{"id":3217,"date":"2020-04-02T11:53:17","date_gmt":"2020-04-02T11:53:17","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3217"},"modified":"2020-04-28T12:05:38","modified_gmt":"2020-04-28T12:05:38","slug":"pandemia-e-pretexto-para-abusos-laborais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/04\/02\/pandemia-e-pretexto-para-abusos-laborais\/","title":{"rendered":"Pandemia \u00e9 pretexto para abusos laborais"},"content":{"rendered":"\n<p> \u201cJ\u00e1 ouviram falar daquele tipo que caiu de um arranha-c\u00e9us? \u00c0 medida que ia passando por cada andar, repetia para se tranquilizar: \u2018at\u00e9 aqui tudo bem, at\u00e9 aqui tudo bem, at\u00e9 aqui tudo bem. O importante n\u00e3o \u00e9 a queda mas como se aterra\u2019\u201d. Quem viu a entrada de \u00d3dio, o ic\u00f3nico filme de Mathieu Kassovitz, durante a d\u00e9cada de 90, pode ilustrar com estas palavras a forma como as autoridades portuguesas e europeias olharam para a avalanche epid\u00e9mica que come\u00e7ou na China, sem lhe dar grande import\u00e2ncia. Praticamente dois meses depois de a ministra da Agricultura ter dito que o coronav\u00edrus podia ter \u201cconsequ\u00eancias bastante positivas\u201d para as exporta\u00e7\u00f5es portuguesas no setor agroalimentar\u201d, a CGTP-IN denuncia uma verdadeira hecatombe laboral e exige da parte do governo medidas para parar a onda de abusos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Costa n\u00e3o quis proibir os despedimentos, apesar de serem j\u00e1 v\u00e1rios os pa\u00edses onde esta medida foi implementada. Os governos de It\u00e1lia e Espanha, com um elevado n\u00famero de mortos, foram os primeiros. A Venezuela tomou a mesma decis\u00e3o e at\u00e9 o Papa Francisco condenou a vaga de despedimentos. <\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Despedimentos em Viana do Castelo <\/h2>\n\n\n\n<p>Ainda antes da declara\u00e7\u00e3o do estado de emerg\u00eancia por parte do Presidente da Rep\u00fablica, depois de aprovado na Assembleia da Rep\u00fablica, com o apelo do governo ao isolamento e ao teletrabalho, foram muitas as empresas que aproveitaram o momento para despedir. Foi o caso da Fnac, em Viana do Castelo, que decidiu cortar o v\u00ednculo contratual com tr\u00eas trabalhadores. Dias depois, despediu mais tr\u00eas dos seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 o caso de Joana Lemos (nome fict\u00edcio) que denunciou \u00e0 A Voz do Oper\u00e1rio que estava com um contrato por tempo indeterminado, com per\u00edodo experimental de 180 dias. Com 32 anos de idade, nunca tinha tido qualquer problema com a empresa francesa. \u201cNo dia 13 de mar\u00e7o, foram dispensados tr\u00eas trabalhadores, um em regime de full time e dois e part time, com a justifica\u00e7\u00e3o da quebra de vendas, devido \u00e0 pandemia do Covid-19\u201d, descreve. Contudo, fomos convidados a trabalhar at\u00e9 ao dia 10 de abril na loja, sem condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, cumprindo assim os 180 dias do per\u00edodo experimental. Nesse mesmo dia, de acordo com Joana Lemos, alguns colegas dos seus colegas com v\u00ednculo efetivos \u201cforam convidados a antecipar f\u00e9rias e a usar o banco de horas que tinham dispon\u00edvel\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda neste setor, esta trabalhadora explicou que h\u00e1 mais gente neste centro comercial a sofrer diversos tipos de abuso e sublinhou que, apesar de haver uma circular a recomendar a redu\u00e7\u00e3o do hor\u00e1rio de abertura das lojas, a Fnac foi das poucas que n\u00e3o alterou o per\u00edodo de funcionamento. \u201cNo mesmo dia em que anunciaram que \u00edamos ser despedidos e em que \u00e9ramos praticamente a \u00fanica loja aberta no centro comercial, no final do dia foi-nos enviado um e-mail intitulado \u2018vencer o desafio coronav\u00edrus\u2019, em que nos era pedido uma atitude positiva e respons\u00e1vel, \u00e2nimo e for\u00e7a para juntos ultrapassarmos esta fase\u201d, recordou. \u201cEste aproveitamento num momento de cat\u00e1strofe social por parte das grandes empresas \u00e9 sujo e altamente vergonhoso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na forma\u00e7\u00e3o inicial, contou Joana Lemos, assistiram a uma breve apresenta\u00e7\u00e3o da empresa na qual se referiram \u201ccom orgulho\u201d os milh\u00f5es de lucro. \u201cAgora, despedem seis das pessoas que ouviram essas mesmas palavras com o pretexto da redu\u00e7\u00e3o do consumo dos produtos vendidos face \u00e0 crise pand\u00e9mica com a ideia que n\u00e3o h\u00e1 outro rem\u00e9dio. \u00c9 revoltante sentir na pele que somos n\u00fameros nesses milh\u00f5es, a somar ou a retirar conforme lhes convenha. A FNAC vende a ideia de que trata e v\u00ea os seus trabalhadores de forma diferente das grandes empresas concorrentes, o que n\u00e3o corresponde, como visto, de todo, \u00e0 realidade\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m este shopping de Viana do Castelo aderiu \u00e0 onda de protestos que percorreu v\u00e1rios centro comerciais em todo o pa\u00eds contra a falta de condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a. \u201cNa Fnac, apenas foram colocados dois