{"id":4051,"date":"2020-11-28T12:51:41","date_gmt":"2020-11-28T12:51:41","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4051"},"modified":"2020-12-04T11:58:32","modified_gmt":"2020-12-04T11:58:32","slug":"da-utopia-a-ciencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/11\/28\/da-utopia-a-ciencia\/","title":{"rendered":"Da utopia \u00e0 ci\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<p>H\u00e1 duzentos anos nascia Friedrich Engels. Estudou o mundo, elaborou teoria, interveio nele na pr\u00e1tica. Foi um revolucion\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Engels foi um dos fundadores do comunismo cient\u00edfico. Juntamente com Marx, muniu o proletariado da arma te\u00f3rica para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Apesar de o nome Karl Marx ser popularmente mais conhecido, o facto \u00e9 que a obra (e a vida) de Marx \u00e9 insepar\u00e1vel da de Engels. Comentava L\u00e9nine que: \u00abAs lendas da Antiguidade contam exemplos comoventes de amizade. O proletariado da Europa pode dizer que a sua ci\u00eancia foi criada por dois s\u00e1bios, dois lutadores, cuja amizade ultrapassa tudo o que de mais comovente oferecem as lendas dos antigos\u00bb. A afinidade de ambos era completa. A obra \u00e9 comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o que faz o adjectivo&nbsp;<em>cient\u00edfico&nbsp;<\/em>\u00e0 frente de comunismo?<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos grandes contributos de Engels e de Marx foi a eleva\u00e7\u00e3o do sonho a projecto. As concep\u00e7\u00f5es utopistas que dominaram as ideias socialistas do s\u00e9culo XIX, nota Engels, queriam descobrir um sistema novo e mais perfeito de ordem social. Mas pretendiam implant\u00e1-lo na sociedade vindo de fora, por meio da propaganda. Nessas concep\u00e7\u00f5es, caracteriza Engels, \u201co socialismo \u00e9 a express\u00e3o da verdade, da raz\u00e3o e da justi\u00e7a absolutas, e basta que seja descoberto para que, pela sua pr\u00f3pria for\u00e7a, conquiste o mundo\u201d. Contudo, esses novos sistemas sociais, constata, \u201cestavam de antem\u00e3o condenados \u00e0 utopia; quanto mais elaborados nos seus pormenores, mais tinham de se perder na pura fantasmagoria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, aquilo que inicialmente era um desejo, pleno de ideias de justi\u00e7a e boas inten\u00e7\u00f5es, ganhava agora a for\u00e7a da possibilidade real. O ponto \u00e9 este: \u201cPara fazer do socialismo uma ci\u00eancia ele tinha primeiro de ser colocado sobre um terreno real\u201d. Para transformar o mundo, importava explicar o mundo atrav\u00e9s do pr\u00f3prio mundo. Isto \u00e9 uma concep\u00e7\u00e3o materialista.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, o materialismo tamb\u00e9m se revelava limitado, como mostrou Engels. Fruto da sua \u00e9poca, este era um materialismo mecanicista \u2013 o facto de a ci\u00eancia da natureza mais desenvolvida ser a mec\u00e2nica conduziu \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o do seu padr\u00e3o a dom\u00ednios como a qu\u00edmica ou a biologia, onde as leis mec\u00e2nicas valem certamente, mas n\u00e3o s\u00e3o determinantes \u2013 e anti-dial\u00e9ctico \u2013 isto \u00e9, incapaz de apreender a natureza e a hist\u00f3ria no seu desenvolvimento, enquanto processo. Era, pois, necess\u00e1rio elevar este materialismo a um materialismo dial\u00e9ctico. E aplic\u00e1-lo aos dom\u00ednios da natureza, da sociedade e do pensar. Marx e Engels abriram essa porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Se Marx desenvolveu sobretudo a teoria econ\u00f3mica, Engels analisa e desenvolve quest\u00f5es fundamentais da filosofia e das ci\u00eancias naturais e sociais. A Engels devemos a aplica\u00e7\u00e3o da dial\u00e9ctica materialista ao conhecimento das leis da natureza. Se n\u00e3o \u00e9 estranho dizer que o movimento revolucion\u00e1rio muito deve a Marx e a Engels, n\u00e3o \u00e9 certamente mentira a afirma\u00e7\u00e3o de que, com eles, a filosofia e a teoria do conhecimento cient\u00edfico se enriqueceram de forma indel\u00e9vel. E o interessante \u00e9 que estas s\u00e3o duas faces da mesma moeda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, foi precisamente porque partiram dessa posi\u00e7\u00e3o materialista e dial\u00e9ctica que puderam mostrar como o socialismo \u00e9 o resultado necess\u00e1rio do desenvolvimento das for\u00e7as produtivas e, consequentemente, fazer a cr\u00edtica do socialismo ut\u00f3pico demonstrando que (usando as palavras de L\u00e9nine) \u201cn\u00e3o s\u00e3o as tentativas bem intencionadas dos homens de cora\u00e7\u00e3o generoso que libertar\u00e3o a humanidade dos males que hoje a esmagam, mas a luta de classe do proletariado organizado\u201d. Foi Engels, ali\u00e1s, quem assinalou, pela primeira vez, o papel de vanguarda do proletariado, a partir do estudo da situa\u00e7\u00e3o da classe oper\u00e1ria em Inglaterra. Como resume L\u00e9nine, \u201cEngels foi o&nbsp;<em>primeiro&nbsp;<\/em>a declarar que o proletariado&nbsp;<em>n\u00e3o \u00e9 s\u00f3&nbsp;<\/em>uma classe que sofre, mas que a miser\u00e1vel situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica em que se encontra empurra-o irresistivelmente para a frente e obriga-o a lutar pela sua emancipa\u00e7\u00e3o definitiva. E o proletariado em luta&nbsp;<em>ajudar-se-\u00e1 a si mesmo.