{"id":4100,"date":"2020-12-11T15:17:20","date_gmt":"2020-12-11T15:17:20","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4100"},"modified":"2021-01-04T16:24:45","modified_gmt":"2021-01-04T16:24:45","slug":"vulnerabilidade-economica-e-factor-de-alto-risco-para-a-saude-psicologica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/12\/11\/vulnerabilidade-economica-e-factor-de-alto-risco-para-a-saude-psicologica\/","title":{"rendered":"\u201cVulnerabilidade econ\u00f3mica \u00e9 factor de alto risco para a sa\u00fade psicol\u00f3gica\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 psic\u00f3loga, especialista em psicologia cl\u00ednica e da sa\u00fade. Edite Queiroz trabalha na Ordem dos Psic\u00f3logos que, no contexto da pandemia, tem produzido documentos e informa\u00e7\u00f5es no sentido de apoiar a popula\u00e7\u00e3o e decisores na gest\u00e3o pr\u00e1tica dos diversos desafios associados \u00e0s consequ\u00eancias da doen\u00e7a, contribuindo para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade psicol\u00f3gica.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">H\u00e1 quem antecipe uma epidemia de doen\u00e7as mentais devido \u00e0 pandemia. Que tipo de consequ\u00eancias cognitivas e comportamentais podemos esperar?<\/h2>\n\n\n\n<p>A preval\u00eancia de doen\u00e7as psiqui\u00e1tricas em Portugal \u00e9 das mais elevadas da Europa (um em cada cinco portugueses tem um problema de sa\u00fade psicol\u00f3gica), pelo que, numa situa\u00e7\u00e3o de incerteza, com efeitos em tantas esferas da vida, e antecipando uma crise social e econ\u00f3mica que sobreviver\u00e1 \u00e0 pandemia, n\u00e3o ser\u00e1 surpreendente o aumento destes problemas, quer na popula\u00e7\u00e3o geral, quer em grupos com vulnerabilidades pr\u00e9vias. A evid\u00eancia mostra j\u00e1 um aumento generalizado deste tipo de problemas. Falo, por exemplo, de crises de ansiedade, ataques de p\u00e2nico, exaust\u00e3o emocional, perturba\u00e7\u00f5es de sono, mas poder\u00e3o aparecer quadros mais graves de stress p\u00f3s-traum\u00e1tico ou aumento dos n\u00fameros do suic\u00eddio. Sabemos que a venda de antidepressivos e ansiol\u00edticos em Portugal disparou logo em Mar\u00e7o, uma subida de 28% face ao mesmo per\u00edodo no ano anterior. Existem grupos mais vulner\u00e1veis: os idosos, os desempregados, os que t\u00eam menos escolaridade, os que vivem em zonas rurais ou os portadores de doen\u00e7as cr\u00f3nicas ou problemas psicol\u00f3gicos pr\u00e9-existentes. Os profissionais de sa\u00fade est\u00e3o tamb\u00e9m muitos expostos, sujeitos a quadros de exaust\u00e3o que podem levar a um \u201cdesgaste emp\u00e1tico\u201d. Num pa\u00eds onde quase um milh\u00e3o de pessoas vive sozinha, o impacto da pandemia na solid\u00e3o pode tamb\u00e9m ser enorme.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quais s\u00e3o os fatores de risco?<\/h2>\n\n\n\n<p>Existem diversos factores associados a uma maior vulnerabilidade psicol\u00f3gica, por exemplo, o n\u00edvel educacional, viver ou n\u00e3o sozinho, ter ou n\u00e3o problemas pr\u00e9vios de sa\u00fade psicol\u00f3gica ou f\u00edsica, ter ou n\u00e3o um trabalho prec\u00e1rio. Muitas das medidas que nos foram impostas s\u00e3o, em si mesmas, factores de risco \u2013 por exemplo, a quarentena, o isolamento f\u00edsico, o distanciamento social \u2013 na medida em que provocam tristeza, ansiedade, varia\u00e7\u00f5es de humor, raiva, irritabilidade, solid\u00e3o e desconex\u00e3o social e podem conduzir ao aumento dos conflitos, a comportamentos de abuso de \u00e1lcool e subst\u00e2ncias, viol\u00eancia dom\u00e9stica, ciberdepend\u00eancias, comportamentos auto-lesivos, etc. Existe tamb\u00e9m