{"id":3650,"date":"2020-06-26T14:52:10","date_gmt":"2020-06-26T14:52:10","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3650"},"modified":"2020-07-06T21:00:59","modified_gmt":"2020-07-06T21:00:59","slug":"nao-somos-refens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/06\/26\/nao-somos-refens\/","title":{"rendered":"N\u00e3o somos ref\u00e9ns"},"content":{"rendered":"\n<p>A possibilidade de abertura das salas no in\u00edcio de Junho foi descrita como \u201cdespropositada e irrealista\u201d j\u00e1 que a APEC entende que \u201ca abertura das salas ter\u00e1 que ocorrer em data em que se preveja a exist\u00eancia a curto prazo de filmes que potencialmente sejam sucessos de bilheteira, de forma a que o esfor\u00e7o e custos de reabertura&nbsp;n\u00e3o&nbsp;sejam imediatamente delapidados pela falta de filmes que agarrem grandes audi\u00eancias.\u201d.&nbsp;Ref\u00e9ns&nbsp;assumidos (sobretudo) da ind\u00fastria estadunidense, a principal detentora e&nbsp;dinamizadora das salas de cinema do pa\u00eds \u2013 a NOS cinemas \u2013 acrescenta sem pudor que&nbsp;\u201creabrir as salas sem novos filmes equivale a ter um supermercado com as prateleiras vazias ou cheias de produtos cujo prazo de validade j\u00e1 passou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A postura assumida pela APEC e pela NOS cinemas ilumina uma urgente necessidade de reflex\u00e3o acerca do espa\u00e7o que se cria para a j\u00e1 fustigada pelas circunst\u00e2ncias, ind\u00fastria de cinema nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Considerando a t\u00edtulo de exemplo, que em 2019 o Instituto de Cinema e Audiovisual (ICA) aponta que tenham sido produzidos 77 filmes, 40 dos quais longas-metragens, n\u00e3o se afigura duvidoso que se afirmem as salas como desprovidas de conte\u00fados de interesse para exibi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p>As minas presentes neste caminho parecem evidentes e dif\u00edceis de serem evitadas pelo p\u00e9 dos que o trilham: permeia-se a produ\u00e7\u00e3o nacional de cinema de uma terr\u00edvel carga burocr\u00e1tica, inserida num contexto de dif\u00edcil acesso pela falta de recursos o que conduz inevitavelmente \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de poucos filmes (quase todos subfinanciados), produzidos por poucas pessoas, e com poucas oportunidades de exibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> E \u00e9 neste contexto que assistimos alegremente ao an\u00fancio de estreia, a 9 de Julho, de uma jun\u00e7\u00e3o de 3 curtas-metragens, de 3 realizadoras portuguesas. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Perante o panorama descrito \u00e9 particularmente louv\u00e1vel a resist\u00eancia de algumas salas de cinema que, justamente por se assumirem como resistentes t\u00eam consolidado a sua import\u00e2ncia para quem ainda preza um amplo acesso \u00e0 produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fica. Destacamos no Porto o Cinema Trindade e o Medeia no Teatro do Campo Alegre, e em Lisboa o Cinema Ideal e o Nimas. Com uma insistente nega\u00e7\u00e3o do estatuto de ref\u00e9ns, estes cinemas garantem o seu p\u00fablico com propostas de cinema de todo o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e9 neste contexto que assistimos alegremente ao an\u00fancio de estreia, a 9 de Julho, de uma jun\u00e7\u00e3o de 3 curtas-metragens, de 3 realizadoras portuguesas. A estreia est\u00e1 prevista no Cinema Trindade, no Cinema Ideal e em alguns cineclubes espalhados pela amplitude do territ\u00f3rio do pa\u00eds. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTr\u00eas Realizadoras Portuguesas\u201d juntar\u00e1 em sala as propostas de Sofia Bost, Mariana Gaiv\u00e3o e Leonor Teles produzidas pela Pedra no Sapato e pela Primeira Idade, ambas produtoras nacionais. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cDia de Festa\u201d, realizado por Sofia Bost, mostra-nos uma m\u00e3e solteira da classe trabalhadora na margem sul do Tejo que, atrav\u00e9s da organiza\u00e7\u00e3o de uma modesta festa de anivers\u00e1rio para a sua filha, nos revela as duras arestas da exclus\u00e3o e da vergonha da pobreza que continuam a marcar as interac\u00e7\u00f5es sociais das camadas mais desfavorecidas em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cRuby\u201d, realizado por Mariana Gaiv\u00e3o abre uma curiosa porta para o universo real dos hippies brit\u00e2nicos que desde os anos 80 se refugiam no interior de Portugal das pol\u00edticas neo-liberais impostas no Reino Unido nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Atrav\u00e9s da hist\u00f3ria de duas adolescentes nascidas em Portugal, que procuram hoje o seu lugar no mundo, testemunhamos vidas que se norteiam por um quadro de valores alternativo daquele anunciado como \u00fanico pela sociedade capitalista. <\/p>\n\n\n\n<p>E por fim \u201cC\u00e3es que Ladram aos P\u00e1ssaros\u201d, realizado por Leonor Teles, que nos exp\u00f5e, atrav\u00e9s de alguns fragmentos da vida de uma fam\u00edlia portuense numerosa, ao resultado do processo de gentrifica\u00e7\u00e3o que tem ocorrido na cidade do Porto nos \u00faltimos anos, fruto do crescimento da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria e consequente esvaziamento do centro da cidade dos seus habitantes de origem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Neste corajoso esfor\u00e7o conjunto, que une com cumplicidade o trabalho das realizadoras, das produtoras, dos cinemas envolvidos, e do p\u00fablico que, estamos certos que preencher\u00e1 as v\u00e1rias sess\u00f5es de exibi\u00e7\u00e3o, se reitera que ainda n\u00e3o somos totalmente ref\u00e9ns dos interesses que dizem ser nossos mas que na realidade n\u00e3o nos representam. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No final do m\u00eas de Maio, em comunicado ao Governo, a Associa\u00e7\u00e3o Portuguesa de Empresas Cinematogr\u00e1ficas reivindicou o adiamento da abertura dos cinemas comerciais, integradas no programa de desconfinamento apresentado para os v\u00e1rios sectores da vida social.<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":3651,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[125],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3650"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3696,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3650\/revisions\/3696"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3651"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3650"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=3650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}