{"id":2927,"date":"2020-01-06T22:29:38","date_gmt":"2020-01-06T22:29:38","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2927"},"modified":"2020-02-03T11:39:46","modified_gmt":"2020-02-03T11:39:46","slug":"a-primeira-biografia-portuguesa-de-karl-marx","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/01\/06\/a-primeira-biografia-portuguesa-de-karl-marx\/","title":{"rendered":"A primeira biografia portuguesa de Karl Marx"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Em\u00edlio Costa<\/h2>\n\n\n\n<p>Em\u00edlio Costa nasceu em 1877 em Portalegre. Foi uma\ndas grandes refer\u00eancias intelectuais do sindicalismo\nportugu\u00eas na primeira metade do s\u00e9culo XX. Al\u00e9m de\nter integrado a Associa\u00e7\u00e3o dos Professores de Portugal,\nprecursora da actual FENPROF.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Numa altura que viveu em Paris, chegou a ser secret\u00e1rio do pedagogo catal\u00e3o Francesc Ferrer, o fundador da \u201cEscola Moderna\u201d que morreu fuzilado pelo estado espanhol em 1909. <\/p>\n\n\n\n<p>Anarquista, Em\u00edlio Costa esteve ligado \u00e0 ma\u00e7onaria\ne \u00e0 carbon\u00e1ria. Foi preso pol\u00edtico na monarquia, apoiou\na implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, foi dirigente da revista\nSeara Nova e ainda se destacou no Movimento de Uni-\ndade Democr\u00e1tica (MUD) contra a ditadura de Salazar.\nFaleceu em 1952.\n<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Jos\u00e9 da Silva Oliveira  <\/h2>\n\n\n\n<p>O editor que publicou a primeira biografia portuguesa de Karl Marx tamb\u00e9m merece ser recordado. Antigo oper\u00e1rio gr\u00e1fico, seu nome era Jos\u00e9 da Silva Oliveira. Nasceu em 1890 na P\u00f3voa do Varzim. Em 1919 ele foi um dos 17 fundadores da Federa\u00e7\u00e3o Maximalista, estrutura embri\u00e3o do Partido Comunista Portugu\u00eas, ao lado do empregado ferrovi\u00e1rio Manuel Ribeiro, do oper\u00e1rio metal\u00fargico Ant\u00f3nio Peixe, e do oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil Joaquim Cardoso, entre outros. Faleceu em 1948.\n<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Um livro \u201cperigoso\u201d  <\/h2>\n\n\n\n<p>Simplesmente intitulado \u201cKarl Marx\u201d, este livro do\nprofessor Em\u00edlio Costa recebeu na altura elogios pela\nsua clareza e imparcialidade. Perante a aguda divis\u00e3o\nentre anarquistas e comunistas que se verificava no\nmovimento oper\u00e1rio portugu\u00eas, marcou desde logo\numa diferen\u00e7a.\n<\/p>\n\n\n\n<p>Dos coment\u00e1rios na imprensa da \u00e9poca, destacamos aquele que seria na altura o mais importante jornal sindical portugu\u00eas: <em>O Reduto<\/em>, \u00f3rg\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o dos Trabalhadores dos Transportes e Comunica\u00e7\u00f5es. Era dirigido por Jos\u00e9 de Sousa, um dos principais respons\u00e1veis pela reorganiza\u00e7\u00e3o de 1929 do PCP, que lan\u00e7ou este partido na resist\u00eancia clandestina contra a ditadura. <\/p>\n\n\n\n<p>Aludindo que Em\u00edlio Costa n\u00e3o era marxista, <em>O Reduto <\/em>apontou que havia neste livro \u201crebeldias naturais de um professor anarquista\u201d, mas sublinhou que \u201cpor outro lado encontramos, com abund\u00e2ncia, conceitos\ndo autor impregnados de um profundo marxismo\u201d.\n<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 o <em>Di\u00e1rio de Not\u00edcias <\/em>considerou que se tratava de\num livro \u201cperigoso\u201d. E a ditadura militar concordou:\nacabou sendo apreendido pela pol\u00edcia nas livrarias de\nLisboa&#8230;\n<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Marx desconhecido  <\/h2>\n\n\n\n<p>Historiadores como Alfredo Margarido e Ant\u00f3nio Ventura t\u00eam apontado que Em\u00edlio Costa revelava um conhecimento muito limitado da obra de Marx. Parece realmente ter-se baseado sobretudo em fontes indirectas, no que outros autores tinham comentado, e n\u00e3o num conhecimento directo. <\/p>\n\n\n\n<p>Ainda assim, Em\u00edlio Costa apresentava uma