de frio\u201d. E apresenta v\u00e1rios motivos. \u201cTamb\u00e9m pelo  facto de o nosso sistema imunit\u00e1rio ficar mais debilitado, ficamos mais sens\u00edveis, sobretudo em doen\u00e7as respirat\u00f3rias agudas. Mesmo do ponto de vista da recupera\u00e7\u00e3o, da convalescen\u00e7a, \u00e9 diferente ter uma gripe, uma pneumonia ou ter covid e estar numa casa onde h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es e ter qualquer uma destas infe\u00e7\u00f5es numa casa em que se passa frio\u201d, sustenta.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Do ponto de vista da recupera\u00e7\u00e3o, \u00e9 diferente ter uma gripe, uma pneumonia ou ter covid e estar numa casa onde h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es e ter qualquer uma destas infe\u00e7\u00f5es numa casa em que se passa frio.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para esta m\u00e9dica de 33 anos, a humidade das casas, associada ao frio e ao mau isolamento, complica a vida dos pacientes com patologia respirat\u00f3ria cr\u00f3nica. Doentes asm\u00e1ticos ou com doen\u00e7a pulmonar obstrutiva cr\u00f3nica \u201cs\u00e3o doentes que realmente notam na pele as diferen\u00e7as por estarem expostos a um meio em que h\u00e1 muito vapor de \u00e1gua\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>E d\u00e1 o exemplo de um jovem paciente que ilustra esta situa\u00e7\u00e3o. \u201cEstou a trabalhar num meio mais desfavorecido, temos um bairro social aqui ao lado do nosso centro de sa\u00fade, e tive o caso de um utente, at\u00e9 bastante jovem, que tinha uma asma n\u00e3o controlada e s\u00f3 pelo facto de mudar de casa ficou com a doen\u00e7a controlada. Neste momento, nem sequer precisa de medica\u00e7\u00e3o e ele pr\u00f3prio associa a mudan\u00e7a para uma casa com menos humidade e com outro tipo de condi\u00e7\u00f5es a poder deixar de precisar de uma medica\u00e7\u00e3o cr\u00f3nica\u201d, descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as consequ\u00eancias podem ser muitas. Num pa\u00eds com uma popula\u00e7\u00e3o envelhecida, C\u00e1tia Martins refere os idosos que t\u00eam o h\u00e1bito de se deitarem mais cedo no inverno devido \u00e0s baixas temperaturas. \u201cV\u00e3o para a cama \u00e0s seis da tarde. Com o envelhecimento j\u00e1 se tem menos horas de sono e se v\u00e3o para a cama demasiado cedo, chegam \u00e0s duas da manh\u00e3 e n\u00e3o dormem. Isto acaba por criar problemas na qualidade da higiene do sono e o que acontece \u00e9 que muitas vezes isto leva ao consumo de benzodiazepinas na tentativa de corrigirem uma higiene do sono deficit\u00e1ria causada por se meterem na cama com frio. Eu vejo muito isto nas pessoas de maior idade e acaba por ter consequ\u00eancias a n\u00edvel social e psicol\u00f3gico. Ficam com depend\u00eancias de f\u00e1rmacos\u201d, alerta.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O perigo de lareiras e aquecedores <\/h2>\n\n\n\n<p>Como responderam Carla Ara\u00fajo e Rosa Madalena da Silva \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, a humidade das casas e o receio de curtos circuitos que possam provocar um inc\u00eandio fazem com que olhem para os calor\u00edficos como um aparelho perigoso. Todos os anos, h\u00e1 not\u00edcias de cidad\u00e3os que morrem dentro de casa enquanto tentam combater o frio usando lareiras, salamandras ou aquecedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Ventilar a casa, evitar dormir junto a equipamentos de aquecimento, afastar aquecedores de m\u00f3veis, evitar sobrecargas de eletrodom\u00e9sticos e n\u00e3o deixar roupa em cima dos calor\u00edficos<\/p>\n\n\n\n<p>Ventilar a casa, evitar dormir junto a equipamentos de aquecimento, afastar aquecedores de m\u00f3veis, evitar sobrecargas de eletrodom\u00e9sticos e n\u00e3o deixar roupa em cima dos calor\u00edficos s\u00e3o alguns dos conselhos que a pr\u00f3pria Guarda Nacional Republicana se viu obrigada a anunciar em p\u00fablico para evitar trag\u00e9dias este inverno.