{"id":3689,"date":"2020-07-06T20:15:44","date_gmt":"2020-07-06T20:15:44","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3689"},"modified":"2020-07-13T15:32:41","modified_gmt":"2020-07-13T15:32:41","slug":"covid-do-meu-ponto-de-vista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/07\/06\/covid-do-meu-ponto-de-vista\/","title":{"rendered":"COVID, do meu ponto de vista"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Atrav\u00e9s da escrita comunicamos, expressamos o que vemos, o que sentimos e o que pensamos. Xavier Cardoso, 10 anos, aluno da turma 4\u00baA d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio da Gra\u00e7a, aproveitou este tempo de confinamento para ler e identificar-se com o escritor austro-h\u00fangaro Franz Kafka. Realizou um projeto em conjunto com alguns colegas dando-lhe o t\u00edtulo de \u201cKafka e a sua Metamorfose\u201d, envolveu toda a turma neste seu crescimento enquanto leitor e partilha connosco o texto \u201cCOVID, do meu ponto de vista\u201d que diz ser um dos seus primeiros textos \u201c\u00e0 moda de Kafka\u201d. Realizou um projeto em conjunto com alguns colegas, dando-lhe o t\u00edtulo de \u201cKafka e a sua Metamorfose\u201d, envolveu toda a turma neste seu crescimento enquanto leitor e partilha connosco o texto \u201cCOVID, do meu ponto de vista\u201d, que diz ser um dos seus primeiros textos \u201c\u00e0 moda de Kafka\u201d. <\/em><\/p>\n\n\n\n<p>3 de Dezembro. A praga come\u00e7ou. <br>Eu, Xavier, come\u00e7o a desconfiar do planeta. Ainda nenhuma praga. Os dias passam e eu fico cada vez mais desconfiado. Nessa altura a not\u00edcia sai: <\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; <em>Not\u00edcias de \u00faltima hora, primeiro infetado na China de\numa nova praga chamada COVID-19.\n<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o era sem tempo. O v\u00edrus espalha-se. \u00c1sia. Am\u00e9rica do Norte. Am\u00e9rica do Sul. Oce\u00e2nia. \u00c1frica. Europa. J\u00e1 sabemos como se espalha. J\u00e1 sabemos os sintomas. N\u00e3o h\u00e1 fam\u00edlias juntas. Cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo, um infetado. J\u00e1 h\u00e1 alguns mortos, o v\u00edrus come\u00e7a em Portugal. <\/p>\n\n\n\n<p>Ainda n\u00e3o se descobriu a cura. Cada dia, cada morto. Come\u00e7a a piorar. J\u00e1 usamos m\u00e1scara. N\u00e3o somos super-her\u00f3is. Somos otimistas no desespero. <\/p>\n\n\n\n<p>Praga, doen\u00e7a, adoecimento, epidemia, pandemia, tudo vai dar ao mesmo. Nunca h\u00e1 antes, nem depois, h\u00e1 agora. E agora h\u00e1 um v\u00edrus. Mas que raio de v\u00edrus, em 1918 houve cerca de 50 milh\u00f5es de mortos. Agora, as escolas fecharam, as lojas fecharam, os parques fecharam. <\/p>\n\n\n\n<p>Agora somos n\u00f3s que nos fechamos em casa. Em casa,\ncontinuamos a trabalhar, sendo que as coisas mudaram.\nSou agora o poeta. Cada vez mais n\u00edtido o futuro.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente encontraram a cura.<br> As ruas est\u00e3o desertas. Em casa, todos est\u00e3o. Vagueio entre duas casas. M\u00e3e&#8230; Pai&#8230; M\u00e3e&#8230; Pai&#8230; M\u00e3e&#8230; Pai. Ser\u00e1 que os alien\u00edgenas tamb\u00e9m t\u00eam pragas? Come\u00e7o a ver s\u00e9ries novas, acabo s\u00e9ries velhas. Come\u00e7o jogos, acabo jogos, come\u00e7o a treinar, acabo de treinar. Come\u00e7o a desenhar, acabo de desenhar. \u00c9 assim que passo o tempo. Desembara\u00e7o novos conhecimentos. Enfrento novos dilemas. Ultrapasso dificuldades. J\u00e1 h\u00e1 bastantes curados. Ser\u00e1 que s\u00f3 cheg\u00e1mos aqui para este conhecimento? <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 passou uma semana. O tempo \u00e9 lento. Cada um a seu tempo. Tic, tac, tic, tac, tic, tac. Come\u00e7a a estar frio. J\u00e1 h\u00e1 poucas pessoas na rua para fazer compras. As coisas esgotam-se. Poucas, mas algumas lojas abrem-se. H\u00e1 lojas em risco, mas a situa\u00e7\u00e3o acalma-se em Portugal. Em It\u00e1lia e na Espanha, o v\u00edrus est\u00e1 agressivo. J\u00e1 n\u00e3o viajo, pois quarentena n\u00e3o \u00e9 para mim. Olho do meu quarto para a janela e vejo um \u00fanico alde\u00e3o a passar, com m\u00e1scara, claro. Por agora. <\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 polui\u00e7\u00e3o. Poucas pessoas a andar de carro.\nAgora tenho as vistas longas. Vejo o mar, o c\u00e9u, \u00e1rvores,\ncarros, dinossauros.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Por sorte tenho amigos e fam\u00edlia, doces como o mel, falo com eles \u00e0 dist\u00e2ncia. Come\u00e7a a ficar calor. Interpreto todos os cent\u00edmetros c\u00fabicos \u00e0 minha volta. Cada vez mais carros. Mesmo assim a pouco e pouco. J\u00e1 h\u00e1 mais <em>break dance. <\/em>J\u00e1 estou com alguns amigos ao vivo. J\u00e1 est\u00e1 a melhorar. Ainda bem. Mesmo assim, esperava mais. Agora, ando um pouco de bicicleta. N\u00e3o acompanhado, mas a apanhar o vento na cara. O COVID veio de um morcego, o problema era deles, mas agora \u00e9 nosso. Que natureza! <\/p>\n\n\n\n<p>Outra vez sem mantimentos. Vou \u00e0 rua, mas com uma m\u00e1scara. S\u00f3 minha. Feita pela minha querida e esperta av\u00f3. Os sinos tocam. Quatro da tarde. Continuo com os meus passatempos, mas sempre com um pressentimento estranho. N\u00e3o consigo descobrir o que \u00e9. Talvez um bom pressentimento? Uma alegria ou uma tristeza&#8230; Agora sinto tudo isto a percorrer por todo o meu corpo, duma ponta \u00e0 outra. O COVID talvez seja um aviso da natureza ou talvez s\u00f3 um acontecimento normal que algu\u00e9m previu, sem ser eu. Ou at\u00e9 talvez os dois de diferentes formas. Os cientistas j\u00e1 encontraram a vacina! Tudo volta ao normal. A doen\u00e7a passou a ser uma doen\u00e7a normal\u00edssima. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s da escrita comunicamos, expressamos o que vemos, o que sentimos e o que pensamos. Xavier Cardoso, 10 anos, aluno da turma 4\u00baA d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio da Gra\u00e7a, aproveitou este tempo de confinamento para ler e identificar-se com o escritor austro-h\u00fangaro Franz Kafka. 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