{"id":4007,"date":"2020-10-30T14:43:51","date_gmt":"2020-10-30T14:43:51","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4007"},"modified":"2020-12-09T10:57:07","modified_gmt":"2020-12-09T10:57:07","slug":"um-jazz-que-seja-nosso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/10\/30\/um-jazz-que-seja-nosso\/","title":{"rendered":"Um Jazz que seja nosso"},"content":{"rendered":"\n<p>Ao longo do \u00faltimo ano, temos ouvido in\u00fameros relatos de trabalhadores que, privados do seu trabalho e do seu sal\u00e1rio, est\u00e3o a passar por um dos per\u00edodos mais dram\u00e1ticos das suas vidas. Entre esses trabalhadores encontra-se um grupo muito particular que viu a sua atividade ser suspensa indefinidamente por imposi\u00e7\u00e3o legal ou por impossibilidade de realiza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que a despesa ultrapassa o retorno financeiro. Os trabalhadores da cultura, em novembro de 2020, s\u00e3o ainda uns dos mais castigados e um s\u00edmbolo da crise que cada vez mais se evidencia no nosso quotidiano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No passado m\u00eas de outubro, usando o fundo social de emerg\u00eancia criado pela C\u00e2mara Municipal de Lisboa para o apoio \u00e0 cultura, A Voz do Oper\u00e1rio, depois de um desafio da Clave na M\u00e3o (uma pequena e recente ag\u00eancia de artistas e, pelos vistos, uma bel\u00edssima programadora de espet\u00e1culos), abriu as portas para o seu primeiro festival de Jazz \u2013 \u201cO Jazz Tem Voz\u201d. Ao longo de tr\u00eas dias, todo o recinto da Sociedade foi ocupado por um estilo que tantas vezes se divorcia da cultura popular, mas cuja g\u00e9nese est\u00e1, precisamente, no povo e nas classes mais exploradas. O Jazz \u00e9 tanto dos bares burgueses das grandes metr\u00f3poles mundiais, como \u00e9 dos desfiles carnavalescos ou f\u00fanebres de New Orleans, dos seus artistas de rua e dos seus m\u00fasicos vadios, das coletividades dos bairros populares e dos concertos de massas.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas \u00e9 claro que o Jazz tem uma identidade associada ao seu pa\u00eds de origem \u2013 os Estados Unidos da Am\u00e9rica \u2013 , n\u00e3o obstante a sua natureza ser transatl\u00e2ntica e ter passado nos navios negreiros, com os escravos vindos da costa de \u00c1frica, que j\u00e1 haviam desenvolvido t\u00e9cnicas evoluid\u00edssimas de polirritmia e polifonia. A sua evolu\u00e7\u00e3o nos EUA acabou por seguir a via da elitiza\u00e7\u00e3o, afastando-se, muitas vezes, das suas lutas iniciais e aburguesando-se nos grandes sal\u00f5es e audit\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 h\u00e1 poucas d\u00e9cadas, o Jazz em Portugal era, por isso, uma tentativa de replicar os m\u00fasicos mais reputados do Jazz americano. Por\u00e9m, desde os anos de 1980, essa realidade tem-se alterado e o Jazz portugu\u00eas tem hoje tonalidades atl\u00e2nticas e mediterr\u00e2nicas que lhe d\u00e3o a sua pr\u00f3pria identidade. Foi isto que a programa\u00e7\u00e3o da Clave na M\u00e3o para O Jazz Tem Voz procurou trazer \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio \u2013 um Jazz que seja nosso. E foi assim que o festival abriu, com o Sexteto de Bernardo Moreira, um m\u00fasico de exce\u00e7\u00e3o que apresentou um trabalho muito s\u00e9rio (Entre Paredes), onde o Jazz se mistura com a m\u00fasica tradicional portuguesa de forma t\u00e3o natural e mel\u00edflua que se torna f\u00e1cil sentirmos a m\u00fasica como nossa, da nossa rua, do nosso bairro, da nossa mem\u00f3ria. Este Jazz com cheiro a Tejo ou a seara \u00e9, tamb\u00e9m, uma porta para romper com uma ideia de erudi\u00e7\u00e3o intang\u00edvel que muitas vezes nos \u00e9 vendida e que nos afasta do prazer da descoberta.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 preciso referir que este festival n\u00e3o se limitou a ter tr\u00eas concertos, em tr\u00eas noites, e arriscou num formato de esclarecimento com um debate integrando tamb\u00e9m uma atividade com o envolvimento de dezenas de crian\u00e7as da escola da Gra\u00e7a d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, na produ\u00e7\u00e3o de ilustra\u00e7\u00f5es e frases sobre o Jazz. E h\u00e1 nessas frases e nessas ilustra\u00e7\u00f5es mais verdade do que em muitas cr\u00edticas que at\u00e9 hoje j\u00e1 se escreveram, porque o Jazz tem um cheiro, tem um sabor, tem uma cor e todos esses sentidos s\u00e3o despertados em n\u00f3s de formas t\u00e3o distintas que nos revelam at\u00e9 o improviso do nosso ser.