{"id":2992,"date":"2020-02-03T10:53:06","date_gmt":"2020-02-03T10:53:06","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2992"},"modified":"2020-03-03T11:40:50","modified_gmt":"2020-03-03T11:40:50","slug":"medio-oriente-na-mira-do-imperialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/02\/03\/medio-oriente-na-mira-do-imperialismo\/","title":{"rendered":"M\u00e9dio Oriente, na mira do imperialismo"},"content":{"rendered":"\n<p>N\u00e3o h\u00e1 nada mais parecido com um barril de p\u00f3lvora do que o M\u00e9dio Oriente. Sob milh\u00f5es de vidas que gostariam t\u00e3o somente de poder viver em paz, jazem riquezas naturais que despertam desde sempre a gula dos Estados Unidos e das principais pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia. <\/p>\n\n\n\n<p>O imperialismo imp\u00f5e a recoloniza\u00e7\u00e3o de uma regi\u00e3o semeando cada pa\u00eds de bombas e metralha. Depois da provoca\u00e7\u00e3o contra o Ir\u00e3o, com pompa e circunst\u00e2ncia Donald Trump apresentou ao mundo o \u201cacordo do s\u00e9culo\u201d como solu\u00e7\u00e3o de paz para o conflito israelo-\u00e1rabe no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o da Palestina. Sem esconder a satisfa\u00e7\u00e3o, o primeiro-ministro israelita assistiu, junto ao presidente norte-americano, ao an\u00fancio, que fez do inquilino da Casa Branca, segundo Benjamin Netanyahu, o primeiro l\u00edder mundial a reconhecer a soberania de Israel nas \u00e1reas da Judeia e da Samaria, que s\u00e3o vitais para a seguran\u00e7a e centrais para o \u201clegado\u201d israelita.<br> <br>O documento de 80 p\u00e1ginas prev\u00ea uma solu\u00e7\u00e3o de dois Estados: um israelita e outro palestiniano, com a capital em Jerusal\u00e9m Oriental, onde Trump afirmou que os Estados Unidos abririam uma embaixada. De acordo com o projeto, os colonatos israelitas na Cisjord\u00e2nia seriam reconhecidos, em troca do congelamento da sua constru\u00e7\u00e3o durante os pr\u00f3ximos quatro anos.<br> <br>\u201cEste plano duplicar\u00e1 o territ\u00f3rio palestino e estabelecer\u00e1 a capital do Estado palestiniano em Jerusal\u00e9m Oriental, onde os EUA orgulhosamente abrir\u00e3o uma embaixada\u201d, afirmou, acrescentando que o acordo \u201cacabar\u00e1 com o ciclo de depend\u00eancia palestiniana da caridade e da ajuda estrangeira\u201d. Mas Trump indicou que a iniciativa prev\u00ea que Jerusal\u00e9m seja \u201ca capital indivis\u00edvel\u201d de Israel recordando que j\u00e1 reconheceu esse estatuto em dezembro de 2017. J\u00e1 o primeiro-ministro israelita, que considerou \u201chist\u00f3rico\u201d o acordo proposto, recordou que o primeiro passo seria o reconhecimento de Israel como Estado judeu por parte das autoridades palestinianas, numa iniciativa que al\u00e9m de impedir o regresso dos refugiados palestinianos mant\u00e9m a soberania de Telavive sobre o Vale do Jord\u00e3o. As for\u00e7as da resist\u00eancia palestiniana, como o Hamas e a FPLP, devem entregar todas as armas e desmilitarizar a Faixa de Gaza. O \u201cacordo do s\u00e9culo\u201d prev\u00ea ainda que a Palestina n\u00e3o tenha for\u00e7as armadas pr\u00f3prias e que muitos dos seus recursos naturais sejam controlados por Israel.<br> <br>Para al\u00e9m da revolta nas ruas por parte da popula\u00e7\u00e3o palestiniana, o presidente Mahmoud Abbas manteve uma pouco habitual conversa telef\u00f3nica com Ismail Haniyeh, l\u00edder do Hamas, que governa o enclave de Gaza, para enfrentar o plano de paz anunciado pelo presidente norte-americano. Os l\u00edderes de todas as organiza\u00e7\u00f5es palestinianas, incluindo o Hamas, reuniram-se, depois, em Ramallah, sede do governo palestiniano, para definir uma resposta comum, quando o plano de paz estava a ser apresentado, em Washington. Tanto a Liga \u00c1rabe como o Ir\u00e3o e a R\u00fassia rejeitaram o plano. Numa entrevista, Dmitri Peskov, porta-voz de Vladimir Putin, insistiu que \u201cexiste todo um conjunto de resolu\u00e7\u00f5es do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU\u201d e que \u201cest\u00e1 claro que algumas das disposi\u00e7\u00f5es deste plano n\u00e3o correspondem de todo \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es das resolu\u00e7\u00f5es do Conselho de Seguran\u00e7a\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">A \u00c1frica do Sul do M\u00e9dio Oriente <\/h2>\n\n\n\n<p>Desde que foi criado, em 1948, o Estado de Israel representa os interesses do imperialismo norte-americano numa regi\u00e3o rica em reservas de petr\u00f3leo e outros recursos. Apesar de n\u00e3o assumir o seu arsenal de armas nucleares, \u00e9 perfeitamente sabido que o Estado que melhor representa os interesses de Washington no M\u00e9dio Oriente possui essa op\u00e7\u00e3o militar. Mas o apartheid que Israel exerce sobre o povo palestiniano n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica semelhan\u00e7a com o anterior regime racista da \u00c1frica do Sul. O plano prev\u00ea justamente a cria\u00e7\u00e3o de uma s\u00e9rie de enclaves palestinianos muito semelhantes aos bantust\u00f5es, onde viviam os negros, a que os governos brancos sul-africanos davam relativa autonomia para comprar alguma paz no seu territ\u00f3rio.