{"id":3972,"date":"2020-10-15T15:56:07","date_gmt":"2020-10-15T15:56:07","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3972"},"modified":"2020-10-30T14:23:53","modified_gmt":"2020-10-30T14:23:53","slug":"ser-de-esquerda-na-colombia-e-viver-debaixo-da-sombra-de-um-caixao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/10\/15\/ser-de-esquerda-na-colombia-e-viver-debaixo-da-sombra-de-um-caixao\/","title":{"rendered":"Ser de esquerda na Col\u00f4mbia \u00e9 \u201cviver debaixo da sombra de um caix\u00e3o\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>O assassinato policial de um cidad\u00e3o comum, depois de receber v\u00e1rias descargas de uma pistola el\u00e9trica e de ser torturado numa esquadra, serviu de rastilho para violentos dist\u00farbios em Bogot\u00e1 e outras cidades da Col\u00f4mbia. Foi a en\u00e9sima revolta popular num pa\u00eds fustigado por uma viol\u00eancia praticamente centen\u00e1ria. Durante os protestos, no princ\u00edpio de setembro, as autoridades colombianas mataram 14 manifestantes. <\/p>\n\n\n\n<p>A Col\u00f4mbia \u00e9 o principal aliado dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina, facto que ajudar\u00e1 a compreender  por que motivo nunca \u00e9 objeto de cr\u00edticas por parte do Ocidente, apesar do hist\u00f3rico de terror: durante anos, encabe\u00e7ou a lista de pa\u00edses com maior n\u00famero de assassinato de sindicalistas e jornalistas e continua \u00e0 frente das na\u00e7\u00f5es com mais refugiados internos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Orgia de viol\u00eancia<\/h2>\n\n\n\n<p>Desde o massacre das bananeiras, promovido contra grevistas em 1928 \u2014 epis\u00f3dio referido em Cem Anos de Solid\u00e3o, obra maestra de Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez \u2014 ao assassinato do antigo candidato presidencial liberal, Jorge Eli\u00e9cer Gait\u00e1n, a Col\u00f4mbia insurge-se ciclicamente contra o despotismo e a viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos por parte da pol\u00edcia e do ex\u00e9rcito a mando de governos das oligarquias. Nas \u00faltimas semanas, numa orgia de viol\u00eancia, foram registados v\u00e1rios massacres por todo o pa\u00eds contra a popula\u00e7\u00e3o e ativistas sociais, por parte de grupos paramilitares, perante a apatia do governo de Iv\u00e1n Duque. <br><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGuerrilheiros mataremos, o seu sangue beberemos, as suas mulheres violaremos e os seus filhos queimaremos\u201d, assim obrigavam Omar Rojas Bola\u00f1os e outros recrutas a cantar quando corriam na escola militar. Durante uma entrevista, em junho de 2019, este explicou que, durante 31 anos, trabalhou na Pol\u00edcia Nacional, um corpo policial militar do qual se reformou com o grau de tenente coronel. \u00c9 um dos poucos a denunciar aquilo que ficou conhecido como \u2018falsos positivos\u2019, assassinatos extrajudiciais como o que aconteceu no ano passado com Dimar Torres Ar\u00e9valo, ex-guerrilheiro das FARC, baleado pelo ex\u00e9rcito, que ter\u00e1 sido surpreendido pela popula\u00e7\u00e3o a tentar enterrar o corpo. Posteriormente, a Semana, uma das principais revistas colombianas, viria a denunciar que os soldados tinham antes pretendido vestir Dimar Torres com o uniforme do Ex\u00e9rcito de Liberta\u00e7\u00e3o Nacional, atualmente a maior guerrilha colombiana, para fazer dele um trof\u00e9u de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p>A pr\u00e1tica dos \u2018falsos positivos\u2019 \u00e9 antiga e intensificou-se com o governo do conservador \u00c1lvaro Uribe V\u00e9lez, mentor do atual presidente Iv\u00e1n Duque, que est\u00e1 em pris\u00e3o domicili\u00e1ria por ter tentado corromper testemunhas contra o destacado senador de esquerda Iv\u00e1n Cepeda, filho do hist\u00f3rico comunista assassinado, Manuel Cepeda.