{"id":2740,"date":"2019-11-07T15:18:19","date_gmt":"2019-11-07T15:18:19","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2740"},"modified":"2019-11-08T10:38:15","modified_gmt":"2019-11-08T10:38:15","slug":"alicia-sempre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/11\/07\/alicia-sempre\/","title":{"rendered":"Alicia &#8211; Sempre"},"content":{"rendered":"\n<p>Alicia-Ernestina, t\u00e3o pequenina, quer ser bailarina. Rodopia ao som dos discos da m\u00e3e, caminha em bicos de p\u00e9s, move-se <em>como Isadora Duncan, n\u00e3o sabia o que era dan\u00e7ar<\/em>. Nos anos 20 do ido s\u00e9culo, a dan\u00e7a foi desejo de menina, primeiros passos na Escuela de Sociedad Pro-Arte Musical de Havana. N\u00e3o tem o corpo ideal, mas tem a extens\u00e3o, o golpe e a for\u00e7a. <em>\u00c9 isto que quero fazer o resto da vida<\/em>. Alicia-Bela-Adormecida sobe ao palco pela primeira vez. A ternura dos 16 traz-lhe Fernando, a dan\u00e7a foi amor. Voam para Nova Iorque e Alicia-m\u00e3e traz Laura ao mundo. A vida \u00e9 dif\u00edcil na ruidosa grande-ma\u00e7\u00e3, \u00e9 preciso trabalho e ousadia. Alicia-coragem estreia-se na com\u00e9dia musical, mas continua o treino cl\u00e1ssico. <em>Como uma esponja<\/em>, estuda com L. Fokine, A. Fedorova, E. Zanfretta, A. Vilzak na <em>School of American Ballet<\/em>.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>Alicia-mulher, mundo todo nos bra\u00e7os e pernas, vontade f\u00e9rrea na ponta dos p\u00e9s, junta-se ao rec\u00e9m-criado <em>Ballet Theatre<\/em>. O treino f\u00edsico \u00e9 implac\u00e1vel. S\u00f3 tem 20 anos e falham-lhe os olhos com tanto para ver, as cirurgias golpeiam-lhe a vida. Alicia-dor aponta e estica os dedos, desorientada. <em>Dan\u00e7o na minha cabe\u00e7a<\/em>. V\u00e9speras de estreia, a vedeta adoece, \u00e9 preciso algu\u00e9m para o grande papel. A oportunidade \u00e9 agora, a dan\u00e7a foi sacrif\u00edcio. Imobilizada e de olhos enfaixados,<em> ensinei-me a dan\u00e7ar Giselle<\/em>. Alicia-resist\u00eancia p\u00e1ra tratamentos, n\u00e3o h\u00e1 vida fora do palco. Volta aos ensaios, em sete dias transformada, p\u00e9s em sangue, fogo no cora\u00e7\u00e3o. Os olhos s\u00f3 v\u00eaem sombras, mas a t\u00e9cnica permite-lhe dominar o espa\u00e7o, guiada por pontos de luz. Alicia-Giselle conquista p\u00fablico e cr\u00edtica. \u00c0s cegas \u00e9 Carmen, Aurora, Clara, Odette\/ Odile, Julieta, tantas outras. \u00c9 a grande <em>ballerina<\/em> dram\u00e1tica, int\u00e9rprete maior do report\u00f3rio cl\u00e1ssico e rom\u00e2ntico. Dan\u00e7a Giselle at\u00e9 1948.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Diz-se em Cuba que Alicia nasceu para que Giselle nunca morra. A dan\u00e7a foi o sonho de regressar, criar uma escola na terra natal, onde n\u00e3o existem ainda companhias profissionais. Funda com Fernando o <em>Ballet Alicia Alonso<\/em> e procura bailarinos entre os conterr\u00e2neos. Alicia-core\u00f3grafa dirige as primeiras pe\u00e7as. A companhia faz a primeira viagem pela Am\u00e9rica Latina. Em 1956 a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deteriora-se e a ditadura de Fulgencio Batista retira-lhe apoio econ\u00f3mico. Alicia protesta, recusa-se a dan\u00e7ar na ilha. Leva consigo alguns dos mais promissores bailarinos, para que n\u00e3o definhem neste per\u00edodo. Em plena Guerra Fria, Alicia-estrela recebe convite para actuar na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o primeiro dirigido a uma bailarina do hemisf\u00e9rio ocidental. Dan\u00e7a em Moscovo, Leningrado e Kiev, nas famosas companhias Bolshoi e Kirov. Aos 40 anos, ainda gira os 32 fouett\u00e9s do Cisne Negro. \u00c9 reconhecida como <em>prima ballerina assoluta<\/em>, a \u00fanica latino-americana na hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1959, a dan\u00e7a foi revolu\u00e7\u00e3o. Fidel financia as estruturas culturais enfraquecidas e a companhia converte-se no <em>Ballet Nacional de Cuba<\/em>. Actuam pela Am\u00e9rica Latina como embaixada do governo revolucion\u00e1rio. Nos campos e ruas, Alicia-professora procura meninos que queiram dan\u00e7ar, aspira\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser negada a nenhuma crian\u00e7a. A sua linguagem coreogr\u00e1fica desponta: <strong>\u00c9 este o <\/strong><strong><em>ballet<\/em><\/strong><strong> cubano &#8211; um <\/strong><strong><em>ballet<\/em><\/strong><strong> quente, diferente de todos e a todos acess\u00edvel, submerso no pensamento de Cuba e na sua forma de sentir. Uma combina\u00e7\u00e3o de um virtuosismo conciso e formalista com a<\/strong><strong><em> doce sensualidade que os cubanos t\u00eam no sangue<\/em><\/strong><strong>. Um estilo expressivo, latino e voluptuoso, prontamente reconhec\u00edvel. <\/strong>Alicia-orgulho apresenta o <em>Ballet Nacional <\/em>&nbsp;em mais de 60 pa\u00edses, recebe pr\u00e9mios e distin\u00e7\u00f5es, multiplica as suas cria\u00e7\u00f5es coreogr\u00e1ficas, segue a dan\u00e7ar nas mais prestigiadas companhias do mundo. O seu compromisso pol\u00edtico impede-a de actuar nos Estados Unidos at\u00e9 1971. S\u00f3 aos 74 anos, na apresenta\u00e7\u00e3o de <em>Farfalla<\/em>, paira para longe do palco a bailarina que por mais tempo o sobrevoou. Alicia-brilhante, linda no seu turbante e batom vermelho, ensina e coreografa at\u00e9 ao fim, treinando gera\u00e7\u00f5es de bailarinos, criando estrelas na terra de bravura e hero\u00edsmo que, como \u00e0 dan\u00e7a, tanto amou. Lugar onde um dia, disse, plantou uma \u00e1rvore, de bons frutos porque a terra \u00e9 boa. \u00c9 este o seu legado, <em>n\u00e3o apenas para Cuba, mas, espero, para o mundo<\/em>. E foi assim que aconteceu, Alicia-lenda venceu a morte.&nbsp;<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alicia-Ernestina, t\u00e3o pequenina, quer ser bailarina. Rodopia ao som dos discos da m\u00e3e, caminha em bicos de p\u00e9s, move-se como Isadora Duncan, n\u00e3o sabia o que era dan\u00e7ar. Nos anos 20 do ido s\u00e9culo, a dan\u00e7a foi desejo de menina, primeiros passos na Escuela de Sociedad Pro-Arte Musical de Havana. 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