&nbsp;<\/em>O movimento pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria levar\u00e1, inevitavelmente, os oper\u00e1rios \u00e0 consci\u00eancia de que n\u00e3o h\u00e1 para eles outra sa\u00edda sen\u00e3o o socialismo. Por seu lado, o socialismo s\u00f3 ser\u00e1 uma for\u00e7a quando se tornar o objectivo da luta&nbsp;<em>pol\u00edtica&nbsp;<\/em>da&nbsp;<em>classe&nbsp;<\/em>oper\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Sucede que, para descobrir as vias reais para o socialismo, era necess\u00e1rio estudar a sociedade \u2013 naquilo que ela&nbsp;<em>\u00e9<\/em>&nbsp;\u2013 e descobrir as suas leis de desenvolvimento \u2013 prevendo, nos tra\u00e7os gerais, aquilo que ela&nbsp;<em>devir\u00e1 \u2013&nbsp;<\/em>para que, identificando as contradi\u00e7\u00f5es e as for\u00e7as motrizes, estas \u00faltimas melhor saibam conduzir a luta em que est\u00e3o inseridas, quer queiram, quer n\u00e3o. Recorrendo a uma ideia hegeliana, trata-se de conhecer a necessidade. A liberdade, escreve Engels, \u201cn\u00e3o reside na independ\u00eancia sonhada relativamente \u00e0s leis da Natureza, mas no conhecimento dessas leis, e na possibilidade, com ele dada, de planificadamente as fazer operar para determinadas finalidades. Isto vale tanto por refer\u00eancia \u00e0s leis da Natureza exterior, como \u00e0quelas que regulam a exist\u00eancia corp\u00f3rea e espiritual do pr\u00f3prio ser humano: duas classes de leis que n\u00f3s, no m\u00e1ximo, podemos separar, uma da outra, na representa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o na realidade [efectiva]\u201d. Isto \u00e9, pois, v\u00e1lido quer para o dom\u00ednio da natureza, quer para o dom\u00ednio da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ora, uma penetra\u00e7\u00e3o cient\u00edfica nos dom\u00ednios do ser natural ou social requer uma transposi\u00e7\u00e3o do n\u00edvel fenom\u00e9nico da realidade, bem distinta de uma abordagem positivista ou empirista, marcada pelo mero registo e ordena\u00e7\u00e3o do que aparece imediata e positivamente. Pois, como diz Marx, a ci\u00eancia \u201cseria sup\u00e9rflua se a forma fenom\u00e9nica e a ess\u00eancia das coisas coincidissem imediatamente\u201d. A quest\u00e3o est\u00e1 em captar a \u201cconex\u00e3o interna\u201d dos fen\u00f3menos, o seu \u201cv\u00ednculo interior\u201d. Trata-se de captar o processo (no qual o fen\u00f3meno corresponde apenas a uma etapa) cujo movimento se determina na resolu\u00e7\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es. Como diz Engels: \u201cuma exposi\u00e7\u00e3o exacta do sistema do mundo, do desenvolvimento dele e do [desenvolvimento] da humanidade \u2013 bem como da imagem especular deste desenvolvimento nas cabe\u00e7as dos seres humanos \u2013, apenas pode, portanto, ser posta de p\u00e9 por um caminho dial\u00e9ctico\u201d, o que significa atender \u00e0s \u201cuniversais ac\u00e7\u00f5es rec\u00edprocas\u201d. A ci\u00eancia \u00e9 tribut\u00e1ria de uma filosofia materialista dial\u00e9ctica.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, tomando o ser social, uma correcta&nbsp;<em>ac\u00e7\u00e3o<\/em>&nbsp;pol\u00edtica dirigida \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria n\u00e3o pode ser correctamente dirigida se n\u00e3o partir de uma abordagem materialista e dial\u00e9ctica com a qual se compreenda e domine os processos&nbsp;<em>objectivos&nbsp;<\/em>nas quais as diferentes for\u00e7as est\u00e3o inseridas. Aqui reside a unidade de teoria e pr\u00e1tica. Isto \u00e9 muito diferente de navegar \u00e0 vista, tomando apenas o imediato. Tamb\u00e9m \u00e9 muito diferente de substituir possibilidades objectivas por desejos e utopias bem intencionados. Escusado ser\u00e1 dizer que uma teoria que parta de tal abordagem necessariamente se actualiza e transforma com o pr\u00f3prio mundo em transforma\u00e7\u00e3o e o com o desenvolvimento da ci\u00eancia da \u00e9poca em que se insere. Por aqui se v\u00ea como um movimento que se queira revolucion\u00e1rio, de facto, reclama uma abordagem cient\u00edfica. Trabalhosa \u00e9 certo. Como diz Marx: \u201cN\u00e3o h\u00e1 estrada real para a ci\u00eancia e s\u00f3 t\u00eam possibilidade de chegar aos seus cumes luminosos aqueles que n\u00e3o temem fatigar-se a escalar as suas veredas escarpadas\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 duzentos anos nascia Friedrich Engels. Estudou o mundo, elaborou teoria, interveio nele na pr\u00e1tica. Foi um revolucion\u00e1rio. 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