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante os dois mandatos de Uribe, entre 2002 e 2010, milhares de civis foram executados em segredo para serem apresentados como vit\u00f3rias sobre as guerrilhas. O esc\u00e2ndalo rebentou quando v\u00e1rios familiares de civis denunciaram esta pr\u00e1tica.. Descobriu-se ent\u00e3o que as for\u00e7as armadas premiavam os soldados que mais baixas conseguissem em combate, \u201cincentivo\u201d que espoletou os falsos positivos. V\u00e1rios relatos da \u00e9poca na imprensa denunciaram que muitos dos assassinados eram jovens de bairros pobres, aliciados para supostas entrevistas de emprego das quais nunca voltavam. Os corpos vinham a ser \u201cencontrados\u201d noutras zonas da Col\u00f4mbia como sendo guerrilheiros abatidos.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com n\u00fameros divulgados pelo El Pa\u00eds, 8 mil colombianos ter\u00e3o sido assassinados, sobretudo, nesse per\u00edodo. O jornal espanhol afirma que os dados s\u00e3o \u201cespecialmente incr\u00edveis\u201d se comparados com o n\u00famero de assassinatos e desaparecidos durante a ditadura de Pinochet. No Chile, num per\u00edodo de 17 anos, foram executadas 3200 pessoas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Onde ser opositor \u00e9 desafiar a morte <\/h2>\n\n\n\n<p>Foi precisamente durante a presid\u00eancia de \u00c1lvaro Uribe que Alexandra Rochi, ex-guerrilheira, se tornou combatente das FARC. Era muito jovem quando fugiu com os pais para San Vicente del Cagu\u00e1n dos paramilitares, ex\u00e9rcitos para-estatais de extrema-direita com profundas liga\u00e7\u00f5es ao Estado e aos narcotraficantes. Ali foram recebidos e protegidos pelo comandante Mono Jojoy. Anos mais tarde, como contou \u00e0 Voz do Oper\u00e1rio, Alexandra decidiu tornar-se guerrilheira. \u201cNingu\u00e9m nasce com genes de guerra mas \u00e0s vezes h\u00e1 situa\u00e7\u00f5es que te obrigam a pegar em armas. Eu sou vallecaucana, do ocidente do pa\u00eds, e quando era crian\u00e7a at\u00e9 queria ser pol\u00edcia\u201d, recordou. Mas a ex-guerrilheira diz que a \u201cdemocracia colombiana\u201d \u00e9 sustentada \u201cpela oligarquia de sempre\u201d e que ser de esquerda naquele pa\u00eds significa \u201candar sempre debaixo da sombra de um caix\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos \u2018falsos positivos\u2019, t\u00eam sido assassinadas centenas de ativistas pol\u00edticos e ex-guerrilheiros que confiaram nos acordos de paz assinados em Havana entre as FARC e o governo colombiano. S\u00f3 este ano, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e para a Paz (Indepaz) j\u00e1 contabilizou 230 mortos, praticamente um por dia, e, desde 2016, j\u00e1 foram assassinados 228 ex-guerrilheiros das FARC. Mulheres e homens que confiaram num Estado que prometeu proteg\u00ea-los e acabar com a persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o n\u00fameros que provocam arrepios e que fizeram j\u00e1 com que muitos ex-combatentes das FARC se reorganizassem e se escondessem nas montanhas e selvas do pa\u00eds. Em poucos anos, regressam os tempos de chumbo em que ser de esquerda, para outros, significa escolher o caminho do ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o El Pa\u00eds, 8 mil colombianos ter\u00e3o sido assassinados nos \u00faltimas duas d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O assassinato policial de um cidad\u00e3o comum, depois de receber v\u00e1rias descargas de uma pistola el\u00e9trica e de ser torturado numa esquadra, serviu de rastilho para violentos dist\u00farbios em Bogot\u00e1 e outras cidades da Col\u00f4mbia. Foi a en\u00e9sima revolta popular num pa\u00eds fustigado por uma viol\u00eancia praticamente centen\u00e1ria. 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