{"id":3714,"date":"2020-07-06T22:12:28","date_gmt":"2020-07-06T22:12:28","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3714"},"modified":"2020-08-19T13:59:35","modified_gmt":"2020-08-19T13:59:35","slug":"a-voz-que-nos-habita","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/07\/06\/a-voz-que-nos-habita\/","title":{"rendered":"A voz que nos habita"},"content":{"rendered":"\n<p>O panorama fadista lisboeta era, em finais dos anos 1930, desolador. O fado encontrava-se confinado ao reduto das casas t\u00edpicas e aos retiros. Ant\u00f3nio Ferro, um intelectual aristocrata, indigitado propagandista do Estado Novo, achava a melopeia lisboeta pouco estimulante, decadente e contr\u00e1ria aos impulsos que o Modernismo, herdado de Marinetti, tentava impor, por arrasto acr\u00edtico, \u00e0 lusa cultura e aos des\u00edgnios ideol\u00f3gicos do regime. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas o salazarismo n\u00e3o tardou de perceber que o Fado choradinho, desgra\u00e7ado e saudosista, servia ao povo como expia\u00e7\u00e3o de m\u00e1goas para, na sua melopeia, estender o manto de triste resigna\u00e7\u00e3o que o regime, assim que se viu institucionalizado pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1933, tentou imprimir aos cerca- dos quotidianos portugueses. Dizem que serviu, tendo por companhia outros efes de um triunvirato que nos <em>limita e oprime, <\/em>como diria \u00c1lvaro de Campos, para apaziguar revoltas. Certo \u00e9, que este Fado do <em>destino marcado <\/em>conviveu paredes meias com os fados da revolta, cr\u00edtico e republicano: duas faces de uma realidade da cultura urbana que se entrela\u00e7am e ainda hoje subsistem. <\/p>\n\n\n\n<p>Poetas populares como Gabriel de Oliveira, Carlos Conde, Linhares Barbosa, Jos\u00e9 Galhardo e o jornalista Norberto de Ara\u00fajo (este, com particular registo nas <em>marchas populares<\/em>), n\u00e3o abandonando o convencionalismo redutor de um universo efabulat\u00f3rio herdado do romantismo, fortemente inspirado na mitologia fadista de finais do s\u00e9culo XIX, da qual J\u00falio Dantas foi um dos respons\u00e1veis, no ci\u00fame e nas trai\u00e7\u00f5es amorosas, nos dramas de amor e morte ou nas viv\u00eancias dos bairros t\u00edpicos, das hortas saloias e dos retiros, tentavam, trazer para o Fado alguma lisura formal e uma maior exig\u00eancia de constru\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e mel\u00f3dica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 neste panorama que emerge o vulc\u00e3o Am\u00e1lia, cuja voz poderosa e bel\u00edssima, transpunha para a can\u00e7\u00e3o de Lisboa horizontes mel\u00f3dicos raros, profundos e expressivos. De s\u00fabito, a melopeia dos be- cos e vielas de Alfama e da Mouraria, das tascas e colectividades da cidade, metamorfoseava-se, emocionava-se, coloria-se de novos requebros, de cambiantes dram\u00e1ticos, vibrantes e intensos. <\/p>\n\n\n\n<p>Cedo os compositores e a sensibilidade de Am\u00e1lia perceberam que essa <em>Voz <\/em>s\u00f3 ganhava asas e plenitude servindo composi\u00e7\u00f5es mais complexas e outras palavras. \u00c9 a pr\u00f3pria Am\u00e1lia que descobre, por acaso, um poema de Pedro Homem de Melo e transfigura esses versos de desespero \u00edntimo, de uns olhos que se perdem na cidade grande, num fado de enorme \u00eaxito. Seguem-se-lhe Sid\u00f3nio Muralha e Lu\u00eds de Macedo. <\/p>\n\n\n\n<p>Frederico Val\u00e9rio prolonga-lhe a voz, d\u00e1-lhe intensidade mel\u00f3dica e expressividade dram\u00e1tica em fados que rasgavam o figurino tradicional: <em>S\u00f3 \u00e0 Noitinha, Ai, Mouraria, Confesso, Boa Nova, N\u00e3o Sei Porque te Foste Embora. <\/em>Estes fados can\u00e7\u00e3o, escritos para os palcos da revista, onde Am\u00e1lia era j\u00e1 vedeta incontest\u00e1vel, fazem hoje parte do esp\u00f3lio cl\u00e1ssico do