{"id":3617,"date":"2020-06-12T09:34:13","date_gmt":"2020-06-12T09:34:13","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3617"},"modified":"2020-07-06T21:01:50","modified_gmt":"2020-07-06T21:01:50","slug":"as-coletividades-de-cultura-recreio-e-desporto-ontem-hoje-e-amanha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/06\/12\/as-coletividades-de-cultura-recreio-e-desporto-ontem-hoje-e-amanha\/","title":{"rendered":"As coletividades de cultura, recreio e desporto \u2013 ontem, hoje e amanh\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">200 anos de hist\u00f3ria<\/h2>\n\n\n\n<p>Com a Monarquia Liberal \u00e9 criado em Portugal um novo quadro pol\u00edtico, econ\u00f3mico, social e cultural, que viria a revelar-se favor\u00e1vel \u00e0 emerg\u00eancia e crescimento do associativismo popular. As primeiras coletividades procuram encontrar resposta para v\u00e1rias necessidades coletivas prementes: dedicam-se \u00e0 cultura e ao recreio, mas tamb\u00e9m \u00e0 instru\u00e7\u00e3o e at\u00e9 \u00e0 previd\u00eancia. E as popula\u00e7\u00f5es passam a ter acesso a novos e importantes espa\u00e7os de sociabilidade e lazer.<\/p>\n\n\n\n<p>As ent\u00e3o denominadas sociedades de instru\u00e7\u00e3o e recreio apresentam v\u00e1rios tra\u00e7os caracter\u00edsticos: o do interc\u00e2mbio \u2013 era relativamente comum as bandas filarm\u00f3nicas e os grupos teatrais visitarem-se entre si; o da gest\u00e3o democr\u00e1tica; o da exclus\u00e3o das mulheres; e o do interclassismo.<\/p>\n\n\n\n<p>O per\u00edodo da Primeira Rep\u00fablica surge associado a um contexto social muito dif\u00edcil, marcado pela mis\u00e9ria e por balan\u00e7as alimentares pobres e pouco diversificadas. A maioria dos trabalhadores aspirava apenas a sobreviver. O reformismo social fez parte da propaganda republicana, mas a interven\u00e7\u00e3o do Estado foi quase sempre inconsequente, por raz\u00f5es financeiras ou por empecilhos burocr\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 nesta fase que se assistir\u00e1 \u00e0 cria\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o Distrital das Sociedades Populares de Educa\u00e7\u00e3o e Recreio, em 1924 (para se conseguir ter maior influ\u00eancia junto dos poderes p\u00fablicos); bem como \u00e0 introdu\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o e da atividade f\u00edsica nas sociedades de instru\u00e7\u00e3o e recreio. Realidade que \u00e9 acompanhada de um crescente interesse do p\u00fablico popular por algumas modalidades, como o ciclismo, o boxe ou o futebol.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> &#8220;A partir de 1926, s\u00e3o v\u00e1rios os relatos de uma verdadeira ofensiva contra o associativismo livre.&#8221; <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A partir de 1926, s\u00e3o v\u00e1rios os relatos de uma verdadeira ofensiva contra o associativismo livre \u2013 e que se fez sentir, tamb\u00e9m, entre as sociedades de instru\u00e7\u00e3o e recreio. Com o Estado fascista procurarse-\u00e1 fomentar e impor \u00e0 sociedade portuguesa um modelo nacionalista, ruralista e tradicionalista de cultura popular, com o duplo objetivo de legitimar politicamente o regime e de estabelecer um consenso social e cultural em torno de um conjunto de valores, imagens e pr\u00e1ticas culturais.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse modelo foi imposto atrav\u00e9s de medidas e pol\u00edticas p\u00fablicas que demonstram a ambi\u00e7\u00e3o totalizante do regime. O associativismo livre sociocultural foi fortemente limitado por diversos mecanismos, como a rede das casas do povo e a a\u00e7\u00e3o centralizadora da Funda\u00e7\u00e3o Nacional para a Alegria no Trabalho (com claros privil\u00e9gios); e pelo controlo, persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o do meio associativo livre. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O presente<\/h2>\n\n\n\n<p>O quarto per\u00edodo da hist\u00f3ria das coletividades \u00e9 inaugurado com o 25 de Abril de 1974. O novo regime e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1976 criaram um contexto abertamente favor\u00e1vel ao associativismo popular. E o impacto foi fort\u00edssimo. Veja-se, por exemplo, o que aconteceu com a cria\u00e7\u00e3o de novas coletividades \u2013 em 1974 eram 10 mil e hoje s\u00e3o cerca 30 mil.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;O novo regime e a Constitui\u00e7\u00e3o de 1976 criaram um contexto abertamente favor\u00e1vel ao associativismo popular.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>As coletividades s\u00e3o de longe o tipo associativo mais numeroso em Portugal. Est\u00e3o espalhadas em cada canto do pa\u00eds \u2013 das pequenas e remotas aldeias, \u00e0s grandes cidades. E s\u00e3o um pilar da nossa democracia, com efeitos a v\u00e1rios n\u00edveis: no plano social (integra\u00e7\u00e3o e coes\u00e3o sociais, combate ao isolamento, envelhecimento com qualidade); na democratiza\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 cultura e ao desporto; no plano econ\u00f3mico (cria\u00e7\u00e3o de emprego, promo\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio local); no plano do desenvolvimento comunit\u00e1rio (promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade individual e comunit\u00e1ria, constru\u00e7\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es colaborativas, etc.).