a quest\u00e3o dos lutos, individuais e comunit\u00e1rios, por todas as perdas associadas \u00e0 pandemia (n\u00e3o me refiro apenas \u00e0s mortes em concreto, mas \u00e0 perda de empregos, de seguran\u00e7a econ\u00f3mica, de conex\u00f5es sociais). O dil\u00favio di\u00e1rio de informa\u00e7\u00e3o a que somos sujeitos \u00e9 tamb\u00e9m um factor de risco. Gera ru\u00eddo, agrava a ansiedade e o medo, aumenta o sentimento de falta de controlo e diminui a toler\u00e2ncia \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o e ao stress. Mas a conjuntura global de incerteza e imprevisibilidade constituir\u00e1 o principal factor de risco para uma verdadeira crise de sa\u00fade mental. Para muitos, a pandemia implicou a paragem da actividade profissional, a perda do emprego ou o layoff, enquanto outros continuaram a trabalhar e permaneceram expostos. Ambas as situa\u00e7\u00f5es s\u00e3o complexas. A generaliza\u00e7\u00e3o do medo da doen\u00e7a e de um futuro incerto agrava ainda desigualdades sociais pr\u00e9-existentes (por exemplo, no acesso a cuidados de sa\u00fade) e a discrimina\u00e7\u00e3o e estigma para com grupos socialmente exclu\u00eddos. Acrescem as d\u00favidas sobre os efeitos colaterais da pandemia, com consequ\u00eancias extensas nos lares, na sociedade e na economia: fam\u00edlias destruturadas, perda de rendimentos, desemprego, abandono escolar.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Pode o desenvolvimento das crian\u00e7as ser afetado pelos constrangimentos no seu&nbsp;dia-a-dia?<\/h2>\n\n\n\n<p>Os problemas psicol\u00f3gicos das crian\u00e7as e jovens t\u00eam vindo a crescer em Portugal e s\u00e3o os principais preditores de problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica na vida adulta. As crian\u00e7as, tal como os adultos, sentem preocupa\u00e7\u00e3o, ansiedade e medo (medo de morrer, medo da morte dos pais) e s\u00e3o profundamente afectadas pelo que se est\u00e1 a passar. As medidas que t\u00eam vindo a ser implementadas desde o in\u00edcio da pandemia (o encerramento das escolas, a restri\u00e7\u00e3o ou inibi\u00e7\u00e3o dos encontros com amigos e colegas, a educa\u00e7\u00e3o online, etc.) t\u00eam sido altamente disruptivas das rotinas e geradoras de monotonia e desapontamento, stress e ansiedade. \u00c9 comum identificarmos a escola como a grande promotor do desenvolvimento cognitivo, subvalorizando o seu papel fundamental no desenvolvimento social e emocional. A escola \u00e9 o local onde as crian\u00e7as recebem apoios fundamentais para um desenvolvimento pleno. Na altura em que as escolas foram encerradas, um dos maiores problemas prendeu-se com a falta de estrutura, de est\u00edmulos e de oportunidades de brincar e de receber apoio essencial para o bem-estar. O isolamento f\u00edsico torna ainda as crian\u00e7as mais sedent\u00e1rias, mais vulner\u00e1veis aos efeitos negativos de uma utiliza\u00e7\u00e3o excessiva da tecnologia. Uma combina\u00e7\u00e3o de crise de sa\u00fade p\u00fablica, isolamento social e recess\u00e3o econ\u00f3mica pode realmente conduzir a efeitos adversos em termos desenvolvimentais, n\u00e3o s\u00f3 em termos psicol\u00f3gicos, mas tamb\u00e9m f\u00edsicos.&nbsp;&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A imposi\u00e7\u00e3o do estado de emerg\u00eancia com todas as suas restri\u00e7\u00f5es afeta de que forma&nbsp;a sociedade?