{"id":3085,"date":"2020-03-03T12:03:07","date_gmt":"2020-03-03T12:03:07","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3085"},"modified":"2020-04-02T11:49:08","modified_gmt":"2020-04-02T11:49:08","slug":"a-voz-e-um-projeto-com-futuro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/03\/03\/a-voz-e-um-projeto-com-futuro\/","title":{"rendered":"Manuel Figueiredo: \u201cA Voz \u00e9 um projeto com futuro\u201d"},"content":{"rendered":"\n<p>Presidente da dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o desde 2010, Manuel Figueiredo fala dos desafios atuais e do caminho por trilhar com o olhar de quem n\u00e3o perde de vista os valores de justi\u00e7a e emancipa\u00e7\u00e3o social.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Quando olha para o passado e para o presente, sente que A Voz continua fiel aos princ\u00edpios pelos quais foi criada? <\/h2>\n\n\n\n<p>Julgo que sim, essa \u00e9 a matriz d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, que foi criada com um des\u00edgnio e esse des\u00edgnio tinha a ver na altura com a luta dos oper\u00e1rios tabaqueiros contra a explora\u00e7\u00e3o a que estavam sujeitos. Essa luta foi vertida num jornal que pudesse publicar as suas justas reivindica\u00e7\u00f5es, que n\u00e3o tinham espa\u00e7o nos jornais oficiais \u00e0 \u00e9poca, enfim, coisas que infelizmente n\u00e3o mudaram muito. O acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, a saber ler e escrever, era muito mais dif\u00edcil para as classes trabalhadoras e para os oper\u00e1rios e, portanto, rapidamente os fundadores do jornal chegaram \u00e0 conclus\u00e3o de que era necess\u00e1rio haver uma institui\u00e7\u00e3o que desse suporte ao jornal e, por outro lado, que pudesse ser tamb\u00e9m um instrumento de de instru\u00e7\u00e3o para os oper\u00e1rios e seus filhos. Nos tempos da Rep\u00fablica, A Voz chegou a ter cerca de oito dezenas de escolas. Portanto, teve um papel muito importante na educa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m um papel importante em todas as outras \u00e1reas, nunca deixando o seu des\u00edgnio fundador de lado, o seu des\u00edgnio pela luta da emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, dos oper\u00e1rios. A Voz viveu tempos muito dif\u00edceis nos tempos do fascismo, em que lhe tentaram cercear muitas liberdades, a censura existiu, designadamente no nosso jornal, mas apesar de todas as dificuldades nunca foi uma institui\u00e7\u00e3o que, dentro dos seus condicionalismos, n\u00e3o estivesse ao lado dos trabalhadores. Este ano, vamos celebrar o 50.\u00ba anivers\u00e1rio da funda\u00e7\u00e3o CGTP-IN e houve reuni\u00f5es de muitos sindicatos que se fizeram exatamente n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, em 1970.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Portanto, h\u00e1 um prest\u00edgio que se foi construindo ao longo de 140 anos de hist\u00f3ria do jornal e tamb\u00e9m da pr\u00f3pria institui\u00e7\u00e3o. Como \u00e9 que as outras organiza\u00e7\u00f5es olham para A Voz?<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Quer a n\u00edvel institucional, quer a outros n\u00edveis, sinto que A Voz \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o muito prestigiada e admirada. Respeitam-na n\u00e3o s\u00f3 pelo seu legado, pelo seu passado, mas tamb\u00e9m pelo que ela sempre representou e representa do ponto de vista da atividade social,recreativa, educativa, do contributo que d\u00e1 \u00e0 comunidade. O fato d\u2019A Voz ter sido no ano passado agraciada como membro-honor\u00e1rio da Ordem da Liberdade \u00e9 mais um elemento que representa esse prest\u00edgio.