{"id":3638,"date":"2020-06-15T09:49:14","date_gmt":"2020-06-15T09:49:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3638"},"modified":"2020-06-15T09:49:16","modified_gmt":"2020-06-15T09:49:16","slug":"quando-a-imposic%cc%a7a%cc%83o-do-medo-e-uma-prisa%cc%83o","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/06\/15\/quando-a-imposic%cc%a7a%cc%83o-do-medo-e-uma-prisa%cc%83o\/","title":{"rendered":"Quando a imposic\u0327a\u0303o do medo e\u0301 uma prisa\u0303o"},"content":{"rendered":"\n<p>Quero contar-vos. \u00c9 um desabafo, um vislumbre do que \u00e9 colocar o medo da amea\u00e7a invis\u00edvel \u00e0 frente de tudo mais, o motivo que empurra \u00e0 descren\u00e7a de que as coisas est\u00e3o a ser ponderadas. E a culpa n\u00e3o \u00e9 da DGS. \u00c9 das DGS que s\u00f3 existem nas cabe\u00e7as de pessoas autorit\u00e1rias, insens\u00edveis, amedrontadas e, infelizmente, com poder de decis\u00e3o relativo. Essas pessoas existem um pouco por toda a parte e, se antes j\u00e1 exerciam os seus pequenos poderes sob o medo dos poderes maiores a que est\u00e3o sujeitas, agora exercem-nos tamb\u00e9m sob o medo exacerbado da \u201cpeste\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Iria estar com a minha m\u00e3e ao fim de 74 dias. Tinha-a visto um par de vezes pela janela do 2\u00b0 andar, 4 minutos no total. Ela, que pouco v\u00ea porque \u00e9 cega de um olho e est\u00e1 com uma catarata no outro. Ela, que caiu e partiu uma perna em Outubro e depois de uma ida ao hospital mandaram-na para casa sem que m\u00e9dicos ou enfermeiros dirigissem sequer os olhos na direc\u00e7\u00e3o da perna. Ela, que acabou por voltar ao hospital depois de nova queda um par de dias depois. Ela, que esteve internada e confusa por dois meses. Ela, que sofreu dois AVC sem que o hospital se dignasse a informar a fam\u00edlia. Ela, que foi para uma Unidade de Cuidados Continuados durante um m\u00eas e expulsa com o carimbo de \u201ccumpridos os objectivos terap\u00eauticos &#8211; pode ir para casa e viver sozinha com apoio domicili\u00e1rio e suporte familiar\u201d sem conseguir deitar-se e mal podendo levantar-se e andar. Ela, que foi levada para aquele lar meio \u00e0 pressa, sem possibilidades econ\u00f3micas para outro, sem qualquer apoio. Ela, que ainda se agarrou \u00e0 esperan\u00e7a de ser operada aos olhos para recuperar um pouco a vis\u00e3o e poder desfrutar um pouco da vida atrav\u00e9s dos olhos j\u00e1 que as pernas n\u00e3o funcionam: ler, escrever, desenhar, ver televis\u00e3o, olhar para as pessoas. Ela, que ainda pensou ter fisioterapia a s\u00e9rio para poder recuperar um pouco a mobilidade. Ela, que est\u00e1 h\u00e1 quase dois meses cingida ao espa\u00e7o \u00e0 volta da cama porque n\u00e3o se pode aproximar das outras companheiras de quarto, n\u00e3o consegue ver a televis\u00e3o, est\u00e1 longe da janela, come com o tabuleiro em cima da cama. <\/p>\n\n\n\n<p>Ela estava entusiasmada com a visita e contava os dias. E o dia chegou. Uma visita de 90 minutos. Como aproveitar? O que dizer? Como evitar abra\u00e7os, beijos e festas? Nem sequer me podia aproximar para tentar mostrar-lhe uma foto do neto. Levei a m\u00e1scara cir\u00fargica nova, porque colocaram no regulamento que era obrigat\u00f3rio que fosse cir\u00fargica, ainda que a DGS diga preferencialmente cir\u00fargica. Mas, l\u00e1 est\u00e1, os pequenos poderes resolvem converter recomenda\u00e7\u00f5es, conselhos e sugest\u00f5es em obriga\u00e7\u00f5es e deveres impreter\u00edveis. Aqui conv\u00e9m dizer que, quando n\u00e3o havia m\u00e1scaras no mercado, o lar aceitou as 10 m\u00e1scaras \u201csociais\u201d que lhes levei (com 81%de protec\u00e7\u00e3o), as mesmas que agora n\u00e3o servem para eu visitar a minha m\u00e3e estando a 2 metros de dist\u00e2ncia. Entrei para o min\u00fasculo p\u00e1tio. O ch\u00e3o inundado de \u00e1gua com lix\u00edvia. N\u00e3o me deixaram passar do port\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Trouxeram a minha m\u00e3e para a porta do edif\u00edcio e n\u00e3o a deixaram entrar no p\u00e1tio, ficou a mais de dois metros, tamb\u00e9m ela com m\u00e1scara. E pronto! Ali est\u00e1vamos. Eu na sombra e ela meio na luz. N\u00e3o me via. E tamb\u00e9m