<\/h2>\n\n\n\n<p>O estado de emerg\u00eancia tem um efeito transversal profundo, com efeitos pr\u00e1ticos imediatos no quotidiano das pessoas e efeitos negativos na sa\u00fade psicol\u00f3gica. Por maior disponibilidade que todos tenhamos para aderir \u00e0s recomenda\u00e7\u00f5es, o facto \u00e9 que o estado de emerg\u00eancia suprime a viv\u00eancia plena de v\u00e1rias dimens\u00f5es da vida \u2013 a socializa\u00e7\u00e3o, o lazer, o acesso \u00e0 cultura \u2013 e nos coloca num paradigma de paralisa\u00e7\u00e3o da vida social, remetendo para uma l\u00f3gica de mera sobreviv\u00eancia que \u00e9 contr\u00e1ria ao bem-estar e \u00e0 sa\u00fade psicol\u00f3gica. A restri\u00e7\u00e3o das liberdades individuais, muitas vezes em situa\u00e7\u00f5es em que o racional \u00e9 dif\u00edcil de entender porque a comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 a mais adequada, pode ser contraproducente, especialmente num momento em que 60% da popula\u00e7\u00e3o sofre j\u00e1 da chamada fadiga da pandemia, o que implica, entre outras coisas, uma disponibilidade diminu\u00edda para seguir recomenda\u00e7\u00f5es e uma maior propens\u00e3o para reagir negativamente. \u00c9 importante que as pessoas se sintam parceiras do Estado no combate \u00e0 pandemia, ao inv\u00e9s de \u00fanicas respons\u00e1veis.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A permanente exposi\u00e7\u00e3o ao alarmismo&nbsp;medi\u00e1tico potencia a ansiedade e o p\u00e2nico?<\/h2>\n\n\n\n<p>Sem d\u00favida. Quando somos expostos a tal quantidade e diversidade de informa\u00e7\u00f5es, facilmente se gera a confus\u00e3o, o p\u00e2nico e reac\u00e7\u00f5es exacerbadas. Refiro-me a estat\u00edsticas sobre o n\u00famero de infectados e de \u00f3bitos ou not\u00edcias sobre as dificuldades nos sistemas de sa\u00fade ou as vacinas em desenvolvimento, que muitas vezes nos chegam de forma descontextualizada, s\u00e3o contradit\u00f3rias ou mesmo falsas. \u00c9 natural que acabemos por cair na tenta\u00e7\u00e3o de difundir&nbsp;<em>fake news<\/em>&nbsp;que podem bloquear respostas eficazes ou aumentar comportamentos de risco. Uma comunica\u00e7\u00e3o descontextualizada e alarmista contribui para o aumento do estigma e para a fragmenta\u00e7\u00e3o da sociedade, polariza grupos sociais e incentiva comportamentos cada vez mais extremados. Isto constitui um problema porque a comunica\u00e7\u00e3o adequada do risco \u00e9, de facto, uma ferramenta essencial no combate \u00e0 pandemia. Deve ser clara e honesta, e evitar o sensacionalismo a todo o custo. Isto s\u00f3 se consegue comunicando com base na evid\u00eancia cient\u00edfica, centrando a comunica\u00e7\u00e3o nas pessoas, dirigindo informa\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para grupos espec\u00edficos. A linguagem deve ser simples e factual, mas incluir refer\u00eancias, estrat\u00e9gias, pr\u00e1ticas e a acontecimentos positivos (por exemplo, em vez de uma cobertura extensa sobre a morte de uma celebridade por COVID-19, relatar casos recuperados) que possam incentivar a confian\u00e7a e promover um sentimento de coopera\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O teletrabalho \u00e9 hoje uma ampla realidade. Que impacto pode ter na vida dos trabalhadores e das fam\u00edlias?&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>A crise pand\u00e9mica veio agravar a falta de equil\u00edbrio entre vida familiar e profissional, um problema j\u00e1 antes identificado. O teletrabalho n\u00e3o \u00e9 uma tend\u00eancia nova, mas a sua generaliza\u00e7\u00e3o quase instant\u00e2nea e a necessidade de conjuga\u00e7\u00e3o do trabalho com as tarefas dom\u00e9sticas, o apoio aos filhos e a assist\u00eancia aos mais velhos s\u00e3o circunst\u00e2ncias com riscos acrescidos para os trabalhadores, do ponto de vista f\u00edsico e psicol\u00f3gico. Mesmo em situa\u00e7\u00f5es ideais, existem desafios complexos para quem trabalha em casa \u2013 por exemplo, a sensa\u00e7\u00e3o de isolamento, a manuten\u00e7\u00e3o