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A Voz tamb\u00e9m se distingue de outras institui\u00e7\u00f5es por se orientar por princ\u00edpios de solidariedade e n\u00e3o pela ideia de assistencialismo.<br><\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 o elemento marcante de como n\u00f3s atuamos e \u00e9 a diferen\u00e7a entre o assistencialismo, a caridade, e a solidariedade. O assistencialismo e a caridade andam de m\u00e3os dadas. Enquanto que com a caridade algu\u00e9m est\u00e1 l\u00e1 em cima e est\u00e1, digamos, a dar uma esmola a quem est\u00e1 c\u00e1 em baixo, num plano em que nunca se misturam, numa perspetiva de nunca haver nenhum qualquer entrosamento, a solidariedade \u00e9 exatamente o oposto.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Nesse aspeto, A Voz sempre fez parte da luta mais geral contra as desigualdades e as injusti\u00e7as.<br><\/h2>\n\n\n\n<p>A Voz est\u00e1 envolvida nesse combate, com outras organiza\u00e7\u00f5es, de diferentes formas. Por exemplo, neste momento, existe o Movimento Erradicar a Pobreza. A Voz apoia, desde o primeiro momento, este movimento, onde participam muitos s\u00f3cios que fazem parte dos nossos \u00f3rg\u00e3os sociais. Mas a luta contra as desigualdades \u00e9 uma luta, naturalmente, mais geral e n\u00e3o passa s\u00f3 por isto, ela passa tamb\u00e9m, no essencial, pela luta que \u00e9 travada contra a explora\u00e7\u00e3o. Enquanto houver explora\u00e7\u00e3o, enquanto houver alguns que se aproveitam do trabalho, da riqueza gerada pelo trabalho de outrem, vai haver pobreza. Em Portugal, mesmo do ponto de vista estat\u00edstico, nos \u00faltimos anos as desigualdades n\u00e3o reduziram, pelo contr\u00e1rio, aumentaram. Aumentaram porque \u00e9 preciso uma rutura de fundo com a pol\u00edtica que vem sendo desenvolvida e a essa rutura passa naturalmente por criar uma sociedade em que n\u00e3o exista a explora\u00e7\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">\u00c9 presidente da dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio desde 2010. Qual \u00e9 o balan\u00e7o?<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Quando cheguei \u00e0 Voz em 2010, havia algumas dificuldades, designadamente do ponto de vista financeiro, e tamb\u00e9m \u00e9 importante dizer-se que este per\u00edodo coincide com a entrada da troika em Portugal, com problemas muito graves a v\u00e1rios n\u00edveis, designadamente afetando A Voz, os seus s\u00f3cios, atingindo as pessoas que tinham c\u00e1 as suas crian\u00e7as e, portanto, foi um per\u00edodo complicado.<br>Apesar disso, a postura que a dire\u00e7\u00e3o d\u2019A Voz teve, foi de analisar e perspetivar o futuro sempre numa vertente de aumento da atividade, de crescimento e n\u00e3o numa vertente de definhamento. Felizmente, fomos conseguindo superar as dificuldades. Houve uma val\u00eancia que foi descontinuada: o terceiro ciclo. Cheg\u00e1mos \u00e0 conclus\u00e3o de que o n\u00famero de crian\u00e7as que t\u00ednhamos e a procura que existia n\u00e3o era suficiente para manter com sustentabilidade esta vertente. Ao mesmo tempo, tent\u00e1mos por todas as vias incrementar as outras \u00e1reas.<br>Foi assim que surgiu a ideia, fruto tamb\u00e9m de uma rela\u00e7\u00e3o com a C\u00e2mara Municipal de Lisboa, de irmos para o Restelo. Mais tarde, fomos para outros equipamentos na Margem Sul. Maximizamos a nossa atividade e fomos conseguindo um crescimento sustentado. Hoje, temos cerca de 1150 crian\u00e7as, temos o apoio domicili\u00e1rio, quer em Lisboa, quer na Margem Sul, com mais cerca de 50 pessoas que est\u00e3o abrangidas. Mais tarde, acab\u00e1mos por ter um refeit\u00f3rio social na Gra\u00e7a. Temos hoje um centro de conv\u00edvio com uma maior din\u00e2mica. Houve um crescimento efetivo na atividade e no n\u00famero de utentes. Depois a atividade tem, como \u00e9 \u00f3bvio, outras vertentes, desde logo a vertente cultural, desportiva e recreativa. S\u00e3o vertentes que n\u00f3s queremos incrementar.