an\u00e1lise com v\u00e1rias semelhan\u00e7as \u00e0 de Marcel Ollivier, colaborador do Instituto Marx-Engels em Moscovo, que prefaciou e traduziu para Fran\u00e7a uma biografia de Marx na mesma \u00e9poca. <\/p>\n\n\n\n<p>Ambos apontaram que o marxismo era muito mal conhecido nos respectivos pa\u00edses. E criticaram por isso os velhos partidos socialistas, apontando que a Revolu\u00e7\u00e3o Russa \u00e9 que tinha despertado uma renovada difus\u00e3o internacional do marxismo. <\/p>\n\n\n\n<p>Grande parte da obra de Marx ainda n\u00e3o tinha sido publicada e n\u00e3o era conhecida de todo. Incluindo livros t\u00e3o importantes para se compreender o seu pensamento como os <em>Manuscritos Economico-filos\u00f3ficos de 1844 <\/em>ou os <em>Grundrisse<\/em>. <\/p>\n\n\n\n<p>L\u00e9nine nunca chegou a conhecer esses textos que denotavam a influ\u00eancia de Hegel, o fil\u00f3sofo que mais marcou Marx. Mas teve uma intui\u00e7\u00e3o que o levou, tr\u00eas anos antes da revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, a estudar directamente a dial\u00e9ctica de Hegel. E foi ao ponto de dizer que ainda nenhum marxista tinha realmente compreendido Marx! (L\u00e9nine, <em>Cahiers sur la dialectique de Hegel<\/em>, \u00c9ditions Gallimard, Paris, 1967, p.241) <br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Luta de classes  <\/h2>\n\n\n\n<p>Onde L\u00e9nine pretendia chegar era \u00e0 cr\u00edtica do reformismo da 2a Internacional Socialista. O marxismo tendeu a\u00ed a ser lido como um determinismo economicista para quem a transforma\u00e7\u00e3o social seria uma esp\u00e9cie de heran\u00e7a pac\u00edfica do desenvolvimento do capitalismo, menosprezando a luta de classes e a import\u00e2ncia da ac\u00e7\u00e3o consciente e organizada da classe trabalhadora. <\/p>\n\n\n\n<p>Tal como Marcel Ollivier, Em\u00edlio Costa tamb\u00e9m chegou a\u00ed. <\/p>\n\n\n\n<p>Criticando as leituras do marxismo demasiado deterministas, o futuro diretor escolar d\u2019<em>A Voz do Oper\u00e1rio <\/em>citou uma advert\u00eancia de Friederich Engels: \u201ca evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, jur\u00eddica, filos\u00f3fica, religiosa, liter\u00e1ria, art\u00edstica, etc, assenta sobre a evolu\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica. Mas todas elas reagem umas sobre as outras e sobre a base econ\u00f3mica\u201d. E concluiu com Engels: \u201cn\u00e3o \u00e9 que a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica seja a \u00fanica causa activa, e tudo o mais apenas um efeito passivo\u201d. Embora condicionados por ela, \u201cos pr\u00f3prios homens \u00e9 que fazem a sua hist\u00f3ria\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Em\u00edlio Costa dedicou a primeira biografia portuguesa de Karl Marx \u201c\u00e0 mem\u00f3ria daqueles, j\u00e1 levados pela morte, que em Portugal consagraram o melhor da sua vida \u00e0 causa da emancipa\u00e7\u00e3o dos trabalhadores \u2013 dos pobres, dos oprimidos\u201d. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O primeiro livro escrito e publicado em Portugal sobre a vida e obra de Karl Marx surgiu em Outubro de 1930.  O seu autor foi o professor Em\u00edlio Costa. Al\u00e9m de colaborador deste jornal, ele viria a ser diretor escolar d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Fez parte de uma s\u00e9rie de not\u00e1veis pedagogos antifascistas que exerceram esse cargo entre 1929 e 1937, com Adolfo Lima, Mariano Roque Laia e Sim\u00f5es Raposo Junior.<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":2929,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[93],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2927"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2927"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3023,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2927\/revisions\/3023"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2927"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=2927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}