{"id":3879,"date":"2020-09-02T11:37:09","date_gmt":"2020-09-02T11:37:09","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3879"},"modified":"2020-09-02T11:37:12","modified_gmt":"2020-09-02T11:37:12","slug":"o-sindicalista-mario-castelhano-foi-assassinado-ha-80-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/09\/02\/o-sindicalista-mario-castelhano-foi-assassinado-ha-80-anos\/","title":{"rendered":"O sindicalista M\u00e1rio Castelhano foi assassinado h\u00e1 80 anos"},"content":{"rendered":"\n<p>M\u00e1rio Castelhano salientou-se como um dos mais destacados sindicalistas portugueses na d\u00e9cada de 1920, primeiro como dirigente da federa\u00e7\u00e3o de trabalhadores ferrovi\u00e1rios e depois como secret\u00e1rio-geral da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT) e diretor do seu jornal di\u00e1rio,&nbsp;A Batalha.<\/p>\n\n\n\n<p>Veio a ditadura, e, a partir de 1927, Castelhano viveu sempre clandestino, deportado ou preso. At\u00e9 morrer no campo de concentra\u00e7\u00e3o do Tarrafal, em Cabo Verde, a 12 de Outubro de 1940 \u2013 quando apenas tinha 44 anos de idade.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi um dos principais opositores assassinados pela ditadura de Salazar, a par do general Humberto Delgado e de Bento Gon\u00e7alves, secret\u00e1rio-geral do Partido Comunista Portugu\u00eas.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Campo de concentra\u00e7\u00e3o?<\/h2>\n\n\n\n<p>No 9\u00ba volume do&nbsp;Dicion\u00e1rio de Hist\u00f3ria de Portugal, coordenado por Ant\u00f3nio Barreto e Maria Filomena M\u00f3nica, escolheu-se designar o Tarrafal pelo nome oficial que a ditadura lhe atribuiu: \u201ccol\u00f3nia penal\u201d. E, num tom de suposta objetividade acad\u00e9mica, questiona-se a sua designa\u00e7\u00e3o de \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d como sendo coisa da oposi\u00e7\u00e3o e da \u201cpropaganda anti-regime\u201d, com o intento de \u201ctirar partido\u201d da \u201cconota\u00e7\u00e3o com os campos de exterm\u00ednio nazis, apesar da despropor\u00e7\u00e3o abismal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Foi Salazar quem disse!<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas&#8230; foi o pr\u00f3prio governo de Salazar quem come\u00e7ou por dizer \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d!<\/p>\n\n\n\n<p>Desde logo, em janeiro de 1934, poucos dias depois de prender M\u00e1rio Castelhano e de reprimir a revolta oper\u00e1ria contra a dissolu\u00e7\u00e3o dos sindicatos livres: numa \u201cnota oficiosa\u201d, o governo assume abertamente a sua inten\u00e7\u00e3o de deportar os organizadores da revolta para um \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d, o qual aventou ent\u00e3o localizar no sul de Angola. Era j\u00e1 o an\u00fancio do que viria a concretizar dois anos depois em Cabo Verde, no Tarrafal. Essa \u201cnota oficiosa\u201d est\u00e1 publicada, por exemplo, no&nbsp;Di\u00e1rio de Lisboa, 20\/01\/1934, p\u00e1gina 8, e no&nbsp;Di\u00e1rio da Manh\u00e3, 20\/01\/1934, p\u00e1g. 1.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo no decreto-lei em que estipula a cria\u00e7\u00e3o da \u201ccol\u00f3nia penal para presos pol\u00edticos\u201d no Tarrafal, \u00e9 o pr\u00f3prio governo de Salazar quem volta a falar em \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d e quem d\u00e1 a entender que era disso que se tratava. Est\u00e1 publicado no&nbsp;Di\u00e1rio do Governo, 23\/04\/1936, p\u00e1g. 446. Trata-se do artigo 11\u00ba do Decreto-Lei n\u00ba 26.539: \u201ca col\u00f3nia penal criada por este decreto poder\u00e1 instalar-se provisoriamente\u201d utilizando os meios \u201cdestinados ao campo de concentra\u00e7\u00e3o da Ilha de S. Nicolau\u201d (um projeto anterior, situado tamb\u00e9m em Cabo Verde).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Antes da 2\u00aa Guerra Mundial<\/h2>\n\n\n\n<p>Em 1936 ainda n\u00e3o existiam os \u201ccampos de exterm\u00ednio\u201d nazis, equipados com c\u00e2maras de g\u00e1s para assassinar popula\u00e7\u00f5es numa escala industrial. Esses s\u00f3 surgiram em 1941\/42, no contexto da 2\u00aa Guerra Mundial.