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem cheiro, sem cor e praticamente impercet\u00edvel, o mon\u00f3xido de carbono \u00e9 uma morte silenciosa. Segundo dados do Centro de Informa\u00e7\u00e3o Antivenenos (CIAV) fornecidos ao i, em janeiro de 2019, no ano passado foram 32 os pedidos de apoio e aconselhamento relacionados com o mon\u00f3xido de carbono. Desses pedidos, 22 eram de adultos e oito diziam respeito a crian\u00e7as. Estes n\u00fameros representavam j\u00e1 uma subida face aos 29 pedidos registados em 2016. Os dados revelam ainda que em 2017 se registaram 38 pedidos de ajuda.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados do Centro de Orienta\u00e7\u00e3o de Doentes Urgentes (CODU), a que o i teve acesso, indicam que em 2018 se registaram 741 ocorr\u00eancias das quais resultaram seis mortos. No entanto, esse n\u00e3o foi o pior ano nem em termos de ocorr\u00eancias nem em n\u00famero de v\u00edtimas mortais. \u00c0 semelhan\u00e7a do n\u00famero de pedidos ao CIAV, 2017 foi o ano que registou o maior n\u00famero de ocorr\u00eancias (972). O ano com mais mortes aconteceu em 2013, com 12, de um total de 672 ocorr\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Portugal, um dos campe\u00f5es em pobreza energ\u00e9tica<\/h2>\n\n\n\n<p>Foi em 1990 que a brit\u00e2nica Brenda Boardman definiu pela primeira vez o termo pobreza energ\u00e9tica como a incapacidade de uma fam\u00edlia conseguir uma quantidade adequada de servi\u00e7os de energia pelo pre\u00e7o de 10% do rendimento dispon\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 dados que ilustram sobre a incapacidade de as fam\u00edlias enfrentarem o frio recorrendo a solu\u00e7\u00f5es que implicam o uso de energia como o g\u00e1s ou a eletricidade. Um estudo de 2019 do Eurostat, relativo ao ano anterior, mostrava que 19,4% dos portugueses dizia n\u00e3o ter capacidade financeira para pagar os custos relacionados com o aquecimento adequado da sua casa. Era, ent\u00e3o, a quinta maior percentagem da Uni\u00e3o Europeia cuja m\u00e9dia era de 7% em 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>Noutros c\u00e1lculos, Portugal estava no segundo semestre de 2019 no quarto lugar da eletricidade mais cara da Uni\u00e3o Europeia para consumo dom\u00e9stico, em termos de poder de compra das fam\u00edlias, de acordo com o Eurostat. J\u00e1 no campeonato de pre\u00e7os, o g\u00e1s no pa\u00eds tamb\u00e9m \u00e9 o quarto mais caro da Europa, depois de Espanha, Su\u00e9cia e It\u00e1lia. Finl\u00e2ndia, Luxemburgo, Malta, Fran\u00e7a, Su\u00e9cia, Est\u00f3nia, Hungria e Pa\u00edses Baixos s\u00e3o os pa\u00edses onde a fatura menos pesa face ao or\u00e7amento familiar, face ao poder de compra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> As fam\u00edlias portuguesas s\u00e3o de facto das que mais dificuldades t\u00eam para enfrentar as despesas. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As fam\u00edlias portuguesas s\u00e3o de facto das que mais dificuldades t\u00eam para enfrentar as despesas. Com os magros sal\u00e1rios, mais de metade (59%) dos portugueses fica com menos de 20% do rendimento ap\u00f3s pagar as contas, na sequ\u00eancia da pandemia de covid-19, segundo um estudo da Intrum, realizado entre agosto e outubro deste ano.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDevido \u00e0 pandemia covid-19, 59% dos portugueses inquiridos afirma ficar com menos de 20% do rendimento ap\u00f3s pagar as contas\u201d, um valor que \u00e9 \u201csuperior \u00e0 m\u00e9dia europeia, de 41%\u201d, refere o European Consumer Payment Report 2020, realizado em plena pandemia, segundo a Ag\u00eancia Lusa.<\/p>\n\n\n\n<p>Das medidas analisadas para responder \u00e0 situa\u00e7\u00e3o, em Portugal a mais mencionada pelos inquiridos foi o corte de gastos em bens n\u00e3o essenciais (62%), ligeiramente acima da m\u00e9dia, que \u00e9 57%.