{"id":2559,"date":"2019-10-02T15:37:30","date_gmt":"2019-10-02T15:37:30","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2559"},"modified":"2019-10-07T13:35:15","modified_gmt":"2019-10-07T13:35:15","slug":"sobre-as-cooperativas-escolares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/10\/02\/sobre-as-cooperativas-escolares\/","title":{"rendered":"Sobre as cooperativas escolares"},"content":{"rendered":"\n<p>A Voz do Oper\u00e1rio concebe o mundo e o seu desenvolvimento a partir de uma l\u00f3gica materialista e dial\u00e9ctica. Significa isto que, no nosso entender, o desenvolvimento de qualquer processo, desde o mais pequeno \u00e1tomo ao mais complexo sistema, se faz a partir da interac\u00e7\u00e3o entre determinado objecto ou ser e tudo aquilo que o rodeia. O materialismo dial\u00e9tico concebe assim a natureza humana numa perspectiva totalizante, em permanente contacto, em que tudo nela se encontra interligado e interdependente. A par desta conex\u00e3o entre os elementos, est\u00e1 o seu constante movimento, nem sempre regular e em permanente muta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento. Assim, a compreens\u00e3o de qualquer fen\u00f3meno ou processo, s\u00f3 pode ser feito eficazmente \u00e0 luz daquilo que o rodeia, n\u00e3o podendo ser tratado isoladamente, de forma abstracta.<br><br>Partindo desta premissa, a organiza\u00e7\u00e3o do trabalho nas escolas da Voz do Oper\u00e1rio, concebe todos os processos enquanto decorrentes da rela\u00e7\u00e3o que cada membro de cada comunidade educativa estabelece com todos os elementos que fazem parte da realidade com que contacta. Desde as experi\u00eancias no seio familiar at\u00e9 \u00e0 vida dentro do grupo, o movimento cont\u00ednuo que da\u00ed decorre, do qual a crian\u00e7a faz parte, influencia e por eles \u00e9 influenciada, \u00e9 a argila que fornece aos adultos os elementos mais importantes para a organiza\u00e7\u00e3o de instrumentos e processos que visam facilitar e maximizar o potencial de desenvolvimento de cada um.<br><br>Neste sentido, as cooperativas escolares s\u00e3o, para al\u00e9m do mais antigo, um dos mais ricos e valiosos instrumentos pedag\u00f3gicos da Voz do Oper\u00e1rio. Estabelecidas h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, as cooperativas s\u00e3o um instrumento privilegiado de transmiss\u00e3o de valores, ideais e princ\u00edpios face aos quais A Voz do Oper\u00e1rio tem a mais absoluta responsabilidade e dever de promover e jamais vulgarizar, deturpar, trair ou abandonar.<br><br>Implementadas na Voz do Oper\u00e1rio muito antes da Revolu\u00e7\u00e3o do 25 de abril, as cooperativas escolares visavam a cria\u00e7\u00e3o de condi\u00e7\u00f5es de partida para uma experi\u00eancia social de aprendizagem das suas crian\u00e7as que contribu\u00edsse para o desenvolvimento de uma consci\u00eancia de classe, essencial para cria\u00e7\u00e3o de futuros adultos dispostos a lutar por um mundo livre de opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o. O triunfo da Revolu\u00e7\u00e3o de Abril abriu portas para o aprofundamento e dissemina\u00e7\u00e3o destas pr\u00e1ticas educativas, passando estas finalmente a coincidir com a realidade emergente no pa\u00eds. Com o retrocesso civilizacional que se seguiu &#8211; e que se faz hoje sentir de forma particularmente gravosa nas gera\u00e7\u00f5es mais jovens, atrav\u00e9s da larga dissemina\u00e7\u00e3o do pensamento \u00fanico, baseado na competi\u00e7\u00e3o enquanto caracter\u00edstica aparentemente \u201cnatural\u201d da esp\u00e9cie, da meritocracia ou da valoriza\u00e7\u00e3o da atitude de submiss\u00e3o perante a hierarquia individual &#8211; a import\u00e2ncia da dissemina\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios das cooperativas tem, mais que nunca, um valor \u00edmpar no processo educativo das crian\u00e7as d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Porque a gest\u00e3o de cada cooperativa \u00e9 feita pelo grupo de crian\u00e7as que sobre ela exerce controlo, sempre que um ou mais elementos do grupo identificam a necessidade de aquisi\u00e7\u00e3o de materiais para a concretiza\u00e7\u00e3o de um projecto, de novos materiais para uma das \u00e1reas de explora\u00e7\u00e3o e trabalho da sala, ou para qualquer outro fim, ela deve ser trazida \u00e0 discuss\u00e3o colectiva, em concelho de coopera\u00e7\u00e3o. Ser\u00e1 no conselho que as decis\u00f5es sobre que rumo se dar\u00e1 \u00e0 proposta feita ser\u00e3o tomadas, sendo analisadas as condi\u00e7\u00f5es objectivas existentes para a concretiza\u00e7\u00e3o dessa proposta \u2013 a sua pertin\u00eancia, a prioridade que lhe deve ser dada, o custo associado, entre outros crit\u00e9rios. Para que tal seja poss\u00edvel, \u00e9 tamb\u00e9m fundamental a realiza\u00e7\u00e3o de balancetes frequentes, baseados nos registos e an\u00e1lise de entradas e sa\u00eddas dos valores utilizados, dando os elementos respons\u00e1veis por esta tarefa sempre conta de todo o processo ao colectivo.