<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, est\u00e3o confrontadas com v\u00e1rios constrangimentos e amea\u00e7as. Um quadro geral de forte precariedade e desregula\u00e7\u00e3o do tempo de trabalho \u2013 com reflexos ao n\u00edvel do recrutamento de dirigentes e em particular de jovens. O preconceito \u2013 que teima em persistir. Ou a exist\u00eancia de uma legisla\u00e7\u00e3o associativa desajustada, complexa e anacr\u00f3nica.  <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O futuro <\/h2>\n\n\n\n<p>Como ser\u00e3o as coletividades daqui a 10 anos? Ou 20 anos? E daqui a 50 anos? Que papel (e fun\u00e7\u00f5es sociais) assumir\u00e3o no futuro? Ser\u00e3o em maior n\u00famero? Ser\u00e3o mais democr\u00e1ticas? Como ser\u00e1 a coopera\u00e7\u00e3o com as autarquias? E com os servi\u00e7os governamentais?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil dar resposta a tais perguntas. Sem bola de cristal, a an\u00e1lise do futuro \u00e9 sempre um exerc\u00edcio complexo. E discut\u00edvel. Apesar disso, h\u00e1 dois aspetos relativos ao futuro das coletividades que se podem desde j\u00e1 referenciar: <\/p>\n\n\n\n<p>a) As coletividades n\u00e3o vivem isoladas das comunidades onde est\u00e3o inseridas. E n\u00e3o vivem desligadas da realidade nacional e internacional (contexto pol\u00edtico, econ\u00f3mico, social e cultural). <\/p>\n\n\n\n<p>b) Mas isso n\u00e3o significa que o futuro seja ditado apenas pelo que vem de fora \u2013 pelo contexto externo. A vontade dos associados e dos dirigentes, a sua vis\u00e3o, o seu querer e o seu trabalho s\u00e3o tamb\u00e9m uma vari\u00e1vel fundamental.<\/p>\n\n\n\n<p>E isso conduz-nos a uma primeira conclus\u00e3o. O futuro das coletividades ser\u00e1 talhado (em grande medida) pela rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre essas duas realidades: o contexto externo e a realidade interna.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que \u00e9 que sabemos sobre o contexto externo? Entre muitas outras coisas, sabemos o que disp\u00f5e a Constitui\u00e7\u00e3o Portuguesa. A nossa Constitui\u00e7\u00e3o aponta um caminho claro: \u201cA Rep\u00fablica Portuguesa \u00e9 um Estado de direito democr\u00e1tico (\u2026) visando a realiza\u00e7\u00e3o da democracia econ\u00f3mica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa\u201d (artigo 2.\u00ba). E reconhece o papel das coletividades na constru\u00e7\u00e3o dessa mesma democracia: compete-lhes colaborar com o Estado e outras entidades na promo\u00e7\u00e3o do acesso por todos quer \u00e0 cultura, quer ao desporto (artigos 73.\u00ba e 79.\u00ba); e compete-lhes tamb\u00e9m intervir ativamente na vida administrativa local (artigo 263.\u00ba).<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Pode dizer-se que o futuro das coletividades surge estreitamente imbricado com o futuro do pa\u00eds. &#8220;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aqui chegados, pode dizer-se que o futuro das coletividades surge estreitamente imbricado com o futuro do pa\u00eds. As coletividades t\u00eam (e podem ter ainda mais) um papel importante no aprofundamento da democracia em Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>E o que \u00e9 que sabemos sobre o contexto interno das coletividades? Sabemos que t\u00eam pontos fortes: s\u00e3o a maior rede social do pa\u00eds \u2013 e a entidade coletiva mais pr\u00f3xima das pessoas; s\u00e3o uma escola de cidadania e um exemplo de democracia; e s\u00e3o particularmente resilientes. Mas t\u00eam tamb\u00e9m alguns pontos fracos: por exemplo, a fr\u00e1gil coes\u00e3o e interliga\u00e7\u00e3o internas; o conservadorismo; ou a fraca participa\u00e7\u00e3o de jovens e de mulheres em fun\u00e7\u00f5es dirigentes.<\/p>\n\n\n\n<p>A consci\u00eancia dessa realidade coloca alguns desafios importantes. Para participarem na constru\u00e7\u00e3o de uma democracia avan\u00e7ada \u2013 ou de alta intensidade \u2013 \u00e9 fundamental que as coletividades n\u00e3o se coloquem apenas numa posi\u00e7\u00e3o de amortecedor de problemas. Devem assumir cada vez mais um papel ativo e consciente na transforma\u00e7\u00e3o da sociedade \u2013 e na constru\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais justa. E precisam tamb\u00e9m de estar pr\u00f3ximas e unidas \u2013 trabalhando em parceria e no fortalecimento das suas estruturas representativas. S\u00f3 assim ter\u00e3o a for\u00e7a suficiente para serem obreiras do seu futuro \u2013 e do futuro do pa\u00eds.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>200 anos de hist\u00f3ria Com a Monarquia Liberal \u00e9 criado em Portugal um novo quadro pol\u00edtico, econ\u00f3mico, social e cultural, que viria a revelar-se favor\u00e1vel \u00e0 emerg\u00eancia e crescimento do associativismo popular. 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