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA preocupa\u00e7\u00e3o com o futuro e o aumento do stress e ansiedade atinge cada vez mais os portugueses\u201d, adianta o estudo, que salienta que \u201cas faixas et\u00e1rias dos 22 aos 37 anos (61%) e dos 45 aos 54 anos (63%) afirmam estar, neste momento, mais preocupadas com o seu bem-estar financeiro do que em qualquer outro momento da sua vida\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Reformas que podem fazer a diferen\u00e7a<\/h2>\n\n\n\n<p>O arquiteto Tiago Mota Saraiva explica \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio que logo a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o houve um grande processo de constru\u00e7\u00e3o para fazer face \u00e0s condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da habita\u00e7\u00e3o em Portugal e das 500 mil casas em falta para cobrir as necessidades. Muitas dessas novas constru\u00e7\u00f5es \u201crepresentaram melhorias significativas mas a qualidade est\u00e1 muito longe do m\u00ednimo aceit\u00e1vel neste momento\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Logo a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o houve um grande processo de constru\u00e7\u00e3o para fazer face \u00e0s condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias da habita\u00e7\u00e3o em Portugal e das 500 mil casas em falta para cobrir as necessidades. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sustenta tamb\u00e9m que durante o processo revolucion\u00e1rio houve \u201cboa constru\u00e7\u00e3o\u201d, obedecendo a uma l\u00f3gica de \u201chabita\u00e7\u00e3o p\u00fablica\u201d, mas que logo a seguir com a \u201cmercantiliza\u00e7\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o\u201d a qualidade baixa. Explica que hoje temos \u201celevad\u00edssimos consumos energ\u00e9ticos\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Fala na fraca qualidade dos materiais mas, sobretudo, nas solu\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas utilizadas na constru\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios e entende que aprendemos pouco com a \u201carquitetura popular que nos socorria das condi\u00e7\u00f5es t\u00e9rmicas exteriores\u201d e d\u00e1 o exemplo da constru\u00e7\u00e3o de paredes grossas. Considera que os construtores preferiram poupar nos materiais abdicando de paredes duplas de alvenaria.<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, considera que h\u00e1 processos de reabilita\u00e7\u00e3o que s\u00e3o necess\u00e1rios e que devem partir dos financiamentos que existem. \u201cIsto tem um impacto enorme no consumo que n\u00f3s temos de ar condicionado e de calorificios\u201d, explica. Para o arquiteto, a preocupa\u00e7\u00e3o deve ser sobretudo com tudo o que numa casa contacta com o exterior.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Estrat\u00e9gia de 384 milh\u00f5es para renova\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios<\/h2>\n\n\n\n<p>A \u201cprecariedade energ\u00e9tica\u201d \u00e9, segundo a Comiss\u00e3o Europeia, \u201co resultado de uma combina\u00e7\u00e3o de baixos rendimentos, despesas energ\u00e9ticas elevadas e mau desempenho energ\u00e9tico das habita\u00e7\u00f5es\u201d. Agora, de acordo com o P\u00fablico, o governo tem em m\u00e3os um instrumento que calcula, pela primeira vez, o investimento que seria necess\u00e1rio para \u201capoiar de forma consider\u00e1vel a mitiga\u00e7\u00e3o da pobreza energ\u00e9tica em Portugal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Para levar a cabo o isolamento t\u00e9rmico (&#8230;) nos edif\u00edcios onde moram os cerca de dois milh\u00f5es de portugueses que se estima viverem em situa\u00e7\u00e3o de precariedade energ\u00e9tica, seriam necess\u00e1rios investimentos totais de 7671 milh\u00f5es de euros at\u00e9 2040. