{"id":3148,"date":"2020-03-04T14:06:12","date_gmt":"2020-03-04T14:06:12","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3148"},"modified":"2020-03-04T14:06:14","modified_gmt":"2020-03-04T14:06:14","slug":"nawajutsu-a-extrema-direita-e-a-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/03\/04\/nawajutsu-a-extrema-direita-e-a-esquerda\/","title":{"rendered":"Nawajutsu, a extrema-direita e a esquerda"},"content":{"rendered":"\n<p>Atar algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 simples. Primeiro, porque essa pessoa resiste. Depois, porque deve ser mantida imobilizada, como se quisesse estar aprisionada.<br> \u00c9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Nawajutsu \u00e9 uma arte marcial japonesa que integra t\u00e9cnicas de captura e deten\u00e7\u00e3o com cordas. Passagens certeiras e n\u00f3s pensados transformam cada tentativa de liberta\u00e7\u00e3o em subjuga\u00e7\u00e3o. Libertar o pulso, aperta o pesco\u00e7o e, para n\u00e3o se magoar, a imobilidade \u00e9 a melhor forma de aguentar a deten\u00e7\u00e3o.<br><br>Vem isto a prop\u00f3sito das estat\u00edsticas das contas externas. A Balan\u00e7a Corrente \u2013 composta sobretudo pela Balan\u00e7a de Bens e a de Servi\u00e7os \u2013 passou de um d\u00e9fice quase de 13% do PIB em 2008, para um super\u00e1vite de 2% em 2013. Mas em 2019, j\u00e1 havia outra vez um d\u00e9fice. Quando se soube, logo emergiram vozes de alerta. Que o PS apoiado \u00e0 esquerda dera a perder o que fora feito pela direita, e que eram necess\u00e1rias reformas estruturais. Quais? Nunca ningu\u00e9m diz.<br><br>Mas ser\u00e1 assim? De facto, a direita reequilibrou as contas externas. Mas f\u00ea-lo provocando uma hist\u00f3rica recess\u00e3o. O desemprego atingiu cerca de 1,4 milh\u00f5es de pessoas! Os efeitos dessa terapia no investimento e nos servi\u00e7os p\u00fablicos ainda se sentem quase dez anos depois.<br><br>Este desastre tinha, por\u00e9m, um fito. Conceder \u00e0s empresas uma redu\u00e7\u00e3o duradoura dos custos salariais para se tornarem competitivas. Conseguiu-se a redu\u00e7\u00e3o salarial, mas n\u00e3o o resto.<br><br>Ali\u00e1s, o mesmo objectivo foi tra\u00e7ado desde os anos 80 &#8211; for\u00e7ar os empres\u00e1rios a um choque competitivo. A economia enredou-se numa progressiva integra\u00e7\u00e3o europeia; atou-se o escudo at\u00e9 se fundir no euro, precisamente quando a UE desla\u00e7ou barreiras alfandeg\u00e1rias com o exterior; transferiu-se poderes para a escala federal; conteve-se as contas p\u00fablicas e impediu-se o seu uso para proteger a economia nacional, enquanto se abria ao investimento estrangeiro. Ora, essa pol\u00edtica falhou.<br><br>Muitos empres\u00e1rios largaram campos e ind\u00fastrias e dedicaram-se aos servi\u00e7os. O capital estrangeiro tomou sectores estrat\u00e9gicos e cresceu o d\u00e9fice da Balan\u00e7a de Bens &#8211; de 10% do PIB em 1994 para 15% em 2008. A recess\u00e3o reduziu-o para 5%, mas em 2019 j\u00e1 subira para 8,6% do PIB. Ultimamente, desde 2007, esta realidade ficou escondida por um super\u00e1vite da Balan\u00e7a de Servi\u00e7os, fruto da subida do turismo. Mas \u00e9 uma ilus\u00e3o: o turismo s\u00f3 pode crescer em extens\u00e3o e \u00e9 perigosamente vol\u00e1til.<br><br>E aqui reside o problema. O enquadramento pol\u00edtico-institucional da UE impede o tecido produtivo de ser protegido e, quando se relan\u00e7a o investimento, Portugal fica na situa\u00e7\u00e3o do prisioneiro atado.<br><br>Este imbr\u00f3glio tem, ainda, reflexos pol\u00edticos. O poder pol\u00edtico &#8211; mesmo do PS \u2013 perdeu uma vis\u00e3o para o pa\u00eds. Os pol\u00edticos envelhecem e s\u00e3o substitu\u00eddos por segundas e terceiras linhas, j\u00e1 nascidas no sistema Nawajutsu. N\u00e3o surgem ideias novas e tudo se agrava. Afastada por um duro dia-a-dia e por uma comunica\u00e7\u00e3o social no m\u00ednimo adormecida, a vida dos governados \u00e9 de estagna\u00e7\u00e3o: dos sal\u00e1rios reais, dos hor\u00e1rios sem fim mal pagos, da falta de meios para formar fam\u00edlias.<br><br>Este \u00e9 um terreno prop\u00edcio. Surgem partidos \u00e0 direita. O seu discurso real\u00e7a a inseguran\u00e7a, ressentimentos calcados como a guerra colonial, a corrup\u00e7\u00e3o e aponta-se o dedo ao inimigo externo \u00e0 vista. Em 2013, entraram 17554 imigrantes permanentes. Em 2018, eram j\u00e1 43170 pessoas. E s\u00e3o promovidos por \u00f3rg\u00e3os como TVI, grupo Cofina e Observador, mais n\u00e3o seja por ser um novo mercado de audi\u00eancias. Um estudo do ICS mostra que os novos partidos aliciam homens e mulheres, empregados de escrit\u00f3rio dos grandes centros urbanos, trabalhadores n\u00e3o manuais com algumas qualifica\u00e7\u00f5es, mas sem poder de influ\u00eancia.<br><br>Mas se o protesto \u00e9 novo, o seu programa \u00e9 velho. Quando exp\u00f5em ideias, resvalam para chav\u00f5es. Mas ganham votos. T\u00eam dinheiro porque algu\u00e9m aposta neles. \u00c9 uma tropa eleitoral para que tudo fique na mesma.<br> E \u00e0 esquerda, estranhamente, n\u00e3o se sabe o que fazer. Se os contestam, d\u00e3o-lhes import\u00e2ncia; se nada fazem, promovem-nos. Na realidade, apenas t\u00eam de lutar contra as suas ideias, pelas pessoas que eles visam contaminar.<br><br>Mas a mesma pergunta deve ser feita a todos: como se muda este sistema Nawajutsu que nos mant\u00e9m subjugados, resignados \u00e0 inac\u00e7\u00e3o? Porque qualquer gesto nos magoar\u00e1 e, de uma forma ou doutra, vamos sofrer.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atar algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 simples. Primeiro, porque essa pessoa resiste. Depois, porque deve ser mantida imobilizada, como se quisesse estar aprisionada. \u00c9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel. Nawajutsu \u00e9 uma arte marcial japonesa que integra t\u00e9cnicas de captura e deten\u00e7\u00e3o com cordas. Passagens certeiras e n\u00f3s pensados transformam cada tentativa de liberta\u00e7\u00e3o em subjuga\u00e7\u00e3o. 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