{"id":3009,"date":"2020-02-03T11:25:25","date_gmt":"2020-02-03T11:25:25","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=3009"},"modified":"2020-03-03T12:20:39","modified_gmt":"2020-03-03T12:20:39","slug":"o-dia-em-que-os-sovieticos-abriram-as-portas-do-inferno-de-auschwitz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/02\/03\/o-dia-em-que-os-sovieticos-abriram-as-portas-do-inferno-de-auschwitz\/","title":{"rendered":"O dia em que os sovi\u00e9ticos abriram as portas do inferno de Auschwitz"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando passam 75 anos da liberta\u00e7\u00e3o do campo de exterm\u00ednio nazi de Auschwitz pelas tropas sovi\u00e9ticas, as palavras de Primo Levi parecem continuar atuais num mundo cada vez mais avesso \u00e0 mem\u00f3ria hist\u00f3rica: \u201cExistem monstros, mas s\u00e3o demasiado poucos, em n\u00famero, para serem realmente perigosos. Mais perigosos s\u00e3o os homens comuns, os funcion\u00e1rios prontos a acreditar e a agir sem fazer perguntas\u201d.<br><br>Foi a 27 de janeiro que soldados do Ex\u00e9rcito Vermelho abriram os port\u00f5es de Auschwitz, na Pol\u00f3nia, depois de fazerem recuar a m\u00e1quina de guerra nazi num avan\u00e7o que s\u00f3 acabaria em Berlim com a rendi\u00e7\u00e3o incondicional dos homens de Adolf Hitler. Depois de Dachau, Sachsenhausen, Buchenwald, Flossenb\u00fcrg, Mauthausen e Ravensbr\u00fcck, Auschwitz foi o s\u00e9timo campo de concentra\u00e7\u00e3o constru\u00eddo pelos nazis.<br><br>Os arredores da pequena cidade polaca de Oswiecim serviram de espa\u00e7o para acampamentos de v\u00e1rios tamanhos: al\u00e9m do campo principal (Auschwitz I), o enorme campo de exterm\u00ednio de Birkenau (Auschwitz II), onde estavam localizados os cremat\u00f3rios, e campos externos menores, havia ainda os campos de trabalho for\u00e7ado de Buna e Monowitz.<br><br>Foi na primavera de 1942 que Auschwitz foi ampliado tornando-se numa m\u00e1quina de exterm\u00ednio sistem\u00e1tico. Mais de 1 milh\u00e3o de pessoas, entre judeus, comunistas, homossexuais, ciganos e pessoas com defici\u00eancia, foram objeto de assassinatos de propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis com m\u00e9todos b\u00e1rbaros como os infelizmente c\u00e9lebres duches que n\u00e3o eram mais do que c\u00e2maras de g\u00e1s. Para al\u00e9m de campos de concentra\u00e7\u00e3o, houve outros seis complexos de exterm\u00ednio como Auschwitz: Che\u0142mno, Be\u0142\u017cec, Sobib\u00f3r, Treblinka, Majdanek e Trostenets. Entre 6 a 11 milh\u00f5es de seres humanos ter\u00e3o sido assassinados pela barb\u00e1rie nazi num processo de exterm\u00ednio que ficou conhecido como Holocausto.<br><br>De acordo com uma investiga\u00e7\u00e3o do <em>P\u00fablico<\/em>, estima-se ainda que durante a 2.\u00aa Guerra Mundial dezenas de portugueses que moravam em Fran\u00e7a foram presos, colocados em campos de internamento e deportados, posteriormente, para campos de concentra\u00e7\u00e3o na Alemanha ou na Pol\u00f3nia. Alguns acabaram por ser transferidos para outros campos, na \u00c1ustria ou em Fran\u00e7a. Muitos deles estavam filiados no Partido Comunista Franc\u00eas e faziam parte das estruturas clandestinas da Resist\u00eancia contra a ocupa\u00e7\u00e3o nazi.<br><br>Foi o caso de Luiz Ferreira que, de acordo com a ficha do campo de concentra\u00e7\u00e3o, media 1,58 metros, era louro, esguio, de olhos castanhos e n\u00e3o tinha todos os dentes, descreve o <em>P\u00fablico<\/em>. A ficha m\u00e9dica indica ainda que tivera um acidente em 1925, que lhe deixara a m\u00e3o esquerda danificada e que, em 1937, sofrera uma fratura na parte inferior da coxa direita, classificada como \u201cferimento de guerra\u201d, o que apontava para a sua presen\u00e7a na Guerra Civil de Espanha (1936-1939). O nome de Luiz Ferreira aparece ainda numa lista de oito sobreviventes portugueses do campo de Buchenwald, feita pelos Aliados ap\u00f3s a liberta\u00e7\u00e3o.