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Para levar a cabo o isolamento t\u00e9rmico de fachadas e coberturas, e substituir v\u00e3os envidra\u00e7ados por caixilhos de PVC com vidro duplo nos edif\u00edcios onde moram os cerca de dois milh\u00f5es de portugueses que se estima viverem em situa\u00e7\u00e3o de precariedade energ\u00e9tica, seriam necess\u00e1rios investimentos totais de 7671 milh\u00f5es de euros at\u00e9 2040. Ou seja, 384 milh\u00f5es de euros por ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Para chegar a estes n\u00fameros, um grupo de trabalho composto por elementos da Direc\u00e7\u00e3o-Geral de Energia e Geologia, da Ag\u00eancia para a Energia e do Instituto Superior T\u00e9cnico, que est\u00e3o na Estrat\u00e9gia de Longo Prazo para a Renova\u00e7\u00e3o dos Edif\u00edcios (ELPRE), um dos instrumentos de pol\u00edtica de energia e clima que o pa\u00eds est\u00e1 obrigado a apresentar \u00e0 Comiss\u00e3o Europeia.<\/p>\n\n\n\n<p>No total, segundo o P\u00fablico, a ELPRE prev\u00ea a necessidade de investimentos totais de 144 mil milh\u00f5es de euros, dos quais 110 mil milh\u00f5es especificamente para habita\u00e7\u00f5es, na \u201ctransforma\u00e7\u00e3o rent\u00e1vel dos edif\u00edcios existentes em edif\u00edcios com necessidades quase nulas de energia\u201d at\u00e9 2050. Estabelece ainda um \u201croteiro com medidas de melhoria\u201d para alcan\u00e7ar esse \u201cparque imobili\u00e1rio descarbonizado e de elevada efici\u00eancia energ\u00e9tica\u201d e considera que as poupan\u00e7as em aquisi\u00e7\u00e3o de energia permitir\u00e3o, \u201cao fim de 30 anos\u201d, um retorno do investimento de 112 mil milh\u00f5es de euros nos edif\u00edcios residenciais e de 109 mil milh\u00f5es nos edif\u00edcios n\u00e3o residenciais. <\/p>\n\n\n\n<p>Para aplicar as medidas sugeridas no documento, \u00e9 necess\u00e1rio um investimento total de 40.373 milh\u00f5es de euros e todas as altera\u00e7\u00f5es ao \u201cn\u00edvel da envolvente t\u00e9rmica dos edif\u00edcios\u201d devem ser efetuadas at\u00e9 2040.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o conte\u00fado apresentado pela ELPRE, intervir na chamada \u201cenvolvente passiva\u201d dos edif\u00edcios permitiria aumentar o n\u00edvel de \u201cconforto interior das habita\u00e7\u00f5es sem necessidade do aumento do consumo de energia\u201d e dos encargos que isso representa, pelo que os autores da ELPRE destacam a import\u00e2ncia destas medidas para as camadas mais desfavorecidas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O governo portugu\u00eas espera o apoio de Bruxelas atrav\u00e9s de um plano de medidas para promover a renova\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios. De acordo com o P\u00fablico, o objetivo da Comiss\u00e3o \u00e9, no m\u00ednimo, duplicar a taxa de renova\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios, contribuindo em simult\u00e2neo para as metas ambientais e para a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica.<\/p>\n\n\n\n<p>Para j\u00e1, n\u00e3o passa de uma inten\u00e7\u00e3o mas o Minist\u00e9rio do Ambiente e da A\u00e7\u00e3o Clim\u00e1tica considera que que boa parte do investimento se vai dar no \u00e2mbito da \u201cevolu\u00e7\u00e3o normal\u201d da iniciativa privada. Por outro lado, o governo referiu o Fundo Europeu de Financiamento para a Renova\u00e7\u00e3o, que dever\u00e1 contar com 91 mil milh\u00f5es de euros por ano e o plano de recupera\u00e7\u00e3o apresentado por Bruxelas para combater os efeitos da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 uma quest\u00e3o de tempo perceber se a viabilidade deste plano representa efetivamente o fim de uma guerra contra o frio e a humidade. <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Inverno ap\u00f3s inverno, os portugueses envolvem-se numa guerra contra um inimigo que silenciosamente se infiltra nas nossas casas. 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