{"id":3341,"date":"2020-04-09T13:28:22","date_gmt":"2020-04-09T13:28:22","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3341"},"modified":"2020-05-11T09:43:42","modified_gmt":"2020-05-11T09:43:42","slug":"o-tempo-que-passa-e-as-sopa-de-pedra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/04\/09\/o-tempo-que-passa-e-as-sopa-de-pedra\/","title":{"rendered":"O tempo que passa e as Sopa de Pedra"},"content":{"rendered":"\n<p>Abro com cuidado a caixa de madeira. \u00c9 certo que a rela\u00e7\u00e3o com os objectos se tem alterado estruturalmente nos \u00faltimos anos e \u00e9 hoje cada vez mais estreito o caminho que usamos para aceder \u00e0 m\u00fasica, por exemplo. J\u00e1 n\u00e3o precisamos do vinil, da cassete ou do cd para ouvir as m\u00fasicas que comp\u00f5em a passagem pelo dia \u2013 mas precisar nunca me pareceu um verbo simples de conjugar. <\/p>\n\n\n\n<p>Eu preciso dos meus vinis, cassetes e cd&#8217;s porque mais do que as m\u00fasicas que cont\u00eam s\u00e3o imprescind\u00edveis \u00e0 composi\u00e7\u00e3o da <em>arca do tesouro<\/em> que teimo em construir ao meu redor. A ordem das m\u00fasicas, a imagem na capa ou a fonte tipogr\u00e1fica escolhida, n\u00e3o s\u00e3o elementos casuais, e moldam eles mesmos a forma como se ouve o que se ouve. <br><br>Esta \u00e9 uma caixa de madeira que abro com todo o cuidado porque dentro tem o \u00fanico disco editado at\u00e9 \u00e0 data pelas Sopa de Pedra, grupo portugu\u00eas de cantares e encantamentos, de hoje e de outros tempos.<br>S\u00e3o mulheres, dez, amigas, s\u00e3o fam\u00edlia. Cantam desde que eram pequeninas. <br><br>Coleccionam cantigas guardadas em lugares diferentes: desde a <em>Antologia da m\u00fasica regional portuguesa <\/em>(de Fernando Lopes Gra\u00e7a e Michel Giacometti), da s\u00e9rie da RTP <em>Povo que canta <\/em>(igualmente de Giacometti e de Alfredo Tropa), das recolhas de Domingos Morais, dos Almanaque, dos GAC e de v\u00e1rios e preciosos cantautores portugueses como Jos\u00e9 Afonso, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, Am\u00e9lia Muge, Jo\u00e3o L\u00f3io e outros. Cantam de ouvido mas tamb\u00e9m comp\u00f5em, com uma estranha sabedoria considerando a idade tenra dos seus corpos.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9 o fosso incontorn\u00e1vel com que nos deparamos frente ao trabalho destas mulheres \u2013 cantam palavras de tempos que j\u00e1 passaram, fazendo deles p\u00e3o quentinho para o dia de hoje. Esta capacidade impressionante leva-nos a explorar territ\u00f3rios do pa\u00eds, territ\u00f3rios dos sentidos, do trabalho, do grito do povo, do sussurro dos animais pequenos.&nbsp;  <\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 agora editaram apenas este disco que <em>ao longe j\u00e1 se ouvia <\/em>e que seguro entre as m\u00e3os, dentro desta caixa de madeira crua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O disco traz dentro onze cantigas que ouvimos de uma assentada e que, chegadas ao fim, voltamos a fazer soar numa curiosa sensa\u00e7\u00e3o de vida com banda sonora. Cantigas com tamanhos interiores de gente, cantigas companhia, cantigas desafio, cantigas para abra\u00e7ar um amigo, cantigas para rir com ele, cantigas que come\u00e7am o dia e que o acabam, porque t\u00eam uma meiguice solar e lunar. <\/p>\n\n\n\n<p>Podemos comprar o \u00e1lbum atrav\u00e9s das plataformas digitais e na loja online da <a href=\"http:\/\/www.turbina.org\/loja\/sopadepedra-aolongejaseouvia\">turbina<\/a> mas, como os objectos t\u00eam os seus des\u00edgnios, nada melhor do que poder segurar esta caixa, tentar acompanhar os cantares com os cart\u00f5es que trazem as letras, e sentir o tesouro materializado. <\/p>\n\n\n\n<p>Por estes dias as Sopa de Pedra t\u00eam semeado um disco de vinil que surge de uma parceria com a Oficina Arara e que dar\u00e1 frutos breves \u2013 <em>do claro ao breu<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAs composi\u00e7\u00f5es deste disco s\u00e3o o resultado da musicaliza\u00e7\u00e3o de narrativas visuais propostas por artistas colaboradores &#8211; Artur Campos e coletivo Oficina Arara. As pe\u00e7as originadas complementam-se, como a noite e o dia, e os ambientes musicais deambulam entre contrastes: temas diurnos e luminosos &#8211; as m\u00e3os, os frutos, as esta\u00e7\u00f5es, a liga\u00e7\u00e3o \u00e0 terra e aos ciclos; e temas noturnos e obscuros &#8211; medos e supersti\u00e7\u00f5es, tempestades, o fogo e as festas pag\u00e3s. Os textos prov\u00eam de poesia que assenta no imagin\u00e1rio popular portugu\u00eas, explorando esta refer\u00eancia por meio da palavra, da textura do som, do sil\u00eancio, o que juntamente com a explora\u00e7\u00e3o do espectro sonoro e instrumental da voz levou \u00e0 cria\u00e7\u00e3o de sonoridades pl\u00e1sticas n\u00e3o habituais em Sopa de Pedra\u201d &#8211; disse-nos In\u00eas Campos, uma das dez mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Este momento social desafiante, que tem tido impactos pesados no quotidiano das personagens da nossa vida cultural e art\u00edstica, relembra-nos a import\u00e2ncia de procurarmos as preciosidades que nos fazem ser gente, de nos cultivarmos pelo lado de dentro e de nos aproximarmos do desafio superior lan\u00e7ado por Karl Marx nos <em>Manuscritos Econ\u00f3mico-Filos\u00f3ficos, <\/em>o da \u201csociedade plenamente constitu\u00edda que produz o homem em toda a plenitude do seu ser, o homem rico dotado de todos os sentidos, como uma realidade permanente\u201d.<br> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Abro com cuidado a caixa de madeira. \u00c9 certo que a rela\u00e7\u00e3o com os objectos se tem alterado estruturalmente nos \u00faltimos anos e \u00e9 hoje cada vez mais estreito o caminho que usamos para aceder \u00e0 m\u00fasica, por exemplo. 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