ouvia pouco porque ao lado est\u00e3o a decorrer obras. Tiv\u00e9mos de falar muito alto. Eu estava em baixo e a minha m\u00e3e em cima. Entretanto a directora passava continuamente por tr\u00e1s da minha m\u00e3e. Tocaram \u00e0 campa\u00ednha. A directora foi abrir passando entre mim e ela e obrigando-me a desviar a cadeira que me trouxeram e colocaram frente ao port\u00e3o. Tocaram novamente. Foram de novo abrir. Era um carregamento de carne e tiveram de ir buscar umas grades para colocar no ch\u00e3o. Depois carregaram a carne e tiveram de levar a minha m\u00e3e para dentro para poderem passar. Passados 55 minutos dos 90 programados (e referidos pela DGS) para a visita semanal vem a directora dizer que a visita acabou, que tinha de desinfectar tudo para a visita seguinte. Quase nem me despedi. <\/p>\n\n\n\n<p>Agora s\u00f3 h\u00e1 visita para a semana, mais uma hora, e \u00e9 se n\u00e3o chover. Se chover n\u00e3o h\u00e1 visitas. A DGS recomenda espa- \u00e7os exteriores (uma vez mais, recomenda) mas diz que podem ser salas de visita e ali existe uma. Mas cruzes credo que nin- gu\u00e9m pode passar pela porta. Ainda perguntei \u00e0 directora por uma conta de farm\u00e1cia que tinha vindo com o dobro do valor habitual e ela diz-me que n\u00e3o sabe, e que s\u00f3 me diz o que era depois de eu pagar. Tem a minha m\u00e3e como ref\u00e9m. Discuss\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Depois pergunto se j\u00e1 sabe alguma coisa sobre a minha m\u00e3e poder sair para as consultas e exames marcados para Junho (5 no total, todas elas resultando de adiamentos). Arregala os olhos e diz-me que isso n\u00e3o poder\u00e1 ser t\u00e3o cedo. Ou ent\u00e3o ter\u00e1 de ficar em isolamento durante 14 dias num quartinho e aponta para o quartinho que, pelos vistos, fica ao lado da cozinha e tem janela para o min\u00fasculo e escuro p\u00e1tio. A senhora ainda me diz, com ar de profeta da desgra\u00e7a, que isto est\u00e1 muito mal, \u201cem Fran\u00e7a j\u00e1 fecharam as escolas outra vez! 70 casos!\u201d S\u00f3 quando chego a casa percebo que n\u00e3o \u00e9 nada disso, fecharam 70 escolas em 4000, 25 delas por causa de 1 \u00fanico infectado, das outras v\u00e1rias por suspeitas (e nem sei se foram confirmadas). <\/p>\n\n\n\n<p>A estas pessoas n\u00e3o lhes importa que as pessoas morram de fome ou de cansa\u00e7o como as funcion\u00e1rias que est\u00e3o naquele lar internadas a trabalhar de dia e de noite. N\u00e3o lhes importa que morram com problemas card\u00edacos, com AVC, com problemas respirat\u00f3rios que n\u00e3o sejam covid-19, com problemas g\u00e1stricos, com diabetes e muito menos com depress\u00e3o. N\u00e3o lhes importa que as pessoas n\u00e3o voltem a caminhar ou que voltem a ver. N\u00e3o lhes importa que as pessoas andem confusas. N\u00e3o lhes importa que cada pessoa \u00e9 uma hist\u00f3ria, uma raz\u00e3o de ser e sentimentos acumulados. Neste momento s\u00f3 lhes importa ocuparem-se de alimentar o seu medo insano. Isto n\u00e3o \u00e9 responsabilidade, \u00e9 paran\u00f3ia. Como diria o meu irm\u00e3o, o sentido comum costumava ser uma coisa boa. <\/p>\n\n\n\n<p>A minha m\u00e3e e todas as pessoas que ali vivem cometeram o crime de ser idosos, terem problemas de sa\u00fade, n\u00e3o poderem ser aut\u00f3nomos e n\u00e3o terem na fam\u00edlia quem tenha condi\u00e7\u00f5es de os cuidar em casa. \u00c9 um crime violento este de ter vi- vido. E ainda maior \u00e9 o crime de querer continuar a viver de verdade e n\u00e3o num simulacro de exist\u00eancia. Depois viro as costas e saio. Tiro a m\u00e1scara. Respiro. <\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 mais que distanciamento f\u00edsico, mais que distanciamento social. \u00c9 distanciamento, ponto. Por\u00e9m h\u00e1 la\u00e7os que nenhum distanciamento pode quebrar. J\u00e1 estive ligada a esta mulher por um cord\u00e3o umbilical. Devo-lhe a vida. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quero contar-vos. \u00c9 um desabafo, um vislumbre do que \u00e9 colocar o medo da amea\u00e7a invis\u00edvel \u00e0 frente de tudo mais, o motivo que empurra \u00e0 descren\u00e7a de que as coisas est\u00e3o a ser ponderadas. 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