frascos de desinfetante na \u00e1rea social dos trabalhadores, bem como uma caixa de luvas. Contudo, quando uma colega decidiu colocar luvas durante o per\u00edodo de trabalho foi interpelada por uma superior que lhe chamou a aten\u00e7\u00e3o para o mau aspeto que fazia transparecer o seu uso. Dias depois foram colocados cartazes informativos na loja acerca da dist\u00e2ncia de seguran\u00e7a que muitas das vezes n\u00e3o foi cumprida por parte dos clientes, deixando-nos numa posi\u00e7\u00e3o de total impot\u00eancia e desconforto\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Falta de material de prote\u00e7\u00e3o<\/h2>\n\n\n\n<p>Mas s\u00e3o in\u00fameros os casos em todo o pa\u00eds de empresas que priorizam a produ\u00e7\u00e3o ainda que isso ponha em risco a sa\u00fade dos seus trabalhadores. \u00c9 o caso, por exemplo, da Embraer, em \u00c9vora, que at\u00e9 ao fecho desta edi\u00e7\u00e3o se mantinha a laborar sem precaver as recomenda\u00e7\u00f5es da Dire\u00e7\u00e3o Geral da Sa\u00fade. \u00c0 Voz do Oper\u00e1rio, um dos trabalhadores, que escolheu falar sob anonimato, denunciou que se mant\u00eam as fun\u00e7\u00f5es que n\u00e3o podem ser realizadas sem m\u00e1scara. Nos dois complexos fabris de comp\u00f3sitos e met\u00e1licos, continuam a trabalhar cerca de 300 oper\u00e1rios, menos os que t\u00eam filhos em casa, e este trabalhador defende que se a Embraer n\u00e3o quer parar a produ\u00e7\u00e3o, \u201cdevia pelo menos meter a f\u00e1brica a 50%\u201d. De acordo com este oper\u00e1rio, o ambiente \u00e9 de \u201cmedo\u201d, \u201cindigna\u00e7\u00e3o\u201d e h\u00e1 um grande \u201csentimento de injusti\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, \u00e9 no setor da sa\u00fade que mais choca a falta de material individual de prote\u00e7\u00e3o. Na linha da frente do combate ao Covid-19, os profissionais debatem-se muitas vezes com as chefias. Foi o caso de v\u00e1rios assistentes operacionais do servi\u00e7o de radiologia do Hospital Santa Maria que se recusaram a trabalhar como forma de protesto. De acordo com o Sindicato dos Trabalhadores em Fun\u00e7\u00f5es P\u00fablicas e Sociais do Sul, s\u00f3 quando chegaram m\u00e1scaras e luvas \u00e9 que estes trabalhadores aceitaram cumprir as suas fun\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois da declara\u00e7\u00e3o do estado de emerg\u00eancia, aprovada pela Asssembleia da Rep\u00fablica, com os votos favor\u00e1veis do PS, PSD, BE, CDS-PP, PAN e Chega, que abre a porta \u00e0 suspens\u00e3o do direito \u00e0 greve, a indigna\u00e7\u00e3o subiu de tom tamb\u00e9m entre os auxiliares de alimenta\u00e7\u00e3o do Hospital de S\u00e3o Francisco Xavier tamb\u00e9m sem luvas e m\u00e1scaras.<\/p>\n\n\n\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio sabe ainda que no Hospital de Santa Maria v\u00e1rias chefias tentaram que os seus trabalhadores que est\u00e3o em recolhimento domicili\u00e1rio com filhos menores aceitassem este per\u00edodo de tempo como folgas e f\u00e9rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, \u00e9 cada vez maior o n\u00famero de lares com utentes e funcion\u00e1rios infetados. Num per\u00edodo inicial sem qualquer fiscaliza\u00e7\u00e3o, e muitas vezes sem materiais de prote\u00e7\u00e3o, a pandemia j\u00e1 cobrou v\u00e1rias mortes em diferentes zonas do pa\u00eds. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Despedimentos, imposi\u00e7\u00e3o de f\u00e9rias durante a quarentena, redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, layoffs, falta de prote\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria nos locais de trabalho e n\u00e3o pagamento de subs\u00eddio de alimenta\u00e7\u00e3o s\u00e3o algumas das consequ\u00eancias de uma epidemia levada a cabo por in\u00fameras empresas durante esta crise gerada pelo novo coronav\u00edrus. Se s\u00e3o in\u00fameros os apelos \u00e0 solidariedade e \u00e0 uni\u00e3o para enfrentar as atuais circunst\u00e2ncias, essa n\u00e3o parece ser a inten\u00e7\u00e3o de in\u00fameros grupos econ\u00f3micos e financeiros que apesar dos ganhos dos \u00faltimos anos optam por cortar naqueles que no dia a dia s\u00e3o essenciais para o funcionamento da economia. Em per\u00edodo de pandemia, tamb\u00e9m muitas empresas decidem p\u00f4r o lucro \u00e0 frente da sa\u00fade dos trabalhadores, potenciando a infec\u00e7\u00e3o dos seus funcion\u00e1rios.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":3220,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[45],"tags":[],"coauthors":[71],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3217"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3217"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3217\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3371,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3217\/revisions\/3371"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/3220"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3217"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3217"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3217"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=3217"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}