{"id":3255,"date":"2020-04-02T14:19:49","date_gmt":"2020-04-02T14:19:49","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3255"},"modified":"2020-08-19T14:23:38","modified_gmt":"2020-08-19T14:23:38","slug":"lenine-em-tempos-de-covid-19","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/04\/02\/lenine-em-tempos-de-covid-19\/","title":{"rendered":"L\u00e9nine em tempos de Covid-19"},"content":{"rendered":"\n<p>Mas o que L\u00e9nine nos exigiria, no esteio de Marx, \u00e9 que dedic\u00e1ssemos os nossos esfor\u00e7os ao tempo em que vivemos e \u00e0 an\u00e1lise concreta da realidade concreta, tendo em conta que \u00abos homens sempre foram em pol\u00edtica v\u00edtimas ing\u00e9nuas do engano dos outros e do pr\u00f3prio e continuar\u00e3o a s\u00ea-lo enquanto n\u00e3o aprendem a descobrir por tr\u00e1s de todas as frases, declara\u00e7\u00f5es e promessas morais, religiosas, pol\u00edticas e sociais, os interesses de uma ou de outra classe.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Que dist\u00e2ncia quilom\u00e9trica vai desta vis\u00e3o de L\u00e9nine \u00e0 reaccion\u00e1ria rezinguice contra o povo em que trope\u00e7amos tantas vezes, ou \u00e0s ut\u00f3picas ilus\u00f5es sociais-democratas sobre a concilia\u00e7\u00e3o de classes (o \u00abp\u00e2ntano\u00bb, como lhe chamou).<\/p>\n\n\n\n<p>Olhemos para esta crise, desde logo para os seus aspectos mais imediatos, mais percept\u00edveis: a Galp a distribuir dividendos e a despedir trabalhadores por \u201cnecessidade\u201d; a EDP a fazer an\u00fancios fofos, mas sem reduzir as tarifas que oprimem empresas e fam\u00edlias; milhares de trabalhadores a serem despedidos sem que o Governo o reconhe\u00e7a, por estarem dentro de per\u00edodo experimental, por serem subcontratados ou por estarem a prazo; os donos dos hipermercados a ganharem fortunas com o trabalho (e agora o risco) dos seus trabalhadores mal pagos.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas sublinhemos igualmente o que ela revela, o papel essencial do trabalho, da produ\u00e7\u00e3o material: um mundo de her\u00f3is que agora \u00e9 redescoberto, do caixa de supermercado \u00e0s mulheres da limpeza, do oper\u00e1rio agr\u00edcola ao condutor de autocarros, do auxiliar de sa\u00fade ao carteiro, sem esquecer os que nas f\u00e1bricas mant\u00e9m o mundo a funcionar, e sublinhemos a dimens\u00e3o colectiva da coisa, o her\u00f3i colectivo que \u00e9 a classe oper\u00e1ria e todos os trabalhadores, fonte de toda a riqueza, de toda a satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades humanas. Apontemos o exemplo do Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade, conquista de Abril que h\u00e1 40 anos defendemos contra a progressiva mercantiliza\u00e7\u00e3o da sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhemos e procuremos que outros olhem mais longe: para o modo de produ\u00e7\u00e3o, para a forma como este submete o trabalho, a produ\u00e7\u00e3o e o acesso a bens e servi\u00e7os \u00e0 satisfa\u00e7\u00e3o das necessidades do capital (multiplica\u00e7\u00e3o, concentra\u00e7\u00e3o e centraliza\u00e7\u00e3o) e n\u00e3o das necessidades humanas; que a resposta \u00e0s necessidades humanas \u00e9 a socializa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a mercantiliza\u00e7\u00e3o; que a propriedade social dos meios de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 uma necessidade hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>E \u00e0queles que comecem a divisar a necessidade de superar o capitalismo, ajudemo-los a perceber que \u00abtoda a institui\u00e7\u00e3o velha, por mais b\u00e1rbara e apodrecida que pare\u00e7a, se mant\u00e9m pela for\u00e7a de umas ou de outras classes dominantes.\u00bb<\/p>\n\n\n\n<p>Apontemos as velhas taras ao capitalismo, sem passar ao lado das formas mais ou menos democr\u00e1ticas que adoptam os Estados mais ou menos democr\u00e1ticos que permitem e legalizam a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o de milh\u00f5es. \u00c9 que o poder das classes dominantes assenta em bases muito concretas, desde logo no dom\u00ednio do Estado, instrumento da domina\u00e7\u00e3o de uma classe sobre outras, mas tamb\u00e9m no poder do capital acumulado, na quantidade de coisas e pessoas que o dinheiro permite comprar, bem como o poder que adv\u00e9m da propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o e dos instrumentos de domina\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p>\u00abE para vencer a resist\u00eancia dessas classes s\u00f3 h\u00e1 um meio: encontrar na pr\u00f3pria sociedade que nos rodeia, educar e organizar para a luta, os elementos que possam &#8211; e, pela sua situa\u00e7\u00e3o social, devam &#8211; formar a for\u00e7a capaz de varrer o velho e criar o novo.\u00bb <\/p>\n\n\n\n<p>Esta crise, como todas, deixou mais \u00e0 vista todas as insan\u00e1veis contradi\u00e7\u00f5es da sociedade capitalista. Mas quando ela passar, para os trabalhadores, tudo continuar\u00e1 como est\u00e1 ou ficar\u00e1 ainda pior. Disso se encarregar\u00e3o as classes dominantes, que usar\u00e3o o seu dom\u00ednio para salvaguardar os seus privil\u00e9gios \u00e0 custa dos nossos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ou n\u00e3o. \u00c9 sempre poss\u00edvel que desta vez n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque inevitavelmente (mas n\u00e3o inevitavelmente amanh\u00e3): da resist\u00eancia e da luta surgir\u00e1 a oportunidade para novamente colocar a hist\u00f3ria a avan\u00e7ar; da capacidade e criatividade das massas surgir\u00e3o as formas concretas que adoptar\u00e3o esses avan\u00e7os no s\u00e9culo XXI; novamente soar\u00e1 e ser\u00e1 seguida a palavra de ordem certa no momento certo, tal como aconteceu em Abril de 1917, quando L\u00e9nine apontou \u00abTodo o poder aos Sovietes!\u00bb. <\/p>\n\n\n\n<p>(Todas as cita\u00e7\u00f5es entre aspas s\u00e3o de L\u00e9nine) <\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os 150 anos do nascimento de L\u00e9nine acontecer\u00e3o a 22 de Abril, em pleno desenvolvimento da crise pand\u00e9mica do COVID-19, que ter\u00e1 um natural impacto sobre as comemora\u00e7\u00f5es. Em Portugal, o PCP j\u00e1 adiou a Confer\u00eancia que tinha previsto realizar, e na R\u00fassia, o vasto programa de comemora\u00e7\u00f5es foi transferido para Novembro. Fica o registo.<\/p>\n","protected":false},"author":37,"featured_media":3256,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[52],"tags":[],"coauthors":[119],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3255"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/37"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3255"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3255\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3834,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3255\/revisions\/3834"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3256"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3255"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3255"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3255"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=3255"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}