{"id":3644,"date":"2020-06-17T17:19:07","date_gmt":"2020-06-17T17:19:07","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3644"},"modified":"2020-08-19T14:21:17","modified_gmt":"2020-08-19T14:21:17","slug":"covid-19-desigualdades-e-racismo-nos-eua-e-tambem-por-ca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/06\/17\/covid-19-desigualdades-e-racismo-nos-eua-e-tambem-por-ca\/","title":{"rendered":"COVID-19, desigualdades e racismo nos EUA (e tambe\u0301m por ca\u0301)"},"content":{"rendered":"\n<p>Os focos noticiosos t\u00eam estado centrados nos Estados Unidos da Am\u00e9rica pelos \u00faltimos dias. Nada que surpreenda quem conhece a sociedade americana. A atual situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o mero reflexo do agudizar de importantes disparidades de natureza econ\u00f3mica e social que t\u00eam empurrado muitos sectores da popula\u00e7\u00e3o americana para situa\u00e7\u00f5es de pobreza extrema e desespero. Nos \u00faltimos dias por\u00e9m sucederam-se epis\u00f3dios que tornaram inevit\u00e1vel a agita\u00e7\u00e3o e o grito de revolta por uma mudan\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, apesar de ser um dos pa\u00edses do mundo com maior Produto Interno Bruto per capita, a situa\u00e7\u00e3o em termos de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os p\u00fablicos n\u00e3o reflete isso. Pelo contr\u00e1rio. Por exemplo, a sa\u00fade est\u00e1 totalmente assente na l\u00f3gica privada. Como consequ\u00eancia, perante a amea\u00e7a de pandemia, as entidades p\u00fablicas revelaram, em geral, uma total incapacidade de dar resposta de forma coordenada e universal. Isto deixou a vida de grande parte dos americanos entregues a si mesmos (entenda- se, \u00e0 sua capacidade financeira). Para se ter uma ideia, h\u00e1 cerca de dois meses um \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o social americano\nnoticiava que um doente cujo tratamento\nde um caso de COVID-19 que implicasse\ninternamento teria de pagar em m\u00e9dia\nqualquer coisa como 37.500 d\u00f3lares (33\nmil euros). Isso mesmo. Esta \u00e9 a primeira\nfalha gigante de um sistema que muitos\nteimam em tentar replicar em Portugal.\n<\/p>\n\n\n\n<p>A par disto, as medidas sanit\u00e1rias adoptadas no decorrer da crise do COVID-19 fizeram o desemprego disparar no ritmo mais elevado desde que h\u00e1 registo. Assim, em oito semanas, 40 milh\u00f5es de pessoas ficaram desemprega- das. Isto \u00e9 10 vezes mais que o n\u00famero de desempregados que existia do in\u00edcio de 2020. A agravar tudo isto, em geral estes trabalhadores n\u00e3o t\u00eam acesso a qualquer apoio enquanto est\u00e3o desempregados. Ora, isto veio limitar ainda mais o acesso de pessoas aos dispendiosos tratamentos de sa\u00fade, num quadro de pandemia, agravando uma realidade j\u00e1 de si dram\u00e1tica. Por isso \u00e9 sem surpresa que estudos t\u00eam conclu\u00eddo que o COVID-19 afectar\u00e1 muito mais, em termos relativos, a popula\u00e7\u00e3o pobre e marginalizada. Este \u00e9 um dos custos de ter o lucro como objectivo primordial. <\/p>\n\n\n\n<p>Foi ent\u00e3o no quadro desta situa\u00e7\u00e3o social, j\u00e1 por si devastadora, que acontecem tr\u00eas epis\u00f3dios que n\u00e3o podem ser considerados de forma isolada. Primeiro, no dia 23 de Fevereiro, Ahmaud Arbery \u00e9 \u201cperseguido como um animal e morto\u201d &#8211; nas palavras da sua m\u00e3e &#8211; enquanto faz jogging no seu bairro da cidade de Brunswick, Ge\u00f3rgia, por um pai e um filho declaradamente racistas. Depois, acontece o caso Amy vs. Christian Cooper em Central Park, Nova Iorque. Neste caso, uma mulher faz uso da sua condi\u00e7\u00e3o de branca para ligar para a pol\u00edcia a descrever \u201cque estava a ser amea\u00e7ada por um afro-americano\u201d quando n\u00e3o \u00e9 nada disso que se v\u00ea nas imagens da grava\u00e7\u00e3o. Para a sociedade americana este epis\u00f3dio foi mais um de exemplo de racismo estrutural em que algu\u00e9m sabe que vai ser beneficiado por ter determinada cor de pele. Por fim, no dia 25 de Maio, George Floyd, um cidad\u00e3o negro, \u00e9 morto, barbaramente, numa interven\u00e7\u00e3o policial em que ele n\u00e3o oferece qualquer tipo de resist\u00eancia. Os seus gritos de dor e desespero enquanto chama pela sua m\u00e3e e o ar lhe falta ecoaram como mais um exemplo de brutalidade policial.