<\/p>\n\n\n\n<p>Na cria\u00e7\u00e3o do Tarrafal, a refer\u00eancia nazi da ditadura de Salazar foi uma coisa diferente: o \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d para presos pol\u00edticos criado pelo governo de Adolf Hitler logo em 1933, nos arredores da cidade de Dachau, na regi\u00e3o da Baviera.<\/p>\n\n\n\n<p>No dito&nbsp;Dicion\u00e1rio de Hist\u00f3ria de Portugal&nbsp;confundiram-se afinal coisas diferentes e que \u00e9 fundamental distinguir. Assim defende, por exemplo, uma institui\u00e7\u00e3o especializada na mat\u00e9ria como a Biblioteca Wiener do Holocausto, sediada em Londres. Na p\u00e1gina de internet sobre o holocausto que esta institui\u00e7\u00e3o mant\u00e9m, define-se \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d como um \u201clocal onde pessoas s\u00e3o concentradas e aprisionadas sem julgamento\u201d, sendo \u201cusualmente exploradas como m\u00e3o de obra e submetidas a duras condi\u00e7\u00f5es\u201d, com \u201cdesprezo pelas suas vidas e pela sua sa\u00fade\u201d. Para os nazis, foi uma forma de \u201cconter\u201d opositores pol\u00edticos, como militantes comunistas (theholocaustexplained.org).<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Tarrafal<\/h2>\n\n\n\n<p>O Tarrafal corresponde exatamente a esta defini\u00e7\u00e3o de \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d. E \u00e9 o mesmo&nbsp;Dicion\u00e1rio de Hist\u00f3ria de Portugal&nbsp;que assim o descreve.<\/p>\n\n\n\n<p>A\u00ed se diz que foi \u201ccaracter\u00edstico\u201d do Tarrafal o \u201cprocesso utilizado para executar advers\u00e1rios do regime\u201d, com o mesmo \u201cm\u00e9todo, por sinal utilizado em grande escala nos campos alem\u00e3es\u201d, que \u201cera o da chamada \u2018morte natural\u2019 (tamb\u00e9m assim lhe chamavam os nazis)\u201d. Consistia na \u201cfalta de condi\u00e7\u00f5es de salubridade e higiene, na subnutri\u00e7\u00e3o, na quase inexist\u00eancia de medicamentos, na recusa de assist\u00eancia m\u00e9dica e na exposi\u00e7\u00e3o deliberada ao mosquito da mal\u00e1ria\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Feita esta refer\u00eancia a uma das doen\u00e7as tropicais que ali eram particularmente prop\u00edcias, acrescente-se ter sido o pr\u00f3prio governo de Salazar quem, no referido decreto de 1936, assumiu que escolheu o Tarrafal \u201cdepois de um reconhecimento cuidadosamente feito por t\u00e9cnicos a diferentes ilhas do arquip\u00e9lago de Cabo Verde\u201d, chegando \u00e0 \u201cconclus\u00e3o\u201d de que aquele lugar era o que \u201creunia as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias\u201d, nomeadamente \u201csob o ponto de vista higi\u00e9nico\u201d&#8230;<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u201cCondena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte\u201d<\/h2>\n\n\n\n<p>Mais descreve o dito&nbsp;Dicion\u00e1rio de Hist\u00f3ria de Portugal&nbsp;que \u201cacresciam o trabalho for\u00e7ado, a tortura [&#8230;] e os espancamentos\u201d. E conclui que isto era \u201cpraticamente uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 morte, ainda que aleat\u00f3ria na escolha das v\u00edtimas e consumada, com dilui\u00e7\u00e3o de responsabilidades\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Diz ainda que alguns dos diretores do Tarrafal \u201cconfessavam sem problemas a inten\u00e7\u00e3o de provocar mortes\u201d e que um deles \u201cter\u00e1 estagiado em campos de concentra\u00e7\u00e3o alem\u00e3es e italianos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Parece afinal que isso de chamar \u201ccampo de concentra\u00e7\u00e3o\u201d ao Tarrafal tem muito fundamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Ali foi assassinado M\u00e1rio Castelhano, marido de uma professora d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio&nbsp;e sobre quem fica muito por dizer, para um pr\u00f3ximo artigo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Castelhano salientou-se como um dos mais destacados sindicalistas portugueses na d\u00e9cada de 1920, primeiro como dirigente da federa\u00e7\u00e3o de trabalhadores ferrovi\u00e1rios e depois como secret\u00e1rio-geral da Confedera\u00e7\u00e3o Geral do Trabalho (CGT) e diretor do seu jornal di\u00e1rio,&nbsp;A Batalha. 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