{"id":4003,"date":"2020-10-30T14:39:53","date_gmt":"2020-10-30T14:39:53","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=4003"},"modified":"2020-10-30T14:39:56","modified_gmt":"2020-10-30T14:39:56","slug":"joao-maria-dos-anjos-um-expoente-do-fado-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/10\/30\/joao-maria-dos-anjos-um-expoente-do-fado-operario\/","title":{"rendered":"Jo\u00e3o Maria dos Anjos, um expoente do fado oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>No primeiro quartel do s\u00e9culo XX, floresceu em Lisboa o fado oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Cronologicamente, coincidiu em grande medida com a 1\u00aa Rep\u00fablica, mas ser\u00e1 um equ\u00edvoco cham\u00e1-lo \u201cfado republicano\u201d, pois na sua express\u00e3o pol\u00edtica assumiu uma identidade de classe e um conte\u00fado ideol\u00f3gico claramente distintos e distantes desse regime.<\/p>\n\n\n\n<p>A biografia do fadista Jo\u00e3o Maria dos Anjos ser\u00e1 uma boa janela de observa\u00e7\u00e3o para essa hist\u00f3ria. Nasceu em 1891, em Lisboa, e faleceu em 1956. Aos 15 anos de idade tornou-se oper\u00e1rio nas oficinas da Imprensa Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Imprensa Nacional de Lisboa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ali trabalharam figuras como Jos\u00e9 Nobre Fran\u00e7a (tradutor da primeira edi\u00e7\u00e3o portuguesa do&nbsp;<em>Manifesto Comunista<\/em>&nbsp;de Marx e Engels, em 1873), Francisco Cristo e Raul Neves Dias (dois dos principais fundadores do jornal&nbsp;<em>A Batalha<\/em>, em 1919) ou Jos\u00e9 Maria Gon\u00e7alves (um dos primeiros dirigentes do Partido Comunista Portugu\u00eas, em 1921).<\/p>\n\n\n\n<p>O antigo movimento sindical e oper\u00e1rio teve uma importante vertente cultural, particularmente no teatro amador, e com muitos militantes a dedicarem-se \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 poesia e a associa\u00e7\u00f5es populares de cariz cultural e recreativo \u2013 al\u00e9m de fundarem escolas.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m neste campo se salientaram oper\u00e1rios da Imprensa Nacional, nomes como Ernesto da Silva (dramaturgo, autor de uma pe\u00e7a intitulada&nbsp;<em>O Capital<\/em>), Norberto de Ara\u00fajo (que se tornou um prestigiado jornalista e historiador de Lisboa) ou Manuel Petronila (guitarrista de fado, presidente da Sociedade Filarm\u00f3nica\u201cAlunos de Apolo\u201d e cunhado de Jo\u00e3o Maria dos Anjos).<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto se desenvolveu o fado oper\u00e1rio. Como divertimento, como meio para expressar sentimentos e desabafos, e tamb\u00e9m como \u201cum meio excelente de propaganda para os grandes e nobres ideais\u201d, como diria o destacado anarco-sindicalista Artur In\u00eas [<em>Guitarra de Portugal<\/em>, 06\/05\/1924, p.1]<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de festas e conv\u00edvios na cidade, de passeios e piqueniques pelas hortas que rodeavam Lisboa, o fado oper\u00e1rio animou tamb\u00e9m iniciativas sindicais e pol\u00edticas. E teve um epicentro aqui, n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Voz do Oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio teve um papel muito importante desde logo com o seu jornal: foi a vanguarda na defesa do valor cultural do fado, nomeadamente com os artigos do principal porta-voz dessa causa: Avelino de Sousa. Publicou al\u00e9m disso muitas poesias e letras de alguns dos mais salientes autores, com destaque para dois que at\u00e9 trabalhavam n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio: Jo\u00e3o Black (como tip\u00f3grafo e bibliotec\u00e1rio) e Augusto de Sousa (que chefiou a tipografia). Aqui se abriu caminho para que se desenvolvesse a imprensa especializada de fado. Depois, o edif\u00edcio sede tornou-se um espa\u00e7o privilegiado para espet\u00e1culos.