<br>Para al\u00e9m de tudo isto, entre muitas outras coisas, come\u00e7amos a organizar h\u00e1 tr\u00eas anos a Gala de Fado d\u2019A Voz que \u00e9 j\u00e1 um marco cultural e \u00e9 importante destacar que o acervo da nossa biblioteca foi importante para o fado ter sido considerado Patrim\u00f3nio Imaterial da Humanidade. De resto, a nossa Marcha Infantil continua a ser um marco. \u00c9 uma alegria ver aqueles mi\u00fados desfilarem no pavilh\u00e3o e na Avenida da Liberdade.<br>Do ponto de vista econ\u00f3mico, n\u00f3s temos vindo em crescendo no nosso or\u00e7amento. Atualmente, ultrapassamos os 5 milh\u00f5es de euros de atividade anual. Portanto, estamos a falar de uma institui\u00e7\u00e3o de grande dimens\u00e3o no setor social.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O alargamento d\u2019A Voz para a Margem Sul, Restelo e Ajuda faz a diferen\u00e7a?<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Sim. Por exemplo, na Ajuda, temos a nossa creche agora no Bairro 2 de Maio e os relatos que nos chegam \u00e9 que este equipamento naquele local \u00e9 muito importante. Aquele bairro tinha uma m\u00e1 conota\u00e7\u00e3o, era marginalizado, era um bairro com muitas dificuldades. Quando fui vereador na C\u00e2mara Municipal, visitei-o muitas vezes e ouvi as reivindica\u00e7\u00f5es e as car\u00eancias dos moradores. A instala\u00e7\u00e3o deste equipamento veio trazer uma nova vida ao bairro, n\u00e3o s\u00f3 pelas crian\u00e7as, pelos pais das crian\u00e7as que as v\u00e3o levar e que as v\u00e3o trazer, mas tamb\u00e9m pelo conjunto de trabalhadores que est\u00e3o na pr\u00f3pria escola, o que veio dinamizar a zona. N\u00f3s temos hoje listas de espera em v\u00e1rios equipamentos. Tamb\u00e9m no sul notamos que A Voz do Oper\u00e1rio aparece como algo diferente ao que havia antes. Posso-lhe contar que quando n\u00f3s tomamos posse daqueles equipamentos rapidamente os pais perceberam que aquilo n\u00e3o era um deposit\u00e1rio onde deixavam as crian\u00e7as de manh\u00e3 e iam busc\u00e1-las \u00e0 noite, era muito mais do isso. No fim de semana seguinte, convid\u00e1mos os pais todos a visitarem os equipamentos e explic\u00e1mos que aquele projeto ia envolv\u00ea-los. A pouco e pouco, pelo nosso m\u00e9todo pedag\u00f3gico, as pessoas come\u00e7aram a perceber que havia mesmo uma diferen\u00e7a.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Para al\u00e9m disso, em todos estes avan\u00e7os que referiu, inclusivamente nestes espa\u00e7os educativos, h\u00e1 uma marca dos trabalhadores da pr\u00f3pria Voz.<\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 e em v\u00e1rios n\u00edveis, desde logo com a refer\u00eancia do modelo da Escola Moderna que n\u00f3s desenvolvemos internamente atrav\u00e9s dos nossos pr\u00f3prios projetos educativos, com a participa\u00e7\u00e3o de todos, e n\u00e3o s\u00f3 pelos docentes, tamb\u00e9m pelos auxiliares. \u00c9 todo um trabalho coletivo que \u00e9 feito com reuni\u00f5es, com muito trabalho, para que todos sintam que est\u00e3o a verter no projeto as suas opini\u00f5es, aquilo que acham que \u00e9 o melhor para os equipamentos e para A Voz do Oper\u00e1rio. S\u00e3o sempre projetos muito participados e, portanto, as pessoas sentem que trabalhar n\u2019A Voz n\u00e3o \u00e9 trabalhar em qualquer s\u00edtio, \u00e9 trabalhar num s\u00edtio diferente. \u00c9 trabalhar num s\u00edtio onde a procura de fazer melhor, de fazer em prol da comunidade est\u00e1 acima de tudo o resto.