<br><br>Atrav\u00e9s das cooperativas, as crian\u00e7as e jovens d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio assumem compromissos perante o colectivo ao qual pertencem, que v\u00e3o para al\u00e9m do papel individual que t\u00eam no grupo. A apropria\u00e7\u00e3o de valores como a partilha (do saber, de ideias, de objectivos); o respeito pela opini\u00e3o do outro (sabendo que, independentemente do grau de concord\u00e2ncia, ela ter\u00e1 o mesmo valor de qualquer outra); o dever de cumprimento da orienta\u00e7\u00e3o definida pelo colectivo (mesmo quando significa uma decis\u00e3o diferente da da minha prefer\u00eancia); o controlo efectivo sobre os processos de prepara\u00e7\u00e3o, aquisi\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o e cria\u00e7\u00e3o de elementos culturais, enriquecedores da vida do grupo; a responsabilidade (de assumir uma posi\u00e7\u00e3o e uma opini\u00e3o pessoais perante o grupo e sobre a pr\u00f3pria cooperativa); a autonomia (face \u00e0s tarefas, processos e obst\u00e1culos inerentes aos objectivos definidos), \u00e9 vivida e marcada pela profundidade formativa e transformadora que o esp\u00edrito e a estrutura da cooperativa incorporam.<br><br>Desta forma, e como nenhum outro instrumento pedag\u00f3gico, a cooperativa releva o sentimento do poder da ac\u00e7\u00e3o da crian\u00e7a sobre o meio, promovendo a proactividade, a assertividade e o pensamento cr\u00edtico individual, mediados, sempre, pela vida do grupo, que dever\u00e1 ser o principal organismo regulador do espa\u00e7o colectivo.<br><br>As cooperativas s\u00e3o um organismo vivo e como tal, devem ser vistas n\u00e3o enquanto um instrumento estanque, pontual, paralelo e separado da vida di\u00e1ria do grupo, mas enquanto elemento transversal e objecto permanente de potencial facilita\u00e7\u00e3o da concretiza\u00e7\u00e3o das necessidades e objectivos de cada grupo.<br><br>Assim, para qualquer docente n\u00b4A Voz do Oper\u00e1rio, desenvolver um trabalho pedag\u00f3gico de fundo deve ter como iner\u00eancia o trabalho com as cooperativas, enquanto um dos elementos culturais centrais na vida do grupo. O desenvolvimento de uma rela\u00e7\u00e3o fluida com este instrumento pedag\u00f3gico, tal como com qualquer outro, s\u00f3 acontece mediante um contacto e experimenta\u00e7\u00e3o regulares por parte do grupo com este instrumento e com uma ampla e profunda reflex\u00e3o por parte do adulto, relativamente n\u00e3o s\u00f3 ao papel que a cooperativa desempenha na vida do grupo, mas tamb\u00e9m ao papel que o adulto est\u00e1 a desempenhar na vida da cooperativa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Atrav\u00e9s das cooperativas, as crian\u00e7as e jovens d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio assumem compromissos perante o colectivo ao qual pertencem, que v\u00e3o para al\u00e9m do papel individual que t\u00eam no grupo.<\/p>\n","protected":false},"author":29,"featured_media":2561,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[43],"tags":[],"coauthors":[109],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2559"}],"collection":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/29"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2559"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2559\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2606,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2559\/revisions\/2606"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2561"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2559"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2559"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2559"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/wp-json\/wp\/v2\/coauthors?post=2559"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}