da motiva\u00e7\u00e3o, a gest\u00e3o do tempo, a dificuldade em desconectar. A pr\u00f3pria ilus\u00e3o de uma certa autonomia (por exemplo, na organiza\u00e7\u00e3o dos hor\u00e1rios) \u00e9 uma fal\u00e1cia: aquilo que a evid\u00eancia nos mostra \u00e9 que os trabalhadores tendem a trabalhar mais horas em trabalho remoto, e por isso, o hor\u00e1rio de trabalho estipulado facilmente resvala para uma esp\u00e9cie de disponibilidade cont\u00ednua que corresponde a uma invas\u00e3o do espa\u00e7o e do tempo privado, social, de lazer. Conhe\u00e7o v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es em que o trabalhador se manteve a trabalhar estando doente. Em suma, transportar o trabalho para o espa\u00e7o dom\u00e9stico pode agravar a exposi\u00e7\u00e3o a diversos riscos psicossociais, por exemplo, o presentismo ou o&nbsp;<em>burnout<\/em>.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A OMS oficializou o&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;como doen\u00e7a cr\u00f3nica em 2019. O&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;\u00e9 um dos grandes problemas da pandemia?<\/h2>\n\n\n\n<p>A evid\u00eancia cient\u00edfica demostra que o esgotamento emocional e psicol\u00f3gico tem um pre\u00e7o elevado, com impacto directo na sa\u00fade f\u00edsica e psicol\u00f3gica, no funcionamento individual e social e no desempenho profissional. A pandemia veio agravar o n\u00edvel de exig\u00eancia em que a actividade profissional \u00e9 desenvolvida, particularmente em sectores como a sa\u00fade ou a educa\u00e7\u00e3o, somando desafios pessoais complexos a factores de stress ocupacional pr\u00e9-existentes. Falo, por exemplo, na sensa\u00e7\u00e3o de isolamento, na sobrecarga de trabalho, na sensa\u00e7\u00e3o de ser ultrapassado pelas circunst\u00e2ncias, aliada a um sentimento de desamparo ou no reconhecimento insuficiente por parte de respons\u00e1veis e\/ou da comunidade. O bem-estar e a resili\u00eancia emocional dos profissionais de sa\u00fade e professores s\u00e3o componentes-chave da manuten\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os essenciais durante a pandemia, \u00e9 importante definir estrat\u00e9gias informadas pela evid\u00eancia cient\u00edfica para prevenir e intervir nos riscos psicossociais associados a estas actividades \u2013 por exemplo, aumentar a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;no trabalho, garantir a disponibilidade de apoio psicol\u00f3gico a estes profissionais, melhorar as pr\u00e1ticas e pol\u00edticas organizacionais enfatizando a preven\u00e7\u00e3o e tratamento do&nbsp;<em>burnout<\/em>&nbsp;e promover pr\u00e1ticas de aten\u00e7\u00e3o e autocuidado, ou seja, ac\u00e7\u00f5es de promo\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria sa\u00fade e bem-estar.<br>Isto inclui uma boa alimenta\u00e7\u00e3o e higiene de sono, reservar tempo para si e para a fam\u00edlia, n\u00e3o abdicar de atividades de lazer, etc.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A integra\u00e7\u00e3o social e o acesso ao emprego s\u00e3o fundamentais para o bem-estar. S\u00e3o adequadas as pol\u00edticas de sa\u00fade p\u00fablica para paliar os efeitos da pandemia?