{"id":3168,"date":"2020-03-12T10:10:25","date_gmt":"2020-03-12T10:10:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3168"},"modified":"2020-03-12T10:10:28","modified_gmt":"2020-03-12T10:10:28","slug":"e-o-covid-19-normal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/03\/12\/e-o-covid-19-normal\/","title":{"rendered":"\u00c9 o COVID-19 normal?"},"content":{"rendered":"\n<p>Os v\u00edrus s\u00e3o pequenos agentes infecciosos com capacidade patog\u00e9nica (suscept\u00edveis de originar doen\u00e7as) em uma ou mais popula\u00e7\u00f5es de animais. A sua diversidade \u00e9 vast\u00edssima e a sua origem biol\u00f3gica \u00e9 alvo de v\u00e1rias hip\u00f3teses ainda por confirmar, remontando, no entanto, a um tempo t\u00e3o primordial como a origem de toda a vida na Terra. Chamar novo a um v\u00edrus \u00e9 apenas uma express\u00e3o que deriva do nosso conhecimento do mesmo, uma vez que \u00e9 prov\u00e1vel que seja t\u00e3o velho como a vida no nosso planeta, que ter\u00e1 acontecido algures no tempo h\u00e1 3,2 mil milh\u00f5es de anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros agentes patog\u00e9nicos, como as bact\u00e9rias, os v\u00edrus n\u00e3o s\u00e3o considerados, em geral, microorganismos vivos uma vez que apresentam estruturas ainda mais simples do que c\u00e9lula, a unidade b\u00e1sica de todos os organismos vivos. Embora a sua complexidade e estrutura possa variar, os v\u00edrus em si apresentam-se como peda\u00e7os de cadeias de ADN ou ARN (\u00e1cidos nucl\u00e9icos onde est\u00e1 codificada a informa\u00e7\u00e3o gen\u00e9tica dos seres vivos) envolvidos em estruturas de prote\u00ednas (mol\u00e9culas formadas por amino\u00e1cidos presentes na constitui\u00e7\u00e3o de quase todos os tecidos dos seres vivos). A sua simplicidade impede-os de se replicarem (reproduzirem) sozinhos, necessitando sempre de um hospedeiro numa associa\u00e7\u00e3o de parasitismo. Esta associa\u00e7\u00e3o de parasitismo, caracteriza-se com a utiliza\u00e7\u00e3o, pelo v\u00edrus, da m\u00e1quina celular do hospedeiro (animal infectado) para a replica\u00e7\u00e3o do ADN ou ARN do parasita (neste caso o v\u00edrus).<\/p>\n\n\n\n<p>Os v\u00edrus encontram-se presentes na natureza com relativa abund\u00e2ncia, sendo, provavelmente, o n\u00famero daqueles que conhecemos, uma pequen\u00edssima parte dos existentes na natureza. A maioria destes v\u00edrus encontram-se em ac\u00e7\u00e3o em ciclos est\u00e1veis, infectando uma ou mais esp\u00e9cies de um determinado habitat natural e em esp\u00e9cies que atuam como reservat\u00f3rios, como animais que podem estar infectados com os v\u00edrus embora n\u00e3o manifestem nenhuma doen\u00e7a, ou seja, os v\u00edrus coexistem no organismo mais complexo sem que sejam agentes patog\u00e9nicos do mesmo. Tipicamente, estes reservat\u00f3rios encontram-se em esp\u00e9cies com alguma antiguidade evolucion\u00e1ria, ou seja, organismos que se mant\u00eam praticamente inalterados h\u00e1 milh\u00f5es de anos, como \u00e9 o caso dos morcegos. Os morcegos s\u00e3o ainda animais de interesse especial por caracter\u00edsticas peculiares no seu sistema imunol\u00f3gico que os tornam ideais para serem os reservat\u00f3rios de uma grande variedade de v\u00edrus.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 ent\u00e3o um novo v\u00edrus, um qualquer exemplar desta vasta fam\u00edlia, que passa a ter uma capacidade patog\u00e9nica para a esp\u00e9cie humana. Este evento \u00e9, normalmente, origin\u00e1rio na ac\u00e7\u00e3o humana, e n\u00e3o uma caracter\u00edstica do v\u00edrus, ou seja, \u00e9 a nossa esp\u00e9cie que, por alguma raz\u00e3o, passa a ocupar um espa\u00e7o que o v\u00edrus j\u00e1 ocupava. Este processo est\u00e1 normalmente associado \u00e0 explora\u00e7\u00e3o de recursos, agricultura ou pecu\u00e1ria, que origina o consumo