<\/p>\n\n\n\n<p>Neste contexto se afirmou Jo\u00e3o Maria dos Anjos como cantador, que tamb\u00e9m era autor das letras de muitos dos fados a que deu voz. Foi um fadista amador. A sua vida era o seu trabalho na Imprensa Nacional. Mas o seu valor ficou reconhecido, por exemplo, nas Festas do Fado que se realizaram no Teatro S. Lu\u00eds (em 1924 e 1925), onde partilhou o palco com Alfredo Marceneiro e Ant\u00f3nio Botto (este poeta tamb\u00e9m cantava o fado). Em 1948, uma homenagem realizada no Sal\u00e3o J\u00falia Mendes, do Parque Mayer, consagrou Jo\u00e3o Maria dos Anjos como \u201cum dos mais antigos e representativos cantadores de fado\u201d. [<em>Rep\u00fablica<\/em>, 18\/04\/1948, p.2]<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Partido Socialista Portugu\u00eas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Focando o seu lado de \u2018cantador de interven\u00e7\u00e3o\u2019, Jo\u00e3o Maria dos Anjos esteve ligado ao antigo Partido Socialista Portugu\u00eas, de cariz oper\u00e1rio e marxista. Foi tamb\u00e9m esse o caso, entre outros, dos j\u00e1 referidos Manuel Petrolina, Avelino de Sousa, Jo\u00e3o Black e Augusto de Sousa.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo ilustrativo ser\u00e1 uma festa-conv\u00edvio que se realizou numa casa de pasto dos Olivais, em 1916. Foi presidida pelo ent\u00e3o redator de\u00a0<em>A Voz do Oper\u00e1rio<\/em>, Jos\u00e9 Fernandes Alves. A\u00ed cantou Jo\u00e3o Maria dos Anjos o fado (com letra de Augusto de Sousa) que acompanha este artigo. Longe de ser dos mais radicais, mostra um pouco da identidade (da classe trabalhadora) e do conte\u00fado ideol\u00f3gico (de cariz socialista) que distinguem o Fado Oper\u00e1rio face \u00e0 1\u00aa Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Socializar as riquezas<br>ci\u00eancias e autoridades<br>s\u00e3o belas aspira\u00e7\u00f5es<br>da futura sociedade<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>A burguesia que sente<br>crescer a onda macabra<br>for\u00e7a o Estado a que n\u00e3o abra<br>o dique \u00e0 torva corrente.<br>E o Estado, ent\u00e3o, conivente<\/em><br><em>nessas e noutras torpezas,<\/em><br><em>fere as classes indefesas,<\/em><br><em>que o Capital escraviza,<br>porque arvoram a divisa:<br>socializar as riquezas.<br><br>Quando Mois\u00e9s, no Egito,<br>chama os homens \u00e0 revolta,<br>no l\u00e1baro que ao vento solta,<\/em><br><em>traz esse dilema inscrito,<\/em><br><em>j\u00e1 Plat\u00e3o, com o mesmo fito,<\/em><br><em>frizou dos bens a igualdade,<\/em><br><em>e assim, desde a antiguidade,<\/em><br><em>o oper\u00e1rio lutado tem<\/em><br><em>para socializar tamb\u00e9m<\/em><br><em>Ci\u00eancias e Autoridade.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em>E acabar com os preconceitos,<\/em><br><em>vergonhosos precip\u00edcios,<br>fonte de todos os v\u00edcios,<br>mis\u00e9rias e mais defeitos.<br>Fixados iguais direitos<br>e deveres \u00e0s gera\u00e7\u00f5es,<br>querer depois que as conven\u00e7\u00f5es<br>impostas pelo despotismo<br>cedam passo ao Socialismo&#8230;<br>S\u00e3o belas aspira\u00e7\u00f5es.<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p><em>Mas a conce\u00e7\u00e3o pasmosa<br>dos s\u00e1bios positivistas<br>veio indicar aos artistas,<br>a revolu\u00e7\u00e3o silenciosa.<br>Se a guerra foi desastrosa<br>nos tempos da crueldade<br>hoje que a ci\u00eancia invade<br>os prolet\u00e1rios redutos,<br>h\u00e3o-de em paz colher os frutos<br>da Futura Sociedade.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No primeiro quartel do s\u00e9culo XX, floresceu em Lisboa o fado oper\u00e1rio. Cronologicamente, coincidiu em grande medida com a 1\u00aa Rep\u00fablica, mas ser\u00e1 um equ\u00edvoco cham\u00e1-lo \u201cfado republicano\u201d, pois na sua express\u00e3o pol\u00edtica assumiu uma identidade de classe e um conte\u00fado ideol\u00f3gico claramente distintos e distantes desse regime. 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