{"id":4128,"date":"2020-12-18T16:54:39","date_gmt":"2020-12-18T16:54:39","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4128"},"modified":"2020-12-18T16:54:41","modified_gmt":"2020-12-18T16:54:41","slug":"a-despedida-do-barrilete-cosmico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/12\/18\/a-despedida-do-barrilete-cosmico\/","title":{"rendered":"A despedida do \u2018barrilete c\u00f3smico\u2019"},"content":{"rendered":"\n<p>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem o que perderam\u201d, podia ler-se na parede de um cemit\u00e9rio no dia em que a principal cidade do sul de It\u00e1lia rebentou numa explos\u00e3o de alegria. Pela primeira vez na sua hist\u00f3ria, o N\u00e1poles conquistava o campeonato italiano contra tudo e contra todos. O inesperado fen\u00f3meno foi poss\u00edvel gra\u00e7as a um jovem que nasceu numa favela pobre de Buenos Aires e cujo sonho n\u00e3o era mais do que poder comprar uma casa aos pais. Sem caracter\u00edsticas f\u00edsicas que o pudessem prever e ao contr\u00e1rio da maioria dos grandes grandes jogadores, Diego Armando Maradona consagrou-se no sop\u00e9 do Ves\u00favio, num clube mediano de uma cidade estigmatizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Em N\u00e1poles, depois de n\u00e3o ser bem sucedido no Barcelona, o jogador argentino carregou em ombros uma equipa que representava os trabalhadores e o povo do sul, a que os do norte chamavam \u201cterroni\u201d. Ou seja, cor de terra. Cor de quem trabalhava sol a sol nos campos ou no mar. Historicamente mais pobre, o N\u00e1poles de Maradona foi a bandeira de uma cidade maltratada, caricaturizada pela mis\u00e9ria, exclus\u00e3o social, tr\u00e1fico de droga e m\u00e1fia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com a morte do astro, desaparece uma lenda viva do futebol. Talvez no futuro digam que fomos privilegiados porque coexistimos no tempo hist\u00f3rico do \u2018barrilete c\u00f3smico\u2019, como lhe chamou V\u00edctor Hugo Morales, o narrador do \u00e9pico jogo contra Inglaterra no Mundial de 1986. Foi precisamente nessa partida, no M\u00e9xico, pa\u00eds onde a Argentina se sagrou campe\u00e3, que os dois golos de Maradona resgataram a dignidade perdida quatro anos antes na guerra nas Ilhas Malvinas entre os dois pa\u00edses. Os argentinos tinham sido humilhados pelas tropas brit\u00e2nicas e despojados, uma vez mais, de um territ\u00f3rio que continuam a reivindicar como seu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O impacto da morte de Maradona n\u00e3o pode apenas ser compreendido pelo seu papel em campo. As cerim\u00f3nias funebres, t\u00e3o ca\u00f3ticas, emocionantes e populares como a sua pr\u00f3pria vida, mostram a marca do futebolista na identidade argentina. Mas tamb\u00e9m no planeta. Na Argentina, a como\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda absoluta. Como Gardel, Evita e Che Guevara, Diego Armando Maradona sobe ao Olimpo das refer\u00eancias hist\u00f3ricas de um povo que celebra a vida com paix\u00e3o. Nasceu no bairro pobre de Fiorito e morre velado no pal\u00e1cio presidencial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Noutras partes do mundo tamb\u00e9m se chorou Maradona. Na S\u00edria, num edif\u00edcio destru\u00eddo pela guerra, apareceu uma pintura dedicada ao jogador argentino. Em N\u00e1poles, a noite foi de l\u00e1grimas e peregrina\u00e7\u00e3o, numa cidade repleta de murais com o gigante do futebol, que lhe deve muita da auto-estima que hoje tem. O clube N\u00e1poles anunciou que vai dar ao seu est\u00e1dio o nome de Diego Armando Maradona.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas como em todas as paix\u00f5es os defeitos varrem-se para debaixo do tapete porque Maradona para muitos estava acima de tudo isso. Eduardo Galeano defendeu que foi adorado n\u00e3o s\u00f3 pelo prod\u00edgio dos seus malabarismos futebol\u00edsticos mas tamb\u00e9m porque era um \u201cdeus sujo, pecador, o mais humano dos deuses\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJogava melhor do que ningu\u00e9m apesar da coca\u00edna e n\u00e3o por causa dela. Estava angustiado pelo peso do seu pr\u00f3prio personagem. Tinha problemas na coluna vertebral desde o long\u00ednquo dia em que a multid\u00e3o gritou o seu nome pela primeira vez. Maradona carregava um fardo chamado Maradona, que lhe fazia doer as costas. O corpo como met\u00e1fora: do\u00edam-lhe as pernas, n\u00e3o conseguia dormir sem comprimidos. N\u00e3o demorou a perceber que era insuport\u00e1vel a responsabilidade de trabalhar como deus nos est\u00e1dios mas desde o princ\u00edpio soube que era imposs\u00edvel deixar de faz\u00ea-lo\u201d, descreveu o escritor uruguaio.<\/p>\n\n\n\n<p>O facto \u00e9 que a sua personagem foi controversa. Desde o consumo de drogas, gra\u00e7as aos seus contactos com a Camorra, aos filhos n\u00e3o reconhecidos, das acusa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia contra a sua mulher, ao recurso \u00e0 prostitui\u00e7\u00e3o. Com todas as contradi\u00e7\u00f5es foi tamb\u00e9m o jogador consagrado que se dedicou a denunciar o sujo mundo do dinheiro no futebol ao mesmo tempo que defendeu atletas que n\u00e3o eram famosos. Foi algu\u00e9m que nasceu na pobreza e que apesar da consagra\u00e7\u00e3o nunca renegou as origens. E levou tudo isso para os campos de futebol e para fora deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a sua genialidade foi truncada pela coca\u00edna, nas cloacas do capitalismo, foi Cuba que o conseguiu resgatar da toxicodepend\u00eancia. A sua rela\u00e7\u00e3o com Fidel Castro, que considerava o seu segundo pai, e a sua admira\u00e7\u00e3o por Che Guevara foram express\u00e3o de um compromisso com a luta dos povos contra o imperialismo. Foi justamente Diego Maradona que acompanhou l\u00edderes como Hugo Ch\u00e1vez, Nestor Kirschner e Evo Morales no enterro definitivo do projeto neoliberal encabe\u00e7ado pelos Estados Unidos de George W. Bush conhecido como ALCA.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas se ent\u00e3o, em plena vaga soberanista e anti-imperialista na Am\u00e9rica Latina, era f\u00e1cil assumir esse reto, Maradona nunca deixou de estar do lado de Cuba e da Venezuela nos momentos mais dif\u00edceis. Sem se preocupar, como outros, sobre o que significaria para a imagem do melhor jogador da hist\u00f3ria apoiar pa\u00edses ostracizados pelo resto do mundo, Diego deu a cara sem pedir nada em troca.<\/p>\n\n\n\n<p>Pagou e assumiu em vida muitos dos erros que cometeu mas a raz\u00e3o por que h\u00e1 o aplauso de um planeta inteiro, apesar das luzes e sombras, deve-se ao talento de um homem que nunca renegou as suas origens, o \u201cmais humano dos deuses\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem o que perderam\u201d, podia ler-se na parede de um cemit\u00e9rio no dia em que a principal cidade do sul de It\u00e1lia rebentou numa explos\u00e3o de alegria. Pela primeira vez na sua hist\u00f3ria, o N\u00e1poles conquistava o campeonato italiano contra tudo e contra todos. 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