{"id":2915,"date":"2020-01-06T22:17:14","date_gmt":"2020-01-06T22:17:14","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2915"},"modified":"2020-02-03T11:25:45","modified_gmt":"2020-02-03T11:25:45","slug":"pisa-com-cuidado-e-nos-meus-sonhos-que-estas-a-pisar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2020\/01\/06\/pisa-com-cuidado-e-nos-meus-sonhos-que-estas-a-pisar\/","title":{"rendered":"PISA com cuidado, e\u0301 nos meus sonhos que esta\u0301s a pisar"},"content":{"rendered":"\n<p>Estudos internacionais, como o TIMSS, o PISA, o PIRLS ou o TALIS, tornaram-se fortes influ\u00eancias junto dos decisores pol\u00edticos, dos gestores escolares e da comunica\u00e7\u00e3o social. Portugal participa no PISA desde o seu primeiro ciclo em 2000. At\u00e9 2012 apresentou resultados abaixo da m\u00e9dia da OCDE. Em 2015, os resultados ultrapassam essa m\u00e9dia nos tr\u00eas dom\u00ednios analisados (Literacias Cient\u00edfica, Matem\u00e1tica e de Leitura) e Portugal passa a ser apresentado pela OCDE como um \u201ccaso de sucesso\u201d. Os resultados de 2018 parecem confirmar o sucesso. Entretanto, enquanto uns e outros reclamam como seus os cr\u00e9ditos pelos resultados, existem um conjunto de indicadores que, por ironia, para al\u00e9m de terem uma consist\u00eancia comprovada e de n\u00e3o aparecem nos diferentes meios de comunica\u00e7\u00e3o, permitem-nos olhar com mais cautela para o suposto sucesso. <\/p>\n\n\n\n<p>A escola atual tem como \u00fanico objetivo preparar os alunos para competir por postos de trabalho, no atual sistema capitalista. Aos olhos das pol\u00edticas de direita qualidade na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 a sua prostitui\u00e7\u00e3o: fomentar a submiss\u00e3o e a obedi\u00eancia, promover a disciplina, impedir o aborto, promover a fam\u00edlia patriarcal, um curr\u00edculo fechado, universidade para alguns, etc. <\/p>\n\n\n\n<p>O interesse exclusivo s\u00e3o os resultados a leitura, matem\u00e1tica e ci\u00eancias. N\u00e3o entendam mal. A sua import\u00e2ncia \u00e9 evidente. Mas \u00e9 insuficiente para elaborar quadros de refer\u00eancia para as pol\u00edticas educativas e para a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. <\/p>\n\n\n\n<p>Uma vez tornados p\u00fablicos estes resultados convertem-se no principal foco de aten\u00e7\u00e3o de todos os atores: governo, gestores, professores, alunos e fam\u00edlias. Num momento em que o modelo economicista continua a dar sinais evidentes de fal\u00eancia, sobretudo pelo enfraquecimento do movimento democr\u00e1tico e de cidadania, \u00e9 preciso sublinhar a import\u00e2ncia de conhecimentos, procedimentos e valores sistematicamente esquecidos. As habilidades art\u00edsticas, a capacidade de interpretar momentos hist\u00f3ricos, fen\u00f3menos pol\u00edticos e sociais, as compet\u00eancias comunicativas, a forma\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, a capacidade de an\u00e1lise cr\u00edtica, a educa\u00e7\u00e3o afetivo-sexual, o desenvolvimento psicomotor e as capacidades desportivas. Ou ainda dimens\u00f5es fundamentais para as sociedades democr\u00e1ticas: conhecimento dos direitos humanos, compet\u00eancias de resolu\u00e7\u00e3o de conflitos, participa\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o da vida quotidiana das escolas, capacidade de argumenta\u00e7\u00e3o, compet\u00eancias de coopera\u00e7\u00e3o, colabora\u00e7\u00e3o e ajuda, responsabilidade, autonomia, compromisso com a democracia, valores, prioridades na vida. <\/p>\n\n\n\n<p>Creio que ningu\u00e9m duvida da necessidade de se avaliar os resultados escolares e os sistemas educativos. Mas, mais importante do que se fazer essa avalia\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso saber a servi\u00e7o de quem \u00e9 que ela se coloca. <\/p>\n\n\n\n<p>Em 2009 Jacques Hallak e Muriel Poisson denunciam a exist\u00eancia de corrup\u00e7\u00e3o nos sistemas educativos. No seu livro <em>\u00c9coles Corrompues, Universit\u00e9s Corrompues: Que Faire? <\/em>podemos