<\/h2>\n\n\n\n<p>A pandemia exacerbou os problemas da estrutura contempor\u00e2nea de trabalho. Fez disparar os n\u00fameros do desemprego e layoff em todo o mundo, com consequ\u00eancias directas nos rendimentos das fam\u00edlias, na capacidade de subsist\u00eancia, na sa\u00fade f\u00edsica e psicol\u00f3gica. Esta situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas terr\u00edvel para quem perde o trabalho, mas provoca uma enorme inseguran\u00e7a nos que o mant\u00e9m. Por exemplo, pessoas com trabalho prec\u00e1rio s\u00e3o particularmente vulner\u00e1veis a problemas econ\u00f3micos, menos capazes de lidar com o desemprego e mais propensos a perder seus empregos durante crises. O aumento da inseguran\u00e7a no emprego \u00e9 muito problem\u00e1tico. A pandemia veio destacar a precariedade das condi\u00e7\u00f5es de trabalho de muitos trabalhadores e expor ainda mais a desigualdade de um mercado de trabalho em que as pessoas com mais recursos s\u00e3o mais capazes de resistir a crises. Os trabalhadores mais vulner\u00e1veis s\u00e3o aqueles com menor capacidade de lidar com a perda do emprego e a doen\u00e7a. Muitos trabalhadores prec\u00e1rios n\u00e3o t\u00eam acesso a apoios governamentais ou organizacionais (por exemplo, seguro de sa\u00fade), embora sejam os mais expostos ao risco de stress cr\u00f3nico e a condi\u00e7\u00f5es de trabalho perigosas. Esta situa\u00e7\u00e3o conduz a taxas mais elevadas de problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica e f\u00edsica, que, por sua vez, aumentam a vulnerabilidade \u00e0 pr\u00f3pria COVID-19. \u00c9 fundamental examinar o que esta crise nos diz sobre o mercado de trabalho, investigar aspectos como a inseguran\u00e7a no trabalho ou o trabalho tempor\u00e1rio e desenvolver abordagens para diminuir o trabalho prec\u00e1rio.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A injusti\u00e7a social, a pobreza, o desemprego e a aus\u00eancia do Estado podem ser fatores de risco?<\/h2>\n\n\n\n<p>Todas as crises econ\u00f3micas s\u00e3o seguidas de um aumento da pobreza e das desigualdades, sendo sabido que o stress provocado pela vulnerabilidade econ\u00f3mica \u00e9 factor de alto risco para a sa\u00fade psicol\u00f3gica. A pobreza pode actuar como causa ou consequ\u00eancia, j\u00e1 que a ansiedade e depress\u00e3o se associam a um efeito de deriva social. Mas a COVID-19 faz distin\u00e7\u00f5es de classe, do ponto de vista da propaga\u00e7\u00e3o, das consequ\u00eancias e do estigma. As taxas de dissemina\u00e7\u00e3o s\u00e3o mais altas em contextos desfavorecidos, com consequ\u00eancias mais graves em grupos sociais minorit\u00e1rios ou socialmente estigmatizados. Idosos, pessoas com defici\u00eancia ou doen\u00e7a mental, popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, refugiados, migrantes, sem-abrigo e minorias \u00e9tnicas est\u00e3o entre os grupos de experienciam maior marginaliza\u00e7\u00e3o social e econ\u00f3mica. Est\u00e3o mais dependentes da economia informal, ocupam \u00e1reas e territ\u00f3rios desprotegidos, t\u00eam menor acesso a servi\u00e7os sociais e de sa\u00fade ou \u00e0 tecnologia e menores capacidades para lidar com as consequ\u00eancias da crise. Tamb\u00e9m em Portugal, a propaga\u00e7\u00e3o da COVID-19 acompanha o mapa das desigualdades. A pobreza ou a exclus\u00e3o social atinge mais de metade da popula\u00e7\u00e3o desempregada, para quem a aus\u00eancia de recursos financeiros se traduz em m\u00e1s condi\u00e7\u00f5es de alojamento, dificuldades de acesso a educa\u00e7\u00e3o e a cuidados de sa\u00fade, circunst\u00e2ncias agora agravadas pela pandemia. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que o ressurgimento de focos da doen\u00e7a se verifique nas periferias residenciais mais desfavorecidas das \u00e1reas metropolitanas, onde a aus\u00eancia de possibilidade de teletrabalho ou a necessidade de continuar a trabalhar para garantir a subsist\u00eancia obrigou a popula\u00e7\u00e3o a sujeitar-se a uma maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 infec\u00e7\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tem havido mais recurso a psic\u00f3logos?