{"id":3731,"date":"2020-07-17T14:15:01","date_gmt":"2020-07-17T14:15:01","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3731"},"modified":"2020-08-19T13:53:08","modified_gmt":"2020-08-19T13:53:08","slug":"a-covidizac%cc%a7a%cc%83o-do-capitalismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/07\/17\/a-covidizac%cc%a7a%cc%83o-do-capitalismo\/","title":{"rendered":"A covidizac\u0327a\u0303o do capitalismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Dependendo da idade de quem leia esta cr\u00f3nica, poderemos lembrar-nos de uma, duas, tr\u00eas ou quatro grandes crises econ\u00f3micas mundiais. O capitalismo habituou-nos de tal maneira \u00e0 sazonalidade da crise, que not\u00edcias sobre recess\u00f5es, quebra dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo ou fal\u00eancias de bancos, que o p\u00e2nico em Wall Street j\u00e1 dificilmente se repercute no nosso p\u00e2nico. Aprendemos uns a viver de crise em crise e outros em perp\u00e9tua crise, mas o desastre econ\u00f3mico que a\u00ed vem, a reboque da COVID-19, difere significativamente das crises anteriores. <\/p>\n\n\n\n<p>O capitalismo conhece tr\u00eas tipos de crises: as c\u00edclicas, que de d\u00e9cada em d\u00e9cada exigem a destrui\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o excedent\u00e1ria para manter ou recuperar as taxas de lucro; as estruturais, nas quais a crise c\u00edclica s\u00f3 pode ser ultrapassada com uma reorganiza\u00e7\u00e3o do modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista e, finalmente, as sist\u00e9micas, que p\u00f5em em causa a sua pr\u00f3pria exist\u00eancia. A crise de 2008, por exemplo, constitui um exemplo paradigm\u00e1tico de uma crise c\u00edclica: ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o de milhares de bancos, empresas, f\u00e1bricas e milh\u00f5es de postos de trabalho, a economia de casino global reabriu portas com as mesmas regras de antes: nenhuma. J\u00e1 a Grande Depress\u00e3o de 1929 \u00e9 um bom exemplo de uma crise estrutural: o capitalismo teve de reinventar as suas pr\u00f3prias regras para assegurar a subsist\u00eancia hist\u00f3rica. Sem a profunda interven\u00e7\u00e3o keynesiana do Estado sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o, a crise estrutural de 1929 teria evolu\u00eddo para a crise do pr\u00f3prio sistema. A presente recess\u00e3o econ\u00f3mica marcada circunstancialmente pela pandemia, enquadra-se no modelo de uma crise estrutural. O capitalismo que a\u00ed vem, sendo igual a si pr\u00f3prio, ser\u00e1 diferente daquele que conhecemos desde a d\u00e9cada de 70. <\/p>\n\n\n\n<p>Um estudo de Nir Jaimovich e Henry Siu chegou a uma conclus\u00e3o misteriosa: a recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica que se seguiu \u00e0 crise de 2008 n\u00e3o correspondeu a uma recupera\u00e7\u00e3o de postos de trabalho. Um outro estudo, encomendado em 2016 pelos conselheiros econ\u00f3micos do ent\u00e3o presidente dos EUA, Barack Obama, lan\u00e7ava alguma luz sobre o que se estava a passar: 83% de todos os empregos remunerados com menos de 20 d\u00f3lares \u00e0 hora corriam um alto risco de serem substitu\u00eddos por \u201cm\u00e1quinas\u201d. Tratava-se de um fen\u00f3meno global e hist\u00f3rico de desenvolvimento das for\u00e7as produtivas. Na China, por exemplo, entre 2013 e 2017, mais de 13 milh\u00f5es de postos de trabalho industriais foram permanentemente eliminados pelo avan\u00e7o da robotiza\u00e7\u00e3o. Pretender deter este comboio seria o equivalente contempor\u00e2neo dos luditas que, no s\u00e9culo XIX, destru\u00edam as m\u00e1quinas que roubavam o trabalho aos artes\u00e3os e minguavam o sal\u00e1rio dos oper\u00e1rios. Como ent\u00e3o, o que se exige n\u00e3o \u00e9 tentar travar a marcha da t\u00e9cnica e da ci\u00eancia mas compreend\u00ea-la e coloc\u00e1-la ao servi\u00e7o do progresso comum. <\/p>\n\n\n\n<p>O apelo da automa\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o antigo como o capitalismo industrial mas, h\u00e1 pelo menos vinte anos, as potencialidades t\u00e9cnicas dispon\u00edveis para a robotiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o se consumam. Concorre para esta travagem uma certa hesita\u00e7\u00e3o do capitalismo global em saltar para um mundo imprevisivelmente diferente do actual. O que fariam os