encontrar os principais indicadores de um sistema educativo corrupto. Por estranho que pare\u00e7a, podemos igualmente ser confrontados com alguns destes indicadores no relat\u00f3rio nacional editado pelo IAVE sobre os resultados do PISA (2019). Existem v\u00e1rios. Ilustraremos alguns. <\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o relat\u00f3rio Portugal encontra-se entre os pa\u00edses com maior disparidade econ\u00f3mica, social e cultural entre os alunos. Estes dados h\u00e1 muito que s\u00e3o conhecidos e documentados nos relat\u00f3rios da Comiss\u00e3o Europeia. Vejam-se os relat\u00f3rios a partir dos anos 2000. <\/p>\n\n\n\n<p>Relativamente aos resultados em leitura, podemos verificar que alunos desfavorecidos t\u00eam 3 vezes mais probabilidades de terem maus resultados do que alunos favorecidos (este efeito \u00e9 maior em Portugal do que nos restantes pa\u00edses de OCDE). Ou, em 10 alunos provenientes de fam\u00edlias desfavorecidas, apenas 1 tem bons resultados em leitura. <\/p>\n\n\n\n<p>No que diz respeito \u00e0s expectativas, \u00e9 alarmante que Portugal seja um dos pa\u00edses em que a diferen\u00e7a entre os alunos mais e menos favorecidos quanto \u00e0 expectativa de concluir o ensino superior seja mais expressiva. Dito de outra forma, quase todos os alunos dos meios mais favorecidos pretendem concluir o ensino superior, enquanto apenas 50% dos alunos com estatuto socioecon\u00f3mico mais baixo tem este desejo. Igualmente alarmante, considerando os indicadores j\u00e1 referidos, \u00e9 o facto de os alunos mais desfavorecidos estarem satisfeitos com a vida, com a escola e com os projetos que t\u00eam para o seu futuro. Por este motivo, em vez de expectativas dever\u00edamos chamar adequa\u00e7\u00e3o de expectativas. Parece que a escola que temos leva os alunos desfavorecidos a considerar que o ensino universit\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 para eles. Mas \u00e9 assim que deve ser. N\u00e3o s\u00f3 adequa as expectativas como tamb\u00e9m os faz ficar felizes com aquilo que lhes \u00e9 devido. N\u00e3o h\u00e1 muito tempo a OCDE apelidou o sistema educativo portugu\u00eas de <em>Elevador Social Avariado. <\/em>A exist\u00eancia de diferentes percursos acad\u00e9micos n\u00e3o seria grave se o que os distinguisse n\u00e3o fosse a condi\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica, social e cultural dos alunos. <\/p>\n\n\n\n<p>Deste modo, parece que estamos perante a utiliza\u00e7\u00e3o\ndas institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas para a obten\u00e7\u00e3o de benef\u00edcios\nprivados, com um impacto significativo no acesso, na\nqualidade e equidade educativa. Aproveitando a forte\ncultura do Hip-Hop Portugu\u00eas: \u201cS\u00e3o velhas lutas com as\nnovas putas que a crise fez\u201d (Sam The Kid).\n<\/p>\n\n\n\n<p>Uma escola para a cidadania democr\u00e1tica precisa p\u00f4r-se em contacto com conte\u00fados culturais que permitam desenvolver uma compreens\u00e3o racional do mundo em que vivemos e fazer-se acompanhar de modelos organizacionais participativos, interativos e cooperativos. Pela m\u00e3o de Dewey lemos que a urna foi concebida para a substitui\u00e7\u00e3o das balas. Por\u00e9m, isto nunca ser\u00e1 poss\u00edvel sem um verdadeiro projeto educacional para uma sociedade democr\u00e1tica. No ano em que se comemoram os 45 anos do 25 de Abril, 60 anos da Declara\u00e7\u00e3o Universal dos Direitos da Crian\u00e7a e 30 anos da Conven\u00e7\u00e3o Internacional sobre os Direitos das Crian\u00e7as resta-nos perguntar: Que crian\u00e7as? Que democracia? <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estudos internacionais, como o TIMSS, o PISA, o PIRLS ou o TALIS, tornaram-se fortes influ\u00eancias junto dos decisores pol\u00edticos, dos gestores escolares e da comunica\u00e7\u00e3o social. Portugal participa no PISA desde o seu primeiro ciclo em 2000. At\u00e9 2012 apresentou resultados abaixo da m\u00e9dia da OCDE. 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