{"id":3308,"date":"2020-04-02T15:37:58","date_gmt":"2020-04-02T15:37:58","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3308"},"modified":"2020-04-02T18:38:23","modified_gmt":"2020-04-02T18:38:23","slug":"o-prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/04\/02\/o-prazer\/","title":{"rendered":"O Prazer"},"content":{"rendered":"\n<p>Na dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o de rostos humanos \u00e0 nossa volta, reencontramo-nos com filmes e livros, rabiscos e cadernos, vinis, cd\u2019s, e as possibilidades infinitas que ficam \u00e0 dist\u00e2ncia de um click. Partilh\u00e1-los pode bem ser o melhor recurso de redu\u00e7\u00e3o desta dist\u00e2ncia imposta e atrevo-me por isso, a faz\u00ea-lo. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando nos colocamos frente a um filme estabelecemos um dos mais reais paralelismos com a condi\u00e7\u00e3o do humano frente \u00e0 vida. Estamos dispon\u00edveis para o por vir, queremos conhecer as personagens, perceber onde se movem, de onde vieram &#8211; por vezes ligamo-nos a elas com uma profundidade tal, que seria estranha perante qualquer outra situa\u00e7\u00e3o do universo do n\u00e3o-real. Estamos dispon\u00edveis, atentos, prontos para o desconhecido, expostos \u00e0 probabilidade de sermos tocados, aceitantes das consequ\u00eancias possivelmente irrevers\u00edveis que determinado filme possa ter sobre a vida que continuar\u00e1 depois de o vermos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por princ\u00edpio vejo filmes no cinema. Mas, se por motivo de grande infort\u00fanio, nos virmos perante um pequeno ecr\u00e3 do computador e se instalar a indecis\u00e3o sobre qual deve ser, pode aplicar-se um golpe normalmente fatal: escolher um cl\u00e1ssico.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>Quando nos colocamos frente a um filme estabelecemos um dos mais reais paralelismos com a condi\u00e7\u00e3o do humano frente \u00e0 vida.   <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Foi precisamente este o cen\u00e1rio que me p\u00f4s frente-a-frente com Le Plaisir (O Prazer) realizado por Max Oph\u00fcls, de 1952, a preto e branco.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o descreverei exaustivamente o filme porque estaria a cometer a terr\u00edvel injusti\u00e7a de privar-vos da experi\u00eancia total que nele, atrav\u00e9s dele, podem ter. Mas na tentativa de agu\u00e7ar a vontade penso ser poss\u00edvel legend\u00e1-lo como um mergulho profundo na alma e no h\u00e1bito dos humanos com uma fresca apar\u00eancia de superficialidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos meus olhos, Oph\u00fcls consegue elevar a sua adapta\u00e7\u00e3o de tr\u00eas contos de Guy de Maupassant ao expoente supremo da beleza justamente por expor a natureza contradit\u00f3ria e fal\u00edvel das pessoas atrav\u00e9s de um incr\u00edvel sentido de humor.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira hist\u00f3ria marca o compasso. Instala-se a festa, dos olhos \u00e0s part\u00edculas mais min\u00fasculas do organismo, e conquistada a nossa aten\u00e7\u00e3o somos logo confrontados com o primeiro exemplo de contradi\u00e7\u00e3o, d\u00fa- vida e fragilidade dos Homens \u2013 a passagem da vida e o envelhecimento, a festa que continua para outros mas n\u00e3o para n\u00f3s, os que envelhecemos entretanto. Oph\u00fcls consegue que este seja um confronto feliz \u2013 ficamos felizes porque a festa continuou.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a vida alegre e r\u00e1pida continuou, pode iniciar-se a segunda hist\u00f3ria, temos entusiasmo para v\u00ea-la. Novamente Oph\u00fcls nivela com igualdade este mundo t\u00e3o desigual, sentando lado-a-lado homens que s\u00f3 se sentariam com igualdade nestas mesmas circunst\u00e2ncias \u2013 a circunst\u00e2ncia da carne, do desejo e da satisfa\u00e7\u00e3o. O grupo de prostitutas que alenta os destinos da cidade deixou de portas fechadas a sua casa \u2013 o motivo? \u201cpor motivo de primeira-comunh\u00e3o\u201d &#8211; n\u00e3o s\u00e3o palavras minhas, foram as que deixaram escritas \u00e0 porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Todas as perip\u00e9cias de absoluta beleza culminam no momento dessa cerim\u00f3nia, no qual as l\u00e1grimas de um grupo dessas sumamente exploradas mulheres, contagia todos os presentes na igreja (independentemente da sua origem de classe) e se cria assim, com um tra\u00e7o impressionista, o apogeu da comunh\u00e3o e da partilha entre iguais.<\/p>\n\n\n\n<p>Oph\u00fcls confronta primeiro \u201co prazer e o amor\u201d, depois o \u201cprazer e a pureza\u201d para terminar com o confronto entre \u201co prazer e a morte\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira e r\u00e1pida hist\u00f3ria aparece como um c\u00edrculo dentro de um c\u00edrculo. O limite do amor, do n\u00e3o-amor e do reaparecimento do amor, o fim que se faz princ\u00edpio \u2013 a morte que planta mais do que ceifa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMaria, acabar o texto com morte, pode deixar os leitores tristes&#8230;\u201d &#8211; sim, posso responder-vos com a \u00faltima frase do filme &#8211; \u201ca felicidade n\u00e3o \u00e9 alegre\u201d.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este foi um Mar\u00e7o diferente, Abril tamb\u00e9m o ser\u00e1, provavelmente. Os recentes eventos trouxeram muitos de n\u00f3s para o interior do espa\u00e7o dom\u00e9stico e esse confronto com as paredes de casa pode ter-nos remetido para uma visita atenta a conte\u00fados do passado que por c\u00e1 andavam desorganizadamente organizados. <\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":3309,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[48],"tags":[],"coauthors":[125],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3308"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3335,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions\/3335"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3309"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3308"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=3308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}