cont\u00ednuo de solos virgens, infligindo uma invas\u00e3o de habitats novos que cont\u00eam v\u00edrus em circula\u00e7\u00e3o, por infec\u00e7\u00e3o ou em reservat\u00f3rio de uma esp\u00e9cie animal existente no mesmo. Embora esta invas\u00e3o seja frequente, o surgimento de um determinado v\u00edrus como agente patog\u00e9nico da esp\u00e9cie humana depende ainda de um fen\u00f3meno denominado por zoonose, ou seja, o v\u00edrus, no qual o homem est\u00e1 agora presente no ciclo de vida, tem de ter uma capacidade infecciosa e suscept\u00edvel de criar doen\u00e7a na esp\u00e9cie humana.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os fen\u00f3menos zoon\u00f3ticos sejam de alguma raridade, os m\u00e9todos de produ\u00e7\u00e3o empregados pelo capitalismo, quer em abund\u00e2ncia de consumo de solo, quer em intensidade, criam situa\u00e7\u00f5es abundantes de contacto e invas\u00e3o entre a nossa esp\u00e9cie e in\u00fameros ciclos de vida de v\u00e1rios agentes patog\u00e9nicos (v\u00edrus e n\u00e3o s\u00f3). Este contacto torna-nos suscept\u00edveis de nos tornarmos hospedeiros de v\u00e1rios destes agentes, em que alguns dos quais desenvolver\u00e3o capacidade patog\u00e9nica para a esp\u00e9cie. S\u00e3o ainda factores favor\u00e1veis \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o destes agentes a densidade e forma como a nossa esp\u00e9cie ocupa o territ\u00f3rio, sendo um dos melhores exemplos a aglomera\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos em cidades com milh\u00f5es de habitantes onde a densidade de pessoas por \u00e1rea facilita as ac\u00e7\u00f5es de cont\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez em contacto com uma nova esp\u00e9cie viral, este pode passar a pertencer ao leque de doen\u00e7as a que os humanos s\u00e3o suscept\u00edveis, permanecendo no nosso habitat por cont\u00e1gio entre indiv\u00edduos (da mesma esp\u00e9cie ou de esp\u00e9cies em que a infec\u00e7\u00e3o \u00e9 partilhada), com surtos&nbsp; dependendo de factores de origem desconhecida, com a varicela ou o sarampo, ou em surtos de fen\u00f3menos sazonais, dependendo de condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, como \u00e9 o caso da gripe no inverno. H\u00e1 ainda os casos em que pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade permitiram a erradica\u00e7\u00e3o total ou parcial atrav\u00e9s da melhoria de condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e da vacina\u00e7\u00e3o. Destes \u00faltimos, s\u00e3o exemplos a var\u00edola, erradicada desde 1977, e a poliomielite, perto de ser erradicada com casos conhecidos apenas em territ\u00f3rios onde a guerra ou a pobreza n\u00e3o permite o acesso \u00e0 vacina\u00e7\u00e3o em massa.<\/p>\n\n\n\n<p>Resta-me s\u00f3 concluir que, como os dados sobre v\u00e1rias epidemias no passado t\u00eam demonstrado, s\u00f3 um Servi\u00e7o Nacional de Sa\u00fade (SNS) s\u00f3lido e com forte voca\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade p\u00fablica, pode garantir que as epidemias, novas (pneumonia por covid-19) ou j\u00e1 habituais na nossa esp\u00e9cie (gripe por influenzavirus), assumam repercuss\u00f5es de baixa intensidade. No essencial, s\u00f3 um SNS p\u00fablico, interessado na promo\u00e7\u00e3o da sa\u00fade, atrav\u00e9s de pol\u00edticas que promovam a educa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade e bem-estar, e a proximidade dos cuidados de sa\u00fade em ambulat\u00f3rio gratuitos e para todos, permitem que os eventos epid\u00e9micos tenham os seus riscos mitigados.<br><\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os v\u00edrus s\u00e3o pequenos agentes infecciosos com capacidade patog\u00e9nica (suscept\u00edveis de originar doen\u00e7as) em uma ou mais popula\u00e7\u00f5es de animais. 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