{"id":3805,"date":"2020-08-19T10:36:22","date_gmt":"2020-08-19T10:36:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3805"},"modified":"2020-08-19T10:36:25","modified_gmt":"2020-08-19T10:36:25","slug":"luis-filipe-costa-escritor-de-policiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/08\/19\/luis-filipe-costa-escritor-de-policiais\/","title":{"rendered":"Lu\u00eds Filipe Costa, escritor de policiais"},"content":{"rendered":"\n<p>Lu\u00eds Filipe Costa, a \u201cvoz que anunciou o 25 de Abril\u201d, deixou-nos h\u00e1 pouco. Homem da r\u00e1dio, da televis\u00e3o e do cinema, fecundo inovador das formas de comunicar, n\u00e3o se limitou apenas a essas fun\u00e7\u00f5es. A literatura portuguesa ficou a dever-lhe dois magn\u00edficos livros que penetram nesse ambiente circular de uma certa fauna da intelectualidade urbana, da gera\u00e7\u00e3o anterior ao 25 de Abril.<\/p>\n\n\n\n<p>Trata-se de dois livros raros pela arg\u00facia, pela sensibilidade, pela destreza descritiva, pela inventiva abordagem do real, pelo novo e enxuto da linguagem, pela reinven\u00e7\u00e3o vocabular e metaf\u00f3rica &#8211;&nbsp;A Borboleta na Gaiola&nbsp;e&nbsp;Agora e na Hora da Sua Morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Escrito em \u201clisbo\u00eas\u201d de fino tra\u00e7o,&nbsp;A Borboleta na Gaiola&nbsp;encena, ao estilo do realismo cinematogr\u00e1fico, t\u00e3o caro ao realizador que Lu\u00eds Filipe Costa foi, um olhar coevo sobre a fauna lisboeta de uma certa esquerda do in\u00edcio dos anos 1970, sobre esse esquivo, ululante espa\u00e7o de todas as conjuras inconsequentes, dos gritos sem eco, do maldizer para espalhar os medos da noite enorme, o t\u00e9dio e o negrume que a todos a\u00e7oitava. Cr\u00f3nica sagaz de uma gera\u00e7\u00e3o de verniz e cetim pu\u00eddo, embalando nos bra\u00e7os os livros proibidos que o&nbsp;Barata&nbsp;fornecia \u00e0 socapa; que bebia as noites em botequins de margens l\u00edricas e mansas, tascas manhosas, bares da moda entre as Amoreiras e as franjas do Bairro Alto, no ano que antecedeu a Revolu\u00e7\u00e3o. Turba que se inquieta, e aquieta, que discute Godard e Truffaut, malta das libertinagens sem lastro, dos teatros, dos livros, do cinema que se tentava fazer. Malta, como a define o autor, que se arrastava pela noite numa forma peculiar de querer gastar a vida e alicer\u00e7ar a mudan\u00e7a. Vistosa, como a borboleta, esta gente n\u00e3o produz, por\u00e9m, um \u00fanico som que incomode verdadeiramente o poder. Isso \u00e9 para os p\u00e1ssaros da madrugada, os aut\u00eanticos revolucion\u00e1rios, que este romance aflora, dado que fechados em Caxias, Peniche ou calcorreando as ruas do ex\u00edlio.<\/p>\n\n\n\n<p>Em&nbsp;Agora e na Hora da Sua Morte,&nbsp;\u00e9 o crime que abre a narrativa, que d\u00e1 tom e subst\u00e2ncia a uma hist\u00f3ria ludo-policial das antigas. O texto apanha-nos logo na primeira p\u00e1gina, com facadas, sangue e policias como mandam as normas. Mas o autor envia as normas para o recreio e deixa-nos pendurados uma caterva de p\u00e1ginas a percorrer a Lisboa nocturna dos finais dos anos 1980; a trazer-nos retratos deslassados, cru\u00e9is, mem\u00f3rias, desencantos, restos nost\u00e1lgicos de j\u00fabilo e retraimento, as rugas de uma esquerda festiva (ou caviar?) que o autor j\u00e1 cronicara em&nbsp;Uma Borboleta na Gaiola.&nbsp;A escrita arguta de Lu\u00eds Filipe Costa, percorre esse esquivo corpo, os lanhos de uma revolu\u00e7\u00e3o a derruir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lu\u00eds Filipe Costa, a \u201cvoz que anunciou o 25 de Abril\u201d, deixou-nos h\u00e1 pouco. Homem da r\u00e1dio, da televis\u00e3o e do cinema, fecundo inovador das formas de comunicar, n\u00e3o se limitou apenas a essas fun\u00e7\u00f5es. 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