{"id":4056,"date":"2020-11-30T15:54:38","date_gmt":"2020-11-30T15:54:38","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4056"},"modified":"2020-11-30T15:54:42","modified_gmt":"2020-11-30T15:54:42","slug":"gal-imortal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/11\/30\/gal-imortal\/","title":{"rendered":"Gal Imortal"},"content":{"rendered":"\n<p>O Sol jamais interrompe a sua rota\u00e7\u00e3o e marcamos por ela a passagem do tempo \u2013 a cada ano um anivers\u00e1rio, uma constata\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do caminho tra\u00e7ado quotidianamente na constru\u00e7\u00e3o do humano que somos. E como assim o \u00e9, inevitavelmente, para todos, tamb\u00e9m o foi para Gal Costa que contou neste ver\u00e3o com o finaliza\u00e7\u00e3o da 75\u00aa rota\u00e7\u00e3o na sua vida. Uma vida de riquezas muito particulares, disso, ningu\u00e9m poder\u00e1 duvidar.<\/p>\n\n\n\n<p>Maria das Gra\u00e7as surgiu no mundo a 26 de Setembro de 1945 em Salvador da Bahia. Trabalhava como balconista numa loja de discos quando conheceu Caetano Veloso em 1963. Esta amizade fez com que logo no ano seguinte participasse no espect\u00e1culo colectivo&nbsp;<em>N\u00f3s, Por exemplo<\/em>, n\u00e3o s\u00f3 ao lado de Caetano mas tamb\u00e9m de Gilberto Gil, Maria Beth\u00e2nia e Tom Z\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>Integrante incontorn\u00e1vel da&nbsp;<em>Tropic\u00e1lia&nbsp;<\/em>(ou movimento tropicalista), que surge sob a influ\u00eancia de v\u00e1rias correntes art\u00edsticas de vanguarda e da cultura&nbsp;<em>pop&nbsp;<\/em>brasileira e estrangeira (como o rock \u2018n\u2019 roll, o concretismo ou a antropofagia) e mesclava manifesta\u00e7\u00f5es tradicionais da cultura do pa\u00eds com inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas radicais. Apesar de ter feito da m\u00fasica o seu lugar de conforto, o movimento passou pelas artes pl\u00e1sticas (sobretudo na figura de H\u00e9lio Oiticica), pelo cinema (influenciando o&nbsp;<em>cinema novo&nbsp;<\/em>de Gl\u00e1uber Rocha) e pelo teatro (nas pe\u00e7as an\u00e1rquicas de Jos\u00e9 Celso Corr\u00eaa) e, pondo os pontos nos i\u2019s, serviu sobretudo para dizer o que&nbsp;<em>n\u00e3o se podia dizer&nbsp;<\/em>num confronto com a m\u00e3o pesada da ditadura militar.<\/p>\n\n\n\n<p>Reivindicativos da&nbsp;<em>possibilidade de dizer&nbsp;<\/em>e agitadores das fronteiras do impedimento gratuito e claustrof\u00f3bico, assim se formou uma&nbsp;<em>turma&nbsp;<\/em>de gente interessada em contribuir para a revers\u00e3o do cen\u00e1rio ditatorial. \u201cFaz\u00edamos da praia territ\u00f3rio livre para tomar \u00e1cidos e trepar o diabo. Convers\u00e1vamos ao som de Jimi Hendrix, Janis Joplin, Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd, \u00e9ramos desinquietos e desassossegados\u201d. Ao lado de Maria Beth\u00e2nia, Caetano Veloso e Gilberto Gil faz nascer os Doces B\u00e1rbaros que conhecem o seu fim com o ex\u00edlio de Gilberto e Caetano em Londres \u2013 ao qual Gal n\u00e3o se junta por n\u00e3o ter, afirmou, meios para subsistir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gal assumiu rapidamente um papel de liberta\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de um p\u00fablico maioritariamente jovem: umbigo de fora, p\u00e9s no ch\u00e3o, cantava a sua raiva, uma raiva da \u00e9poca. Trazia no corpo um di\u00e1logo constante entre uma louva\u00e7\u00e3o \u00e0 cultura popular brasileira e \u00e0 rebeldia que faz perguntas e espera do mundo respostas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Aplicou a sua combatividade sobretudo na liberta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica, no uso do corpo como manifesto. Cabelo solto e selvagem, batom vermelho, erotismo e alegria. Assumiu a dianteira de cruzar sem medo as ra\u00edzes brasileiras no feminino e as fronteiras da viv\u00eancia da sexualidade e da sensualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 70, marcada pelo encontro de um tom mais popular, Gal assume uma imagem mais brejeira e carnavalesca entre frevos e marchas, um&nbsp;<em>ax\u00e9&nbsp;<\/em>ainda assim muito pr\u00f3prio. Anos 80 preenchidos por baladas rom\u00e2nticas, ao lado de novos e incontorn\u00e1veis parceiros como Tim Maia; e um fecho de s\u00e9culo desinquieto, entre \u00e1lbuns como&nbsp;<em>O Sorriso do Gato de Alice&nbsp;<\/em>e um retorno \u00e0s suas origens bossa-novistas com um \u00e1lbum inteiramente dedicado ao repert\u00f3rio de Tom Jobim \u2013 que descreveu como \u201cuma reminisc\u00eancia da Gracinha, a menina baiana que decidiu ser cantora ao ouvir Jo\u00e3o Gilberto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Caetano Veloso descreveu a poderosa felina na s\u00e9rie&nbsp;<em>O nome dela \u00e9 Gal<\/em>&nbsp;enquanto um sopro de surpresa, \u201cum Jo\u00e3o Gilberto de saias\u201d. \u201cQuando pensamos em fazer uma coisa extrovertida, ela foi a mais extrovertida de todos \u2013 trata-se da presen\u00e7a feminina de palco mais transgressora e poderosa do Brasil\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Sol jamais interrompe a sua rota\u00e7\u00e3o e marcamos por ela a passagem do tempo \u2013 a cada ano um anivers\u00e1rio, uma constata\u00e7\u00e3o poss\u00edvel do caminho tra\u00e7ado quotidianamente na constru\u00e7\u00e3o do humano que somos. 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