{"id":2554,"date":"2019-10-02T15:24:10","date_gmt":"2019-10-02T15:24:10","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2554"},"modified":"2019-12-02T12:33:17","modified_gmt":"2019-12-02T12:33:17","slug":"quando-a-pide-prendeu-o-diretor-da-voz-do-operario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/10\/02\/quando-a-pide-prendeu-o-diretor-da-voz-do-operario\/","title":{"rendered":"Quando a PIDE prendeu o diretor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio"},"content":{"rendered":"\n<p>No dia 16 de Maio de 1947, a PIDE prendeu o ent\u00e3o diretor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Raul Esteves dos Santos. Ele at\u00e9 estava doente e recolhido em casa h\u00e1 j\u00e1 algumas semanas. Mas o seu nome surgiu nuns \u201cdocumentos apreendidos\u201d e tornou-se suspeito de estar envolvido em \u201catividades conspirat\u00f3rias\u201d de um \u201cmovimento revolucion\u00e1rio\u201d para derrubar a ditadura. Foi um processo que visou 24 democratas, entre os quais o advogado Vasco da Gama Fernandes, que viria a ser o primeiro presidente da Assembleia da Rep\u00fablica, e o jovem comunista Carlos Pato, que seria tr\u00eas anos depois assassinado pela PIDE.<br>N\u00e3o aconteceu por acaso. Raul Esteves dos Santos era um velho democrata republicano e assumido opositor \u00e0 ditadura.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"> Fundador do MUD<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Em 8 outubro de 1945 o diretor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio participou na funda\u00e7\u00e3o do Movimento de Unidade Democr\u00e1tica (MUD), ao lado de outros diretores de imprensa ligada \u00e0 oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura, como a revista Seara Nova, os jornais Rep\u00fablica e Democracia do Sul \u2013 respetivamente Lu\u00eds C\u00e2mara Reis, Jaime Carvalh\u00e3o Duarte e Vitor Santos.<br><br>Na edi\u00e7\u00e3o imediata, com data de 4 de novembro, A Voz do Oper\u00e1rio assumiu a sua \u201csimpatia e aplauso\u201d pelo surgimento do MUD. E afirmou que era essa \u201ca tradi\u00e7\u00e3o deste jornal\u201d.<br><br>A retalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o se fez esperar e logo no dia seguinte, 5 de novembro, as \u201cautoridades\u201d proibiram em cima da hora uma confer\u00eancia promovida pel\u2019A Voz do Oper\u00e1rio sobre \u201cA Educa\u00e7\u00e3o do Povo\u201d, a ser proferida pelo professor Ant\u00f3nio Ferreira de Macedo, fundador da Universidade Popular Portuguesa e tamb\u00e9m envolvido no MUD.<br><br>Como regime de tipo fascista, a ditadura de Salazar vacilou um pouco perante a derrota das ditaduras fascistas alem\u00e3 e italiana na 2\u00aa Guerra Mundial, nesse ano de 1945. Foi nessa conjuntura que nasceu o MUD. Por um momento a censura abrandou e Salazar prometeu elei\u00e7\u00f5es livres. Mas n\u00e3o passou de uma encena\u00e7\u00e3o para segurar o poder e logo recrudesceu a repress\u00e3o.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Revolucion\u00e1rio do 5 de Outubro<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Raul Esteves dos Santos nasceu em Lisboa em 1889. Os nomes das escolas que frequentou sublinham as suas origens humildes: Asilo da Inf\u00e2ncia Desvalida e Escola da Caridade. Desenvolveu a sua carreira profissional como funcion\u00e1rio da C\u00e2mara Municipal de Lisboa, da CP &#8211; Comboios de Portugal e da Dire\u00e7\u00e3o-Geral de Caminhos de Ferro.<br><br>Foi um \u201crevolucion\u00e1rio civil\u201d na implanta\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 5 de Outubro de 1910. Fez ent\u00e3o parte do grupo que foi buscar a guarda do Parlamento e que prendeu um dos ajudantes do Rei.<br><br>Raul Esteves dos Santos defenderia sempre o 5 de Outubro como \u201cum ato revolucion\u00e1rio em que o povo foi o principal protagonista\u201d, animado \u201cpor um Grande ideal\u201d.