<\/h2>\n\n\n\n<p>Sim, sem surpresas, houve um claro aumento da procura por servi\u00e7os de psicologia durante a pandemia. Dados os constrangimentos actuais, muitos psicol\u00f3gicos adaptaram rapidamente as suas pr\u00e1ticas e passaram a disponibilizar servi\u00e7os online, o que permitiu que muitas pessoas mantivessem ou passassem a ter acompanhamento psicol\u00f3gico em momentos mais cr\u00edticos da pandemia. Existem orienta\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para a interven\u00e7\u00e3o em meio virtual. Mas infelizmente estamos longe de poder dizer que o apoio psicol\u00f3gico tem condi\u00e7\u00f5es para chegar a todos os que dele necessitam.&nbsp;<br><br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">E n\u00e3o devia haver um servi\u00e7o p\u00fablico maior de acompanhamento psicol\u00f3gico da popula\u00e7\u00e3o nas diferentes vertentes da vida?<\/h2>\n\n\n\n<p>Os efeitos psicol\u00f3gicos da pandemia v\u00e3o continuar a fazer-se sentir e a afectar cada vez mais pessoas. Mas lamentavelmente, apesar do aumento previs\u00edvel de problemas de sa\u00fade psicol\u00f3gica e do aumento da procura que j\u00e1 registamos, o n\u00famero de psic\u00f3logos no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade \u00e9 muito reduzido (menos de tr\u00eas psic\u00f3logos para cada 100 mil habitantes). \u00c9 evidente que os psic\u00f3logos, enquanto especialistas no comportamento humano, podem dar um enorme contributo, quer do ponto da preven\u00e7\u00e3o, quer da interven\u00e7\u00e3o ou ainda da difus\u00e3o da<strong> <\/strong>difus\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o fidedigna e da comunica\u00e7\u00e3o de comportamentos pr\u00f3-sociais e pr\u00f3-sa\u00fade. Entre outros benef\u00edcios, o acesso a servi\u00e7os e cuidados de sa\u00fade psicol\u00f3gica pode contribuir para o aumento da literacia em sa\u00fade psicol\u00f3gica, para a adop\u00e7\u00e3o de comportamentos e estilos de vida saud\u00e1veis, para a diminui\u00e7\u00e3o dos comportamentos de risco e das desigualdades em sa\u00fade e para o aumento da longevidade e da resili\u00eancia.&nbsp; O refor\u00e7o do n\u00famero de psic\u00f3logos no Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, se antes era altamente desej\u00e1vel, agora \u00e9 urgent\u00edssimo.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 psic\u00f3loga, especialista em psicologia cl\u00ednica e da sa\u00fade. Edite Queiroz trabalha na Ordem dos Psic\u00f3logos que, no contexto da pandemia, tem produzido documentos e informa\u00e7\u00f5es no sentido de apoiar a popula\u00e7\u00e3o e decisores na gest\u00e3o pr\u00e1tica dos diversos desafios associados \u00e0s consequ\u00eancias da doen\u00e7a, contribuindo para a promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade psicol\u00f3gica. H\u00e1 quem antecipe &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/12\/11\/vulnerabilidade-economica-e-factor-de-alto-risco-para-a-saude-psicologica\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">\u201cVulnerabilidade econ\u00f3mica \u00e9 factor de alto risco para a sa\u00fade psicol\u00f3gica\u201d<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":4101,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[44],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4100"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4164,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4100\/revisions\/4164"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4100"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4100"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4100"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4100"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}