<\/p>\n\n\n\n<p>O momento atual n\u00e3o \u00e9 caracterizado s\u00f3 pelo COVID ou por estes tr\u00eas casos relatados. Muito menos est\u00e1 apenas em causa a morte de George Floyd. Est\u00e1 em causa uma sociedade que gera lucros como nenhuma outra, \u00e0 custa daquilo que retira a uma maioria de trabalhadores pobres e marginalizados, gerando desigualdades gritantes. Dito de outra forma, a compensa\u00e7\u00e3o que \u00e9 dada a estes trabalhadores negros, latinos, brancos, asi\u00e1ticos \u00e9 um sal\u00e1rio miser\u00e1vel, a aus\u00eancia total de um Estado que os defenda em condi\u00e7\u00f5es de fragilidade e de doen\u00e7a e ainda o bast\u00e3o policial que persegue alguns deles de forma discriminada. Em suma, \u00e9 neste contexto, em que s\u00e3o necess\u00e1rios cada vez mais pobres americanos para sustentar cada multimilion\u00e1rio, que se criou o caldo para que milh\u00f5es de americanos sa\u00edssem para a rua em pro- testo. O momento atual americano mostra-nos qu\u00e3o discriminat\u00f3ria e injusta \u00e9 uma sociedade que defende unicamente o lucro e que nega valores universais como solidariedade e justi\u00e7a social, em nome da preval\u00eancia do direito de propriedade de um punhado cada vez menor de multimilion\u00e1rios. <\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, importa sublinhar que seria um erro pensar que discrimina\u00e7\u00e3o, desigualdade e racismo s\u00e3o exclusivos da sociedade americana. A sociedade americana neoliberal representa em larga medida aquilo que muitas for\u00e7as pol\u00edticas, de forma mais ou menos encapotada, pretendem implementar em Portugal. De facto, do ponto de vista econ\u00f3mico e social, a privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os de sa\u00fade e a falta de apoios sociais podem agravar-se significativamente por via de uma Uni\u00e3o Europeia que insiste em ser motor de concentra\u00e7\u00e3o de riqueza atrav\u00e9s da sistem\u00e1tica imposi\u00e7\u00e3o de austeridade nos povos do Sul. Por outro lado, mesmo do ponto de vista racial, os atos hediondos contra Floyd e Arbery t\u00eam paralelo em Portugal nos casos de Cl\u00e1udia Sim\u00f5es e Alcindo Monteiro. Pior do que isso. Algum de n\u00f3s sabe o nome do cidad\u00e3o ucraniano alegadamente morto pelos agentes do SEF? Grit\u00e1mos por esse nome? Al\u00e9m destes casos mais graves pod\u00edamos olhar para as milhares de den\u00fancias racistas que em geral caem em saco roto. De facto, ningu\u00e9m pode afirmar de \u00e2nimo leve que estamos melhor que os EUA quando nos \u00faltimos 10 anos, em Portugal, nenhum pol\u00edcia foi condenado por racismo pelas entidades competentes apesar das in\u00fameras queixas. <\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o qual \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o? Fa\u00e7amos do mal que vemos nos outros, o momento para reflectir sobre os problemas que tamb\u00e9m temos. Isso ser\u00e1 o contributo inestim\u00e1vel para corrigirmos as injusti\u00e7as da nossa sociedade. Em muitos casos, somos r\u00e1pidos e astutos, quer individual quer colectivamente, a identificar os erros nos outros. \u00c9 ent\u00e3o o momento de reconhecer o mal que existe em n\u00f3s pr\u00f3prios. E de nos unirmos para fazer do nosso futuro um lugar melhor para se viver. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os focos noticiosos t\u00eam estado centrados nos Estados Unidos da Am\u00e9rica pelos \u00faltimos dias. 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