{"id":2869,"date":"2019-12-02T16:34:33","date_gmt":"2019-12-02T16:34:33","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2869"},"modified":"2019-12-02T19:56:26","modified_gmt":"2019-12-02T19:56:26","slug":"jose-mario-branco-um-companheiro-nesta-viagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/12\/02\/jose-mario-branco-um-companheiro-nesta-viagem\/","title":{"rendered":"Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco: um companheiro nesta viagem"},"content":{"rendered":"\n<p>Na madrugada de 19 de Novembro, morreu Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, aos 77 anos. Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, o Z\u00e9 M\u00e1rio, m\u00fasico, cantor, cantautor, compositor, arranjador, militante. Ou como diria, no fecho de \u00abFMI\u00bb: \u00abportugu\u00eas, pequeno-burgu\u00eas de origem, filho de professores prim\u00e1rios, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro [\u2026] do Porto, muito mais vivo que morto\u00bb.<br><br>Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco deixa-nos uma obra vasta. Vasta de interroga\u00e7\u00f5es, respostas, verdades, alertas, caminhos abertos para o que vir\u00e1, pois, \u00abque caminho t\u00e3o longo, que viagem t\u00e3o comprida, que deserto t\u00e3o grande, sem fronteira nem medida [\u2026] ventre calmo da terra, leva-me na tua guerra, se \u00e9s minha amiga\u00bb. Uma obra vasta que foi a todo o lado onde podia ir, onde Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco quis ir: a m\u00fasica de interven\u00e7\u00e3o, a <em>chanson fran\u00e7aise<\/em>, o <em>jazz <\/em>e o <em>blues<\/em>, o<em> rock<\/em> e as guitarras el\u00e9ctricas, o <em>rap<\/em>, o fado e as marchas populares, os coros e gente que se junta, a m\u00fasica cl\u00e1ssica e os quartetos de cordas, a m\u00fasica popular a dar uma m\u00e3ozinha imprescind\u00edvel.<br><br>E, assim, n\u00e3o andou sozinho: fundou o Grupo de Ac\u00e7\u00e3o Cultural (GAC) \u2013 Vozes na Luta, participou em discos de Jos\u00e9 Afonso, S\u00e9rgio Godinho, Jos\u00e9 Jorge Letria, Carlos do Carmo, Janita Salom\u00e9, Gaiteiros de Lisboa, Am\u00e9lia Muge, Caman\u00e9 ou K\u00e1tia Guerreiro, gravou com os M\u00e3o Morta e os Peste &amp; Sida. Participou em filmes de Jo\u00e3o Canijo, Jo\u00e3o C\u00e9sar Monteiro, Jorge Silva Melo, Lu\u00eds Galv\u00e3o Teles, Paulo Rocha, Rita Azevedo Gomes ou Solveig Nordlund. Fez teatro e m\u00fasica para teatro, em Fran\u00e7a, no Groupe Organon, e em Portugal, na Comuna, no Teatro do Mundo \u2013 companhia que fundou \u2013, no Teatro Experimental de Cascais, na Cornuc\u00f3pia, n\u2019O Bando, n\u2019A Barraca.<br><br>Militou em partidos: no PCP, na UDP e no BE. Militou em jornais: na <em>Pol\u00edtica Oper\u00e1ria<\/em>, no <em>Mudar de vida<\/em>, no <em>Passa Palavra<\/em>. Foi solid\u00e1rio com lutas de trabalhadores e estudantes, percorreu o pa\u00eds durante o PREC, a cantar, a ensinar, a aprender. Zangou-se, rompeu, desiludiu-se muitas vezes. Foi solid\u00e1rio, assim, p\u2019ral\u00e9m da vida.<br> <br>Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, marginal de certa maneira, cantou contra a guerra em \u00abA ronda do soldadinho\u00bb, em 1969, e voltou ao tema do colonialismo, muitos anos depois, em 2004, em \u00abCanto dos torna-viagem\u00bb. Cantou contra o paternalismo e o machismo, em \u00abAqui dentro de casa\u00bb. Contou a desilus\u00e3o do 25 de Novembro em \u00abEu vim de longe, eu vou para longe\u00bb. Denunciou o poder dos m\u00e9dia, da sua luz brilhante, omnipresente-nesga e hipnotizante, em \u00abMenina dos meus olhos\u00bb. Deixou-nos sementes do seu peito, em \u00abEh! Companheiro\u00bb.<br><br>Num concerto, dizia que \u00aba afina\u00e7\u00e3o \u00e9 um conceito pequeno-burgu\u00eas\u00bb, depois de se ter demorado a afinar a guitarra. Uma contradi\u00e7\u00e3o descontra\u00edda, para quem era importante a clareza da mensagem: para se perceber, para ter impacto, \u00e9 preciso ouvir-se bem, era preciso passar bem a mensagem, com qualidade. Fosse em concertos solid\u00e1rios \u2013 e houve tantos, para tantos de n\u00f3s, todos eles importantes \u2013, como em concertos nas grandes salas de espect\u00e1culo. No Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco havia uma grande exig\u00eancia com o presente para construir o futuro. E um compromisso com os que \u00absomos explorados no trabalho, e n\u00e3o s\u00f3\u00bb.<br><br>Interrogou-nos, a certa altura (foi em 1978, n\u2019<em>A M\u00e3e<\/em>), no meio das canseiras desta vida, se \u00ab\u00e9 na morte ou \u00e9 na vida que est\u00e1 a chave escondida\u00bb. E agora, Z\u00e9 M\u00e1rio, depois de tantos anos de inquieta\u00e7\u00f5es (ai, porqu\u00ea n\u00e3o sei, mas sei, \u00e9 que n\u00e3o sei \u2013 ainda), perguntamos: como continuar?<br> Em tens\u00e3o, \u00abcomo um arco tenso com a seta apontada para o futuro\u00bb. E acompanhado: nesta viagem cada um vai metendo \u00abum pauzinho na engrenagem\u00bb.<br><br><em>Em 2018, Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco reeditou toda a sua obra em disco, editou um novo disco de in\u00e9ditos e disponibilizou todo o seu arquivo no CESEM da FCSH-UNL, <a href=\"https:\/\/arquivojosemariobranco.fcsh.unl.pt\/?fbclid=IwAR280BRHCK11m-_3ITHkxhUjRhvv1YMS4HVgR7J_GYXzDkWUNAIBbwjbt5Y\">que pode ser consultado online<\/a>. S\u00e3o ferramentas para mudar de vida.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na madrugada de 19 de Novembro, morreu Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, aos 77 anos. Jos\u00e9 M\u00e1rio Branco, o Z\u00e9 M\u00e1rio, m\u00fasico, cantor, cantautor, compositor, arranjador, militante. 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