{"id":3823,"date":"2020-08-19T14:13:45","date_gmt":"2020-08-19T14:13:45","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3823"},"modified":"2020-09-02T12:12:08","modified_gmt":"2020-09-02T12:12:08","slug":"escolhe-tres-livros-e-sai-de-casa-para-um-encontro-impossivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/08\/19\/escolhe-tres-livros-e-sai-de-casa-para-um-encontro-impossivel\/","title":{"rendered":"Escolhe tr\u00eas livros e sai de casa para um encontro imposs\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 premissa comummente aceite que a perda da capacidade de pensamento-m\u00e1gico acontece (mais coisa menos coisa) at\u00e9 aos seis anos de vida. Depois disso, mant\u00ea-la passa a ser um fen\u00f3meno da vontade f\u00e9rrea \u2013 trata-se de escolher acreditar, conscientemente, no imposs\u00edvel. Nalgumas cabe\u00e7as isso passa-se todos os dias. D\u00e1-se uso \u00e0 plataforma dos sonhos, fecha-se os olhos ao longo do dia para ver o que n\u00e3o-est\u00e1-\u00e0-nossa-frente e por vezes, se houver sorte, at\u00e9 se dobra a realidade com mais habilidade sem se precisar de nenhum aparelho f\u00edsico de suporte. Quem do exterior pousar o olhar, nada v\u00ea sen\u00e3o um humano funcional, mas que pode bem estar a planear uma fuga cont\u00edgua \u00e0 descida do sol, com algu\u00e9m j\u00e1 desaparecido, algu\u00e9m que aguarda na lista de pessoas-a-conhecer.<\/p>\n\n\n\n<p>Os livros, os discos, as imagens, as pinturas, as fotografias, as cassetes e os posters, os postais ou os autocolantes dispostos pela rua costumam funcionar como ponto de partida para essas aventuras.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que diria o Chico Buarque se lhe pergunt\u00e1ssemos se algum dia chegou a encontrar o cavalo que s\u00f3 falava ingl\u00eas? E se fez passar aquela lei que nos obrigava \u00e0 felicidade?\u201d &#8211; mesmo que tent\u00e1ssemos endere\u00e7ar-lhe por carta escrita, estas e outras perguntas importantes, ficar\u00edamos certamente detidos na impossibilidade de descobrir para onde as enviar e por isso, uma boa solu\u00e7\u00e3o ser\u00e1 come\u00e7ar, ami\u00fade, a tomar ch\u00e1 de camomila com o Chico, e a colocar-lhas directamente. \u201cSer\u00e1 que Nietzsche se emocionou quando descreveu o pensamento dos pr\u00e9-socr\u00e1ticos?\u201d &#8211; boa pergunta para o entalar, enquanto lhe damos esta caixinha com bolachas de manteiga feitas na quarta-feira.<\/p>\n\n\n\n<p>E bem poder\u00edamos passear de mota com Her\u00e1clito que gentilmente nos explicaria porque \u00e9 que a dial\u00e9ctica nos impossibilita de entrar no mesmo rio duas vezes e escrever no cantinho de uma toalha de papel uma nota \u00e0 Nina Simone pedindo que nos ensinasse ora\u00e7\u00f5es t\u00e3o desinquietantes como a da Sinnerman.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta arte de pensar magicamente enquanto adulto d\u00e1 trabalho, mas a boa not\u00edcia \u00e9 que o eventual acrescento de tempo livre no Ver\u00e3o pode bem servir para come\u00e7armos o empreendimento da tarefa. Sugerimos como ponto de partida tr\u00eas livros que podem p\u00f4r a teste a resili\u00eancia do intento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Rua de Sentido \u00danico e Inf\u00e2ncia em Berlim por volta de 1900, de Walter Benjamin. Uma colect\u00e2nea de aforismos e fragmentos, frutos de uma abordagem de temas pouco comuns num ensaio filos\u00f3fico, como os sonhos pessoais e a forma como se observam as ruas de uma cidade e todos os detalhes que as comp\u00f5em enquanto mapeamento de uma possibilidade de retorno \u00e0s tenras lembran\u00e7as e \u00e0 for\u00e7a propulsora dos pensamentos. Um \u201cbazar filos\u00f3fico\u201d, como pontuou Ernst Bloch, que nos relembra que \u00e9 o acto de lembrar que d\u00e1 sentido ao passado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As Aventuras de Alice no Pa\u00eds das Maravilhas, de Lewis Carroll, conhecida viagem ao lugar do fant\u00e1stico, povoado por criaturas peculiares e antropom\u00f3rficas que operam dentro da l\u00f3gica do absurdo. Entre alus\u00f5es sat\u00edricas, par\u00f3dias e refer\u00eancias a poemas e hist\u00f3rias populares, Carroll leva-nos pela m\u00e3o ao buraco do coelho branco e, ao contr\u00e1rio dele, faz-nos sentir que estamos a chegar sempre a tempo e horas ao espa\u00e7o imprevis\u00edvel da imagina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>E finalmente os poemas de Emily Dickinson, que enquanto poeta quase enclausurada que viveu atrav\u00e9s do imenso que escreveu numa l\u00edngua enigm\u00e1tica, amb\u00edgua, paradoxal, n\u00e3o via mais num quotidiano terreno &#8211; a vida dom\u00e9stica, o vestu\u00e1rio, a casa \u2013 do que no imaginado, portanto sem fronteiras. E afinal h\u00e1 mesmo fronteiras? Parece-nos que n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para ass\u00edduos deste jogo de encontro pr\u00f3ximo com o que se poderia descrever como imposs\u00edvel, afiguram-se estas sugest\u00f5es como preciosos pontos de partida, mas mais importante que acat\u00e1-las ser\u00e1 o desafio de preencher os dias que ainda se prev\u00eaem quentes e longos com a satisfa\u00e7\u00e3o do encontro com as maravilhas que um dia algu\u00e9m ousou exteriorizar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 premissa comummente aceite que a perda da capacidade de pensamento-m\u00e1gico acontece (mais coisa menos coisa) at\u00e9 aos seis anos de vida. Depois disso, mant\u00ea-la passa a ser um fen\u00f3meno da vontade f\u00e9rrea \u2013 trata-se de escolher acreditar, conscientemente, no imposs\u00edvel. Nalgumas cabe\u00e7as isso passa-se todos os dias. 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