fado. Mas ser\u00e1 com <em>Foi Deus<\/em>, de Alberto Janes, esse prod\u00edgio mel\u00f3dico e estil\u00edstico, constru\u00eddo sobre versos que libertavam o fado dos seus limites conceptuais, do torpor fadista de 1950 (embora viajando, sem rupturas absolutas, pela estrutura dos seus referentes imag\u00e9ticos), que Am\u00e1lia cresce como interprete e a sua voz (as v\u00e1rias vozes que o seu instrumento vocal provou possuir) ganha uma envolv\u00eancia mais modulada, plena de resson\u00e2ncias e de sensibilidade interpretativa, uma ductilidade atravessada pelo tr\u00e1gico. Seguem-se <em>Barco Negro, <\/em>do filme <em>Amantes do Tejo<\/em>, que a lan\u00e7a nas ribaltas internacionais e, j\u00e1 nos anos 1960, o encontro fundamental com Alain Oulman, que trazia na bagagem de compositor inspirado alguns nomes cimeiros da l\u00edrica portuguesa. <\/p>\n\n\n\n<p>Com Alain, e o m\u00edtico \u00e1lbum <em>Busto, <\/em>no qual Am\u00e1lia canta esse pungente e libert\u00e1rio <em>Abandono<\/em>, conhecido como <em>Fado Peniche, <\/em>com letra de David Mour\u00e3o-Ferreira, e essa obra modelar que \u00e9 <em>Com que Voz, <\/em>Am\u00e1lia transporta-nos para os universos expressivos da nossa po\u00e9tica maior, cantando-nos em melodias que tocavam o erudito (<em>vamos \u00e0s \u00f3peras<\/em>, diziam os m\u00fasicos, aquando das sess\u00f5es de grava\u00e7\u00e3o), versos de Cam\u00f5es, Ary dos Santos, Cid\u00e1lia Meireles, Manuel Alegre, Jo\u00e3o Ruiz de Castelo Branco, Alexandre O\u2019Neill, e de ela pr\u00f3pria, com esse magn\u00edfico poema que \u00e9 <em>Estranha Forma de Vida. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas anos ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o de <em>Busto<\/em>, Alain e Am\u00e1lia regressariam \u00e0 grande poesia com <em>Fado Portugu\u00eas<\/em>, sobre poema hom\u00f3nimo de Jos\u00e9 R\u00e9gio. A colabora\u00e7\u00e3o com Alain prosseguiria nos \u00e1lbuns <em>Cantigas Numa L\u00edngua Antiga <\/em>e <em>Obsess\u00e3o. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Am\u00e1lia da Piedade Rebord\u00e3o Rodrigues, nasceu\nem Lisboa a 1 de Julho de 1920 (foi registada a 23\nde Julho) e faleceu a 6 de Outubro de 1999. Do seu\nesp\u00f3lio musical registam-se mais de 170 \u00e1lbuns,\ngravados em 30 pa\u00edses. Vendeu milh\u00f5es de c\u00f3pias,\ncantou nos melhores palcos do mundo.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Poeta, publicou 2 \u00e1lbuns com os seus versos\n(<em>Gostava de ser quem era <\/em>e <em>L\u00e1grima) <\/em>e reuniu a sua\nobra po\u00e9tica no livro <em>Versos<\/em>, publicado pela editora\nCotovia, j\u00e1 em 10a. edi\u00e7\u00e3o.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s da m\u00fasica de Alain e das palavras dos grandes poetas, Am\u00e1lia transfigura o fado, universaliza-o, d\u00e1-lhe estatuto cultural. A partir de 1962, ano da grava\u00e7\u00e3o de <em>Busto<\/em>, o fado deixaria para tr\u00e1s o seu passado sombrio, lacrimejante e formalmente retr\u00f3grado e percorreria sem temores a ess\u00eancia da nossa condi\u00e7\u00e3o: perscrutando-nos a alma, incentivando-nos os sentidos, ensinando-nos o poder das palavras, as refer\u00eancias mais fundas da nossa identidade, mostrando-nos os caminhos do regresso a casa, que sempre l\u00e1 estiveram, e que ela, com a magia do seu canto, redescobriu: um canto que come\u00e7ava tamb\u00e9m a revelar ao mundo as fundas ra\u00edzes da nossa singularidade cultural. Ou seja, libertava-nos por dentro no \u00eaxtase maior dessa voz que, dram\u00e1tica e festiva, tamb\u00e9m nos habitava. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O panorama fadista lisboeta era, em finais dos anos 1930, desolador. O fado encontrava-se confinado ao reduto das casas t\u00edpicas e aos retiros. 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