milhares de milh\u00f5es mais-que-desempregados e, conforme o aug\u00fario de Yuval Harari, \u00abin\u00fateis\u00bb? Viveriam de esmolas sociais incondicionais? Revoltar-se-iam? Exigiriam a propriedade das m\u00e1quinas que tudo geram? O que se chamaria, em termos marxistas, a esses \u00abin\u00fateis\u00bb cuja explora\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria ou a esse sistema em que a mais-valia j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 extra\u00edda do trabalho alheio? <br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Digitaliza\u00e7\u00e3o e automa\u00e7\u00e3o <\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 poss\u00edvel que a actual pandemia seja o gatilho hist\u00f3rico para as grandes mu- dan\u00e7as que h\u00e1 d\u00e9cadas vinham sendo travadas. Um estudo da Universidade de Chicago concluiu que 42% de todos os lay-offs motivados pela pandemia da COVID-19 resultar\u00e3o em perdas permanentes de postos de trabalho. \u00c9 que uma fatia de le\u00e3o destes lay-offs correspondem ao sector dos servi\u00e7os que, hoje em dia, representam 70 por cento do Produto Mundial Bruto. A pandemia criou o ensejo ideal para a digitaliza\u00e7\u00e3o de parte substantiva desses servi\u00e7os. Essa digitaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o ter\u00e1 volta atr\u00e1s. <\/p>\n\n\n\n<p>Por digitaliza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o me refiro somente \u00e0 substitui\u00e7\u00e3o da actividade humana pela intelig\u00eancia artificial dos algoritmos das apps, mas a toda a substitui\u00e7\u00e3o do f\u00edsico pelo digital, que vai do teletrabalho a uma compra online. O confinamento do mundo inteiro constituiu gigantesco ensaio sobre as possibilidades de digitalizar a vida: milhares de milh\u00f5es de pessoas come\u00e7aram, por exemplo, a fazer compras pela internet pela primeira vez e continuar\u00e3o a faz\u00ea-lo quando a pandemia terminar. Experimentaram-se consultas m\u00e9dicas e aulas online e investiram-se fortunas fabulosas em apps que podem substituir os trabalhadores confinados. <\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, a recess\u00e3o econ\u00f3mica e a crise social exacerbadas pela pandemia aplicam um est\u00edmulo descendente sobre a contrata\u00e7\u00e3o. A t\u00edtulo de exemplo, os consumidores passam a optar por marcas mais baratas que, invariavelmente, s\u00e3o as que t\u00eam menos custos com m\u00e3o-de-obra, quer seja porque exploram mais os trabalhadores quer seja porque se encontram num est\u00e1dio de automa\u00e7\u00e3o mais avan\u00e7ado. <\/p>\n\n\n\n<p>A digitaliza\u00e7\u00e3o que a\u00ed vem \u00e9 o corol\u00e1rio hist\u00f3rico da financeiriza\u00e7\u00e3o da economia pelo capital fict\u00edcio e monopolista. A digitaliza\u00e7\u00e3o que a\u00ed vem abre a porta a n\u00edveis nunca antes vistos de automa\u00e7\u00e3o porque cria as condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e pol\u00edticas para o controlo social de milh\u00f5es de \u00abin\u00fateis\u00bb finalmente afastados dos cada vez mais complexos e fr\u00e1geis circuitos globais de mercadorias por onde se espalhou o coronav\u00edrus. Tamb\u00e9m para o capital produtivo, a automa\u00e7\u00e3o se torna necess\u00e1ria. Peter Hasenkamp, ex-respons\u00e1vel pela cadeia de abastecimento da Tesla, queixava-se de que s\u00e3o precisas 2500 pe\u00e7as para produzir um autom\u00f3vel quando basta apenas uma para n\u00e3o o produzir. S\u00f3 um grau mais avan\u00e7ado de automa\u00e7\u00e3o responde \u00e0s vulnerabilidades expostas pela pandemia. <\/p>\n\n\n\n<p>Se for conduzido pelos que hoje det\u00eam o poder pol\u00edtico, o processo de digitaliza\u00e7\u00e3o e automa\u00e7\u00e3o em curso tornar\u00e1 o mundo mais desigual ainda. Se for conduzido pelos de sempre, servir\u00e1 para melhor controlar e reprimir os que n\u00e3o t\u00eam poder, contribuir\u00e1 para aprofundar a destrui\u00e7\u00e3o dos recursos naturais do planeta e acelerar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas que amea\u00e7am a vida na terra. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dependendo da idade de quem leia esta cr\u00f3nica, poderemos lembrar-nos de uma, duas, tr\u00eas ou quatro grandes crises econ\u00f3micas mundiais. 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