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez tenha sido esse o papel de C\u00e9sar Cardoso, que para al\u00e9m de ser um saxofonista com uma criatividade invulgar, \u00e9 tamb\u00e9m um te\u00f3rico do Jazz que muito tem tentado desmistificar essa tal erudi\u00e7\u00e3o, trazendo o Jazz \u00e0 terra a partir das nossas experi\u00eancias individuais e coletivas, transportando essas experi\u00eancias para os instrumentos ou recolhendo de cada instrumento uma possibilidade de interpretarmos ou sentirmos o mundo \u00e0 nossa volta, num di\u00e1logo constante.<\/p>\n\n\n\n<p>Antes, na tarde de s\u00e1bado, no Largo de Santa Marinha, Quang Ny Lys, o projeto de Maria Rita, Jo\u00e3o Mort\u00e1gua e Man\u00e9 Fernandes revisitou alguns dos standards (composi\u00e7\u00f5es ic\u00f3nicas da hist\u00f3ria do jazz) com uma abordagem n\u00e3o-convencional, envolvendo com roupagens contempor\u00e2neas, num recurso \u00e0 guitarra e ao saxofone, o som mais tradicional do Jazz.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra iniciativa de grande import\u00e2ncia foi assegurar momentos de partilha familiar ao longo do fim-de-semana, onde as crian\u00e7as puderam encontrar um registo que hoje j\u00e1 n\u00e3o lhes chega de forma t\u00e3o direta. Lembremos que houve tempos em que os gen\u00e9ricos dos desenhos animados eram temas de Jazz: a Pantera Cor-de-Rosa, os Flinstones, o Top Cat, o Batman, o Homem-Aranha, os Simpsons, entre tantos outros. A rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com a m\u00fasica tamb\u00e9m come\u00e7ava na cultura de massas, atrav\u00e9s da televis\u00e3o, sem as infantilizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, tamb\u00e9m os adultos gostam de sentir uma rela\u00e7\u00e3o com a m\u00fasica popular que ouvem habitualmente. Compreender a estrutura da m\u00fasica que ouvimos tantas vezes na r\u00e1dio ou nos bares atrav\u00e9s dos di\u00e1logos com estilos mais aplicados nessa arquitetura da m\u00fasica torna-se numa experi\u00eancia muito importante para n\u00f3s, porque nos devolve a liga\u00e7\u00e3o a cada elemento do mundo, a cada som, a cada peda\u00e7o de ch\u00e3o e de c\u00e9u. O papel do m\u00fasico de Jazz \u00e9, muitas vezes, construir esse di\u00e1logo, sem tentar ser o tipo mais inteligente da sala.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi isto que nos trouxe o projeto Songbird: um report\u00f3rio de can\u00e7\u00f5es que conhecemos de todos os dias, cl\u00e1ssicos da m\u00fasica popular, bandas sonoras de filmes ou de outras mem\u00f3rias, tocadas de forma simples e \u00edntima ao piano e no contrabaixo. A dupla Lu\u00eds Figueiredo \/ Jo\u00e3o Hasselberg fez as honras de encerramento de O Jazz Tem Voz com a ternura que se pede ao fim da tarde de domingo.<\/p>\n\n\n\n<p>E fica uma nota final, fundamental neste tempo que vivemos: este festival foi de uma organiza\u00e7\u00e3o irrepreens\u00edvel, transmitindo um grande profissionalismo e seguran\u00e7a a todos os que o visitaram. Foi, tamb\u00e9m, uma das v\u00e1rias iniciativas que se come\u00e7am a realizar e para as quais as coletividades t\u00eam hoje uma import\u00e2ncia central, porque \u00e9 este o modo das comunidades fazerem a sua pr\u00f3pria cultura sem depend\u00eancias externas que condicionam as suas prefer\u00eancias e limitam os seus horizontes. \u00c9 este o caminho para garantir trabalho a todos os trabalhadores da cultura, dos t\u00e9cnicos aos m\u00fasicos. \u00c9 disto que precisamos: acesso e unidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo do \u00faltimo ano, temos ouvido in\u00fameros relatos de trabalhadores que, privados do seu trabalho e do seu sal\u00e1rio, est\u00e3o a passar por um dos per\u00edodos mais dram\u00e1ticos das suas vidas. Entre esses trabalhadores encontra-se um grupo muito particular que viu a sua atividade ser suspensa indefinidamente por imposi\u00e7\u00e3o legal ou por impossibilidade de &hellip; <a href=\"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/10\/30\/um-jazz-que-seja-nosso\/\" class=\"more-link\">Continue reading <span class=\"screen-reader-text\">Um Jazz que seja nosso<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":4008,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[92],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4007"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4007"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4007\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4091,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4007\/revisions\/4091"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/4008"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4007"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4007"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4007"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=4007"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}