<br><br>No tempo da 1\u00aa Rep\u00fablica o futuro diretor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio foi mobilizado como militar para a 1\u00aa Guerra Mundial e desempenhou o cargo de secret\u00e1rio do \u201cprimeiro-ministro\u201d Ant\u00f3nio Granjo, (em 1921), de dois ministros e de dois governadores civis de Lisboa. Teve uma primeira experi\u00eancia como diretor de um jornal, chamado O Grito do Povo.<br><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"> Tr\u00eas vezes preso pol\u00edtico<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Antes de ser preso pela PIDE em 1947, Raul Esteves dos Santos j\u00e1 tinha sido preso por motivos pol\u00edticos uma primeira vez em 1918, sob a breve ditadura de Sid\u00f3nio Pais. O motivo registado foi \u201cpor suspeita [de] conspirar contra o actual governo\u201d.<br><br>Voltou a ser preso pol\u00edtico em 1930, numa rusga policial ao seu escrit\u00f3rio. Foi ent\u00e3o apanhado com cerca de trezentos exemplares de um \u201cescrito clandestino\u201d. Eram reprodu\u00e7\u00f5es de uma carta da pris\u00e3o escrita pelo republicano Francisco Cunha Leal.<\/p>\n\n\n\n<p>Dessa vez Raul Esteves dos Santos ficou preso por duas semanas. Em 1947 passou 20 dias na Penitenci\u00e1ria de Lisboa. Quando saiu em liberdade, A Voz do Oper\u00e1rio noticiou o caso da forma que na altura era poss\u00edvel, perante a censura: \u201cAp\u00f3s prolongada aus\u00eancia motivada em parte por doen\u00e7a, tivemos o prazer de ver regressar \u00e0s suas fun\u00e7\u00f5es o nosso querido amigo e director\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"> Associativismo<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Raul Esteves dos Santos dirigiu o jornal A Voz do Oper\u00e1rio em 1931\/33, 1944\/45 e 1947 \u2013 datas em que tamb\u00e9m presidiu \u00e0 dire\u00e7\u00e3o da Sociedade de Instru\u00e7\u00e3o e Benefici\u00eancia A Voz do Oper\u00e1rio. Neste jornal escreveu essencialmente sobre ensino, associativismo, hist\u00f3ria do trabalho e hist\u00f3ria d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<br><br>Foi tamb\u00e9m presidente da Federa\u00e7\u00e3o das Sociedades de Educa\u00e7\u00e3o e Recreio, da Sociedade de Instru\u00e7\u00e3o de Campo de Ourique, al\u00e9m de diretor da Revista Portuguesa de Comunica\u00e7\u00f5es e dirigente dos Bombeiros Volunt\u00e1rios de Campo de Ourique.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"> Democratas republicanos<br><\/h2>\n\n\n\n<p>Raul Esteves dos Santos \u00e9 representativo do importante conjunto de democratas republicanos que durante a ditadura tiveram um papel destacado na Sociedade A Voz do Oper\u00e1rio, \u00e0 qual se uniram pela causa da educa\u00e7\u00e3o e por encontrarem aqui um espa\u00e7o de liberdade. Nomes como o poeta Alfredo Guisado, antigo companheiro de Fernando Pessoa no grupo Orfeu; ou Ant\u00f3nio Lomelino, presidente do Centro Escolar Republicano Almirante Reis, a associa\u00e7\u00e3o onde foi fundado o MUD.<br><br>Note-se ainda que entre 1949 e 1953 o jornal A Voz do Oper\u00e1rio teve um outro antigo preso pol\u00edtico como diretor: Domingos da Cruz. Este marinheiro e ma\u00e7om, deputado da 1\u00aa Rep\u00fablica, foi preso e esteve deportado entre 1930 e 1932, primeiro nos A\u00e7ores e depois em Cabo Verde \u2013 ainda no per\u00edodo inicial de ditadura militar.<br><br>Deram o seu contributo para que A Voz do Oper\u00e1rio sobrevivesse \u00e0 ditadura e mantivesse a sua tradi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No dia 16 de Maio de 1947, a PIDE prendeu o ent\u00e3o diretor d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio, Raul Esteves dos Santos. Ele at\u00e9 estava doente e recolhido em casa h\u00e1 j\u00e1 algumas semanas. 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