{"id":3500,"date":"2020-05-11T09:48:03","date_gmt":"2020-05-11T09:48:03","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3500"},"modified":"2020-05-11T09:48:06","modified_gmt":"2020-05-11T09:48:06","slug":"da-bahia-a-portugal-a-faca-no-prato-e-o-cravo-ao-peito","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/05\/11\/da-bahia-a-portugal-a-faca-no-prato-e-o-cravo-ao-peito\/","title":{"rendered":"Da Bahia a Portugal: a faca no prato e o cravo ao peito"},"content":{"rendered":"\n<p>O nordeste brasileiro, mais concretamente o estado da Bahia, guarda, nos seus quotidianos, segredos que n\u00e3o caberiam na extens\u00e3o das palavras poss\u00edveis mas, entre eles, um h\u00e1bito bonito de dizer o que h\u00e1 para dizer, fazendo uso dos ve\u00edculos mais simples. <\/p>\n\n\n\n<p>Seja no meio da rua, na beira da praia, no jardim p\u00fablico, na sala ou no quintal de algu\u00e9m, basta que se jun- te um punhado de pessoas para que surja m\u00fasica e, com ela, a mais subtil forma de protesto atrav\u00e9s da alegria. <\/p>\n\n\n\n<p>Dispostos a partir de uma roda central, as pessoas tocam, batem palmas, cantam, e sobretudo dan\u00e7am, aparentemente indiferentes \u00e0 passagem do tempo. Os lugares parecem transformar-se progressivamente em altares onde cada corpo faz o seu culto e cada voz a sua ora\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das manifesta\u00e7\u00f5es musicais serem de uma diversidade ampla, s\u00e3o sobretudo comuns as rodas de samba ou samba de roda. Os presentes percebem como se tratam de palavras t\u00e3o novas quanto antigas, s\u00e3o m\u00fasicas que se tocam desde 1850 e que cont\u00eam a miscigena\u00e7\u00e3o absoluta daquelas pessoas. <\/p>\n\n\n\n<p>Aprendi que se divide em duas formas, o samba chula e o samba corrido. Se for samba chula, ningu\u00e9m dan\u00e7a enquanto \u00e9 declamada a chula (uma poesia) e depois de dita, uma pessoa de cada vez ocupa o centro da roda, ao som dos instrumentos e das palmas. Se for samba corrido, todos dan\u00e7am, enquanto se alternam as vozes que cantam. <\/p>\n\n\n\n<p>As rodas de samba que por l\u00e1 pude ver foram anz\u00f3is certeiros \u00e0 minha aten\u00e7\u00e3o. E posteriormente conservada no sal grosso dos sons quentes e esperan\u00e7osos que ouvi, fez com que me dedicasse a procurar o que fosse poss\u00edvel encontrar sobre estes momentos. Foi assim que tropecei na voz de Dona Edith do Prato, amiga \u00edntima de Dona Can\u00f4 e ama de leite dos irm\u00e3os Veloso (sim, a Beth\u00e2nia e o Caetano). <\/p>\n\n\n\n<p>Edith do Prato tocava todas as suas m\u00fasicas fazendo soar uma faca a bater num prato. Apesar de serem m\u00fasicas do dom\u00ednio popular, ela cunhava-as com um tra\u00e7o de singular maestria e acabou por grav\u00e1-las numa colect\u00e2nea com o coral Vozes da Purifica\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m podemos ouvi-la no \u00e1lbum de 1973, Ara\u00e7\u00e1 Azul, de Caetano Veloso com a m\u00fasica Viola meu bem, ou na chula Filosofia Pura, que gravou para o \u00e1lbum Ciclo de Maria Beth\u00e2nia, em 1983. Assim, ouvi-la n\u00e3o ser\u00e1 tarefa demasiado dif\u00edcil, basta uma r\u00e1pida procura que se encontrar\u00e1 o tesouro. <\/p>\n\n\n\n<p>O que sem d\u00favida se pode reter \u00e9 a extraordin\u00e1ria capacidade de fazer do corpo e da voz ve\u00edculos insubstitu\u00edveis de protesto e combatividade. Um protesto alegre mas simultaneamente profundo e afado &#8211; nenhuma afi\u00e7\u00e3o se det\u00e9m na garganta, mas s\u00e3o antes expostas e exaltadas pelo grupo que toca, canta e dan\u00e7a. <\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 casual que no samba-protesto se pousem, por estes \u00faltimos dias de Abril, os pensamentos. Foi justamente a convoca\u00e7\u00e3o dessa alegria, da necess\u00e1ria confian\u00e7a no porvir e na for\u00e7a do colectivo que nos trouxe \u00e0 janela para cantar a Gr\u00e2ndola Vila Morena do Jos\u00e9 Afonso, no dia 25. <\/p>\n\n\n\n<p>Transportados pela mesma exalta\u00e7\u00e3o e urg\u00eancia de\ntransforma\u00e7\u00e3o social de h\u00e1 46 anos atr\u00e1s, cada um de\nn\u00f3s p\u00f4de, desta forma, reduzir dist\u00e2ncias e unir a sua\ncentelha e comprometimento aos demais.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Cantar a m\u00fasica que no passado foi senha, serviu certamente para que lhe tenhamos renovado os votos. Votos de um sentido de justi\u00e7a comum que a cada ano que passa parece aumentar a sua aus\u00eancia, deste cantinho de terra com brisa de mar. <\/p>\n\n\n\n<p>Que seja pois alegre e confiante no porvir, a luta t\u00e3o\nnecess\u00e1ria.\n<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O nordeste brasileiro, mais concretamente o estado da Bahia, guarda, nos seus quotidianos, segredos que n\u00e3o caberiam na extens\u00e3o das palavras poss\u00edveis mas, entre eles, um h\u00e1bito bonito de dizer o que h\u00e1 para dizer, fazendo uso dos ve\u00edculos mais simples. 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