<br><br>A \u00c1frica do Sul representou, ali\u00e1s, os interesses do imperialismo na parte austral do continente africano e suportou durante muitos anos for\u00e7as coloniais e reacion\u00e1rias que lutavam contra quem procurava construir em v\u00e1rios pa\u00edses alternativas progressistas. Foi a derrota do ex\u00e9rcito sul-africano em Angola que iniciou o princ\u00edpio do fim deste regime que mantinha, entre outras coisas, a Nam\u00edbia ocupada.<br><br>J\u00e1 Israel, em 1967, durante a Guerra dos Seis Dias, ocupou parte da S\u00edria, onde se mant\u00e9m, e do Egito e atacou a Jord\u00e2nia e o Iraque, numa manobra que levou \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o de mais territ\u00f3rios palestinianos. O Estado israelita agrediu tamb\u00e9m v\u00e1rias vezes o L\u00edbano e tem tido uma participa\u00e7\u00e3o ativa na guerra na S\u00edria.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Ir\u00e3o na mira do imp\u00e9rio<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas os interesses de Washington e, muitas vezes das principais pot\u00eancias da Europa Ocidental, expressaram-se ao longo da hist\u00f3ria de diferentes modos. \u00c9, sobretudo, depois da 2.\u00aa Guerra Mundial que os Estados Unidos se imp\u00f5em como primeira pot\u00eancia mundial e alargam o seu hist\u00f3rico de interfer\u00eancias ao mundo inteiro. Em mar\u00e7o de 1951, o primeiro-ministro iraniano Mohammed Mossadegh anunciou a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo depois de v\u00e1rios setores pol\u00edticos se mostrarem favor\u00e1veis \u00e0 decis\u00e3o. O Reino Unido j\u00e1 anunciara san\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas com o objetivo de asfixiar o pa\u00eds quando organiza\u00e7\u00f5es clandestinas organizavam atentados dentro do pa\u00eds. Perante as amea\u00e7as de Londres, Mossadegh defendeu a posi\u00e7\u00e3o assumida pelo seu governo ante o Conselho de Seguran\u00e7a da ONU e tamb\u00e9m perante o Tribunal Internacional, em Haia, onde nenhum dos organismos foi capaz de ir contra a nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo iraniano. De tal forma que em 1951 o primeiro-ministro do Ir\u00e3o era considerado o homem do ano pela revista Time enquanto a imprensa ocidental insistia em descredibilizar Mossadegh.<\/p>\n\n\n\n<p>Com um contexto interno complexo, o l\u00edder do governo iraniano tinha de enfrentar a oposi\u00e7\u00e3o do x\u00e1 Mohammad Reza Pahlavi, monarca daquele pa\u00eds. Em julho de 1952, Mossadegh demitia-se perante as press\u00f5es de Pahlavi e as ruas voltaram a devolv\u00ea-lo ao cargo no mesmo m\u00eas. Refor\u00e7ado politicamente, anunciou mais medidas pol\u00edticas de car\u00e1ter progressista que desencadearam o \u00f3dio da oligarquia local e das grandes pot\u00eancias.<br> <br>Nesse mesmo ano, agentes dos servi\u00e7os secretos brit\u00e2nicos e da CIA planificaram uma a\u00e7\u00e3o que desembocou no golpe de Estado que derrubou Mossadegh no ano seguinte e rep\u00f4s o poder do x\u00e1. Foi em 1979 que uma revolu\u00e7\u00e3o dep\u00f4s o regime iraniano afastando novamente Teer\u00e3o da \u00f3rbita imperialista. A rutura fez regressar novamente a conspira\u00e7\u00e3o contra o pa\u00eds, num ass\u00e9dio que se mant\u00e9m at\u00e9 aos dias de hoje. Logo a seguir \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o, os Estados Unidos incitaram Saddam Hussein a invadir o Ir\u00e3o com o apoio de Washington numa guerra que durou sete anos e deixou centenas de milhares de mortos.