{"id":3014,"date":"2020-02-03T11:33:02","date_gmt":"2020-02-03T11:33:02","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3014"},"modified":"2020-03-04T12:08:56","modified_gmt":"2020-03-04T12:08:56","slug":"uma-vida-conspirada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/02\/03\/uma-vida-conspirada\/","title":{"rendered":"Uma Vida Conspirada"},"content":{"rendered":"\n<p>A hist\u00f3ria do cinema portugu\u00eas tem sido escrita com aus\u00eancias que fazem esquecer a sua dimens\u00e3o colaborativa. A arte do cinema nasce do esfor\u00e7o colectivo. Henrique Esp\u00edrito Santo soube isso como poucos e essa consci\u00eancia fez dele uma figura marcante.<br><br>A sua liga\u00e7\u00e3o ao cinema come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1950, no movimento cineclubista. Foi dirigente do cineclube Imagem entre 1954 e 1970. Os seus textos cr\u00edticos para jornais di\u00e1rios e revistas como a Seara Nova e a V\u00e9rtice prolongaram o trabalho de divulga\u00e7\u00e3o e discuss\u00e3o desses espa\u00e7os. Os cineclubes eram lugares de liberdade e luta antifascista. \u201cO cineclubismo foi o grande movimento cultural de massas antes do 25 de Abril\u201d, lembrava ele. Para ele, os cineclubes continuam a ter um papel fundamental a desempenhar. Afirmou isso h\u00e1 seis anos, quando foi homenageado no Fantasporto, em forma de apelo: \u201cOs cineclubes continuam, h\u00e1 uma federa\u00e7\u00e3o, e \u00e9 preciso que estejam atentos e lutem ao lado dos cineastas, das associa\u00e7\u00f5es de realizadores, das associa\u00e7\u00f5es de produtores, de t\u00e9cnicos, porque estamos de novo numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.\u201d Uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil que permanece.<br><br>Tinha-se tornado militante do Partido Comunista Portugu\u00eas (PCP) em 1957. Em 1963, foi preso pela PIDE e condenado sob a acusa\u00e7\u00e3o de animus conspirandi, por actividades ligadas ao sector de espect\u00e1culos do PCP. Esteve encarcerado mais de um ano. Foi acusado de ser conspirador e era-o. Foi-o sempre. Se ser conspirador \u00e9 um crime, foi um crime de uma vida.<br><br>Em 1966, tornou-se profissional de cinema. Trabalhou com Jos\u00e9 Fonseca e Costa na Unifilme, criada em 1967. Entre 1972 e 73, esteve associado ao Centro Portugu\u00eas de Cinema, financiado pela Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, que impulsionou o Novo Cinema Portugu\u00eas, movimento de ruptura est\u00e9tica, cultural e social. Fundou a Cinequanon em 1974, com o director de fotografia Elso Roque, entre outros, e a Prole Filme em 1976, com o realizador Lu\u00eds Filipe Rocha. Embora tivesse trabalhado como actor, foi na produ\u00e7\u00e3o que construiu uma carreira.<br><br>Depois da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril, fez parte do N\u00facleo de Produ\u00e7\u00e3o do Instituto Portugu\u00eas de Cinema. Integrou o Colectivo dos Trabalhadores da Actividade Cinematogr\u00e1fica que filmou As Armas e o Povo, entre 25 de Abril e o 1.\u00ba de Maio de 1974. Foi membro da C\u00e9lula do Cinema do PCP, que produziu o mordaz As Desventuras do Dr\u00e1cula Von Barreto nas Terras da Reforma Agr\u00e1ria (1977). Nele desempenhou o papel da personagem do t\u00edtulo, inspirada em Ant\u00f3nio Barreto, Ministro da Agricultura e Pescas do Partido Socialista, destruidor do processo libertador da Reforma Agr\u00e1ria.<br><br>Entre 1978 e 1980, foi professor de produ\u00e7\u00e3o na Escola de Cinema do Conservat\u00f3rio e em Angola. O caderno Produ\u00e7\u00e3o de Filmes resultou destas aulas. O seu trabalho de forma\u00e7\u00e3o profissional na \u00e1rea da produ\u00e7\u00e3o marcou profundamente o cinema portugu\u00eas. O seu percurso como director de produ\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1971, com O Recado de Fonseca e Costa. Entre os filmes cuja produ\u00e7\u00e3o dirigiu contam-se pe\u00e7as centrais do cinema portugu\u00eas como A Promessa (1972) de Ant\u00f3nio de Macedo, primeiro filme portugu\u00eas seleccionado para o Festival de Cannes, Jaime (1974) de Ant\u00f3nio Reis, Benilde ou a Virgem-M\u00e3e (1975) e Amor de Perdi\u00e7\u00e3o (1979) de Manoel de Oliveira, e O Bobo (1987) de Jos\u00e9 \u00c1lvaro Morais, primeiro filme portugu\u00eas premiado no Festival de Locarno. Trabalhou ainda com outros cineastas not\u00e1veis como Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Margarida Gil, Jo\u00e3o M\u00e1rio Grilo, Solveig Nordlund, Alberto Seixas Santos, e Jorge Silva Melo. O document\u00e1rio At\u00e9 Amanh\u00e3, Henrique!, realizado em 2017 por Miguel Cardoso, fixa o essencial dessa hist\u00f3ria que se confunde com a do cinema portugu\u00eas.<br><br>A sua dedica\u00e7\u00e3o foi reconhecida com um pr\u00e9mio da Academia Portuguesa de Cinema em 2014 e um ciclo e cat\u00e1logo da Cinemateca Portuguesa &#8211; Museu do Cinema em 2016. O seu nome \u00e9 incontorn\u00e1vel porque ele n\u00e3o contornou dificuldades, nem cultivou amarguras. Defendeu o cumprimento do dever social do estado no financiamento da cultura, permitindo o risco da cria\u00e7\u00e3o e garantindo a diversidade de op\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas. Teve a coragem de um conspirador generoso e solid\u00e1rio por outra sociedade, livre da vampiriza\u00e7\u00e3o humana, empenhado na cultura como campo humanista de conviv\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A hist\u00f3ria do cinema portugu\u00eas tem sido escrita com aus\u00eancias que fazem esquecer a sua dimens\u00e3o colaborativa. A arte do cinema nasce do esfor\u00e7o colectivo. Henrique Esp\u00edrito Santo soube isso como poucos e essa consci\u00eancia fez dele uma figura marcante. A sua liga\u00e7\u00e3o ao cinema come\u00e7ou na d\u00e9cada de 1950, no movimento cineclubista. 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