<br><br>Ainda de acordo com a investiga\u00e7\u00e3o, Luiz come\u00e7ou a sua vida em Fran\u00e7a, sozinho, n\u00e3o se sabe exactamente em que ano, mas em 1932, conforme escreveu numa das notas deixadas \u00e0 sobrinha, \u201cj\u00e1 militava\u201d no Partido Comunista Franc\u00eas. Foi sindicalista at\u00e9 morrer, em 1991. Em 1936, partiu como volunt\u00e1rio para a Guerra Civil de Espanha e por l\u00e1 ficou at\u00e9 1938, usando o nome de c\u00f3digo Simon. Nas notas que deixou a Am\u00e9lia, uma foi colocada junto \u00e0 fotografia do Coronel Fabien (Pierre Georges), morto em 1944 na frente da Als\u00e1cia, com a indica\u00e7\u00e3o: \u201cFoi combatente comigo na 12.\u00aa Brigada (Madrid 1938).\u201d<br><br>O <em>P\u00fablico<\/em> refere ainda outra portuguesa que participou na Resist\u00eancia. Mariette Barbosa tinha apenas 17 anos quando a guerra rebentou, mas em 1944 a jovem portuguesa de 22 anos, que residia, ent\u00e3o, em Saint-Fons, estava j\u00e1 envolvida no combate ao nazismo. Foi detida e encarcerada em v\u00e1rios campos de concentra\u00e7\u00e3o.<br><br>As atrocidades cometidas nos campos de concentra\u00e7\u00e3o e exterm\u00ednio chocaram os soldados sovi\u00e9ticos que conseguiram chegar a Auschwitz depois de conseguirem suster a forte ofensiva alem\u00e3. Para se ter em conta a dimens\u00e3o do peso do Ex\u00e9rcito Vermelho na derrota do nazismo, na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, a Alemanha perdeu n\u00e3o menos de 10 do total de 13,5 milh\u00f5es de soldados mortos, feridos ou prisioneiros durante toda a guerra. Os sovi\u00e9ticos foram respons\u00e1veis por 90% dos alem\u00e3es que morreram durante a 2.\u00aa Guerra Mundial.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Invasores e libertadores n\u00e3o s\u00e3o iguais<br><\/h2>\n\n\n\n<p>A Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Resistentes (FIR), organiza\u00e7\u00e3o que re\u00fane estruturas de v\u00e1rios pa\u00edses de sobreviventes das persegui\u00e7\u00f5es fascistas e de combatentes contra a barb\u00e1rie nazi e todos os antifascistas e suas organiza\u00e7\u00f5es, incluindo a Uni\u00e3o dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), divulgou uma nota em que critica e rejeita uma resolu\u00e7\u00e3o aprovada em setembro pelo Parlamento Europeu (PE) que equipara e condena nazi-fascismo e comunismo. A iniciativa foi apresentada por iniciativa dos pa\u00edses b\u00e1lticos (Est\u00f3nia, Let\u00f3nia e Litu\u00e2nia) e da Pol\u00f3nia. O texto da resolu\u00e7\u00e3o, considera a FIR, \u00e9 \u201cuma reminisc\u00eancia ideol\u00f3gica dos piores tempos da Guerra Fria\u201d, que falsifica as causas da II Guerra Mundial e confunde \u201copressores e oprimidos, carrascos e v\u00edtimas, invasores e libertadores\u201d. A FIR e as organiza\u00e7\u00f5es que a comp\u00f5em \u201cdizem n\u00e3o a tais falsifica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas\u201d, num momento em que \u201ch\u00e1 um crescente perigo de fascismo, racismo e nacionalismo\u201d. Nesta declara\u00e7\u00e3o, a estrutura europeia com associa\u00e7\u00f5es em mais de 20 pa\u00edses da Europa e em Israel, evocou as palavras do escritor Thomas Mann, Pr\u00e9mio Nobel da Literatura, que avisou em 1945: \u201cColocar o comunismo russo no mesmo plano moral do nazi-fascismo, porque ambos s\u00e3o totalit\u00e1rios, \u00e9, na melhor das hip\u00f3teses, superficial e, na pior, fascismo. Quem insiste nesta equipara\u00e7\u00e3o pode considerar-se um democrata mas, na verdade e no fundo do seu cora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 \u00e9 um fascista e certamente combater\u00e1 o fascismo sem sinceridade e com hipocrisia, deixando todo o seu \u00f3dio para o comunismo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando passam 75 anos da liberta\u00e7\u00e3o do campo de exterm\u00ednio nazi de Auschwitz pelas tropas sovi\u00e9ticas, as palavras de Primo Levi parecem continuar atuais num mundo cada vez mais avesso \u00e0 mem\u00f3ria hist\u00f3rica: \u201cExistem monstros, mas s\u00e3o demasiado poucos, em n\u00famero, para serem realmente perigosos. 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