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">H\u00e1 alguma perspetiva de A Voz se expandir para outros espa\u00e7os?<br><\/h2>\n\n\n\n<p>H\u00e1 possibilidades. Este crescimento d\u2019A Voz tamb\u00e9m teve o seu impacto e n\u00f3s, ao longo dos \u00faltimos anos, temos tido v\u00e1rios contatos, n\u00e3o s\u00f3 com donos de col\u00e9gios particulares que queriam de alguma maneira que A Voz do Oper\u00e1rio ficasse encarregue pela sua gest\u00e3o, como inclusivamente com outro tipo de equipamentos educativos, designadamente na \u00e1rea profissional, que tamb\u00e9m nos contataram. N\u00f3s n\u00e3o t\u00ednhamos condi\u00e7\u00f5es do ponto de vista econ\u00f3mico e financeiro de assegurar essa gest\u00e3o. Mas mostraram interesse pelo nosso modelo. Mas pode haver outras situa\u00e7\u00f5es, n\u00f3s estamos abertos naturalmente a outras propostas.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Sei que h\u00e1 um projeto de reabilita\u00e7\u00e3o e renova\u00e7\u00e3o do complexo d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio na Gra\u00e7a.<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Este edif\u00edcio mais antigo tem sido objeto de importantes obras de manuten\u00e7\u00e3o que significaram um grande investimento. Por exemplo, em toda a rede el\u00e9trica porque era uma \u00e1rea muito importante e investimos tamb\u00e9m na \u00e1rea de seguran\u00e7a. Por outro lado, cri\u00e1mos a sala associativa e o Audit\u00f3rio Jo\u00e3o Hogan, obra em grande parte realizada pelo nosso pr\u00f3prio pessoal da manuten\u00e7\u00e3o. Agora, temos um projeto para o sal\u00e3o que prev\u00ea a sua insonoriza\u00e7\u00e3o e climatiza\u00e7\u00e3o. Uma coisa depende da outra, ou seja, n\u00e3o podemos insonorizar o sal\u00e3o sem ao mesmo tempo criar condi\u00e7\u00f5es para a climatiza\u00e7\u00e3o.<br>Por outro lado, no futuro, o objetivo \u00e9 termos um novo edif\u00edcio para a creche e pr\u00e9-escolar. No lugar onde est\u00e1 hoje o refeit\u00f3rio e o gin\u00e1sio, vamos criar condi\u00e7\u00f5es para outro novo edif\u00edcio ligado ao outro deslocalizando para aqui os 1.\u00ba e 2.\u00ba ciclos deixando o edif\u00edcio hist\u00f3rico para todas as atividades n\u00e3o educativas. Evidentemente que isto \u00e9 um projeto a ser realizado a longo prazo. Todos os projetos dependem de prazos, da C\u00e2mara Municipal. J\u00e1 obtivemos v\u00e1rios pareceres favor\u00e1veis.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Com um passado t\u00e3o cheio, A Voz \u00e9 um projeto com futuro?<br><\/h2>\n\n\n\n<p><br>A Voz \u00e9 claramente um projeto com futuro nas v\u00e1rias vertentes. N\u00f3s temos val\u00eancias que nunca mais acabam, n\u00e3o s\u00f3 val\u00eancias de atividades extracurriculares, que s\u00e3o muitas, como atividades culturais, que tamb\u00e9m s\u00e3o bastantes, como outras atividades para os s\u00f3cios, desde o cabeleireiro social ao centro de conv\u00edvio. Temos tamb\u00e9m um projeto importante que tem a ver com a nossa biblioteca. Temos um acervo muito rico. A nossa luta deve ser construir-nos enquanto biblioteca dos movimentos sociais, \u00e9 essa a vertente que n\u00f3s queremos desenvolver porque deve ser das mais importantes deste pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Presidente da dire\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o desde 2010, Manuel Figueiredo fala dos desafios atuais e do caminho por trilhar com o olhar de quem n\u00e3o perde de vista os valores de justi\u00e7a e emancipa\u00e7\u00e3o social. 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