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O caos como forma de domina\u00e7\u00e3o<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Mas se a interven\u00e7\u00e3o direta do imperialismo esbarrou durante d\u00e9cadas com a exist\u00eancia da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, com prest\u00edgio em muitos dos pa\u00edses da regi\u00e3o, o fim do bloco socialista no Leste da Europa abriu caminho a uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que conduziu a a\u00e7\u00f5es cada vez mais agressivas por parte de Washington e dos seus aliados. A primeira Guerra do Golfo contra o Iraque, desencadeada no ano em que a URSS se desagrega, foi o pr\u00f3logo de um historial de interven\u00e7\u00f5es que come\u00e7ou depois do ataque de 11 de setembro de 2001.<br> <br>Logo em outubro desse mesmo ano, os Estados Unidos lideram o assalto ao Afeganist\u00e3o contra os seus velhos aliados na luta contra o governo progressista naquele pa\u00eds. Os talibans que haviam instalado um regime autocr\u00e1tico viam-se agora na mira de Washington que dois anos depois organizavam a Cimeira dos A\u00e7ores para fazer novamente soar os tambores da guerra agitando a mentira das armas de destrui\u00e7\u00e3o massiva no Iraque. Foi o suficiente. Em 2003, uma coliga\u00e7\u00e3o internacional rasgava as leis internacionais e invadia o Iraque.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois das guerras lideradas pelo presidente republicano George W. Bush, Barack Obama chegou para mostrar que nesta nova era os democratas continuam alinhados com os interesses imperialistas. Desta vez com o apoio mais ativo da Uni\u00e3o Europeia e com a NATO, bra\u00e7o armado do Ocidente, a v\u00edtima foi um dos pa\u00edses com melhores indicadores de desenvolvimento no continente africano. A 15 de fevereiro de 2011, come\u00e7ava a invas\u00e3o da L\u00edbia e queda de Muammar Khadafi lan\u00e7ando o pa\u00eds numa divis\u00e3o tribal sem fim.<br> <br>A recoloniza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o avan\u00e7ou numa estrat\u00e9gia de agress\u00e3o que assumiu velhas e novas formas, aproveitando o descontentamento popular, com elementos genu\u00ednos e tamb\u00e9m de inger\u00eancia externa, para impor governos alinhados com os interesses de Washington e da Uni\u00e3o Europeia. Em mar\u00e7o de 2011, os protestos na S\u00edria e a introdu\u00e7\u00e3o de mercen\u00e1rios e grupos ligados \u00e0 al-Qaeda, com o surgimento do Estado Isl\u00e2mico, conduziram a uma guerra que teve o alto patroc\u00ednio da Turquia, Ar\u00e1bia Saudita, Israel, para al\u00e9m dos suspeitos habituais. S\u00f3 a participa\u00e7\u00e3o direta da R\u00fassia e do Ir\u00e3o no apoio ao governo de Bashar al-Assad permitiu derrotar a amea\u00e7a de uma for\u00e7a obscura que deixou pelo caminho centenas de atentados na Europa e noutros lugares do mundo.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">O imperialismo \u00e9 um tigre de borracha<br><\/h2>\n\n\n\n<p>A entrada em cena de outros atores veio desestabilizar as inten\u00e7\u00f5es na regi\u00e3o. Se o caos beneficiava a pol\u00edtica norte-americana e europeia de subtrair \u00e0queles pa\u00edses os seus recursos, a participa\u00e7\u00e3o da R\u00fassia e do Ir\u00e3o a pedido do governo s\u00edrio veio dar uma nova din\u00e2mica \u00e0 regi\u00e3o. Hoje, praticamente todo o territ\u00f3rio s\u00edrio est\u00e1 libertado e pacificado \u00e0 exce\u00e7\u00e3o da zona de Idlib, onde todavia se concentram for\u00e7as terroristas, e da regi\u00e3o onde se concentram os po\u00e7os de petr\u00f3leo \u00e0 guarda das tropas norte-americanas com a permiss\u00e3o dos curdos. No Iraque, a provoca\u00e7\u00e3o norte-americana contra o Ir\u00e3o atrav\u00e9s do assassinato do General Soleimani mostra como a influ\u00eancia de Teer\u00e3o incomoda cada vez mais Washington que v\u00ea a sua for\u00e7a dissipar-se em todo o territ\u00f3rio. As negocia\u00e7\u00f5es sobre a L\u00edbia mostram tamb\u00e9m que aparecem outros atores como pe\u00e7as-chave para uma decis\u00e3o que d\u00ea fim \u00e0 guerra e, no I\u00e9men, uma das mais b\u00e1rbaras e silenciadas guerras, mostra como a Ar\u00e1bia Saudita n\u00e3o consegue imp\u00f4r a sua for\u00e7a contra os Hutis.<br><br>Com a perda de influ\u00eancia econ\u00f3mica, os Estados Unidos recorrem ao seu poderio militar para impor na regi\u00e3o o saque de recursos ao velho estilo colonial impedindo cada povo de decidir o seu pr\u00f3prio futuro em paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o h\u00e1 nada mais parecido com um barril de p\u00f3lvora do que o M\u00e9dio Oriente. Sob milh\u00f5es de vidas que gostariam t\u00e3o somente de poder viver em paz, jazem riquezas naturais que despertam desde sempre a gula dos Estados Unidos e das principais pot\u00eancias da Uni\u00e3o Europeia. 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