{"id":2549,"date":"2019-10-02T15:13:21","date_gmt":"2019-10-02T15:13:21","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2549"},"modified":"2019-11-04T17:25:02","modified_gmt":"2019-11-04T17:25:02","slug":"um-espaco-inclusivo-para-os-mais-velhos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/10\/02\/um-espaco-inclusivo-para-os-mais-velhos\/","title":{"rendered":"Um espa\u00e7o inclusivo para os mais velhos"},"content":{"rendered":"\n<p>Entrar n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio \u00e9, muitas vezes, mergulhar numa comunidade de iguais entre diferentes. Acontece tanta coisa ao mesmo tempo entre as paredes da institui\u00e7\u00e3o, na Gra\u00e7a, que \u00e0s vezes quem entre pode n\u00e3o dar-se conta de que est\u00e1 a haver um debate no audit\u00f3rio Jo\u00e3o Hogan, uma exposi\u00e7\u00e3o na sala associativa ou uma pe\u00e7a de teatro no sal\u00e3o. \u00c9 um organismo vivo em que mulheres, homens e crian\u00e7as s\u00e3o protagonistas de um projeto \u00edmpar que privilegia a interajuda, o respeito e o trabalho coletivo.<br><br>O Centro de Conv\u00edvio \u00e9 um dos pilares da atividade associativa d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Dezenas de idosos d\u00e3o corpo aos princ\u00edpios de solidariedade com atividades que enriquecem a vida de quem nelas participa e tamb\u00e9m da institui\u00e7\u00e3o. Se \u00e9 certo que muitas vezes se pode achar que as diferentes realidades que habitam a Voz s\u00e3o estanques, a verdade \u00e9 que elas se intercruzam e comunicam entre si. N\u00e3o s\u00e3o poucas as vezes que os mais pequenos realizam atividades em conjunto com os mais velhos.<br><br>Um grupo de mulheres conversa entre si enquanto v\u00e1rios homens jogam ao domin\u00f3. Idalmina Ribeiro \u00e9 uma dessas protagonistas. Aos 87 anos, frequenta o Centro de Conv\u00edvio h\u00e1 cerca de 10 anos. Ao seu lado, Isaltina Dias afirma que tem 84 e vem aqui h\u00e1 sete anos. Maria Almeida est\u00e1 no espa\u00e7o h\u00e1 cinco anos e tem tamb\u00e9m 84. J\u00e1 Francisca Barros \u00e9 uma veterana. Tem 81 anos mas vem h\u00e1 mais de 20 anos. Maria Bandeira, a mais nova do grupo, tem 77 e frequenta A Voz h\u00e1 apenas dois anos.<br><\/p>\n\n\n\n<p>O jornalista \u00e9 imediatamente assaltado por meia d\u00fazia de hist\u00f3rias que ilustram vidas dif\u00edceis constru\u00eddas com muito suor por estas mulheres. Uma delas explica que nasceu em Vila Boim, Elvas, e que comia com a fam\u00edlia \u201cuma sardinha para tr\u00eas\u201d. O pai achava que s\u00f3 os rapazes \u00e9 que deviam ir para Lisboa estudar. \u201cAs raparigas n\u00e3o parecia bem\u201d. Mas conseguiu vir para Lisboa com uma tia aos 15 anos.<br><br>Outra explica que at\u00e9 aos 12 anos andou a apanhar trigo e azeitonas no campo mas que fez a quarta classe e veio depois para a capital trabalhar numa camisaria no Martim Moniz. Duas das mulheres descrevem que foram costureiras a vida toda. \u201cO meu pai fazia cal\u00e7ado para o gado\u201d, recorda uma. \u201cQuando fiz a quarta classe estava apta para fazer a primeira comiss\u00e3o mas tinha que se ir a Portalegre. A professora fez um escrito a dizer que eu estava apta para entregar ao meu pai. Ele leu e disse quer era s\u00f3 o que mais faltava eu ir sozinha para Portalegre. \u2018Fazes a quarta classe e j\u00e1 tens muito\u2019. Depois fui para a costura\u201d. <br><br>As hist\u00f3rias repetem-se sobre um tempo em que o pa\u00eds estava esmagado sob o peso do fascismo. \u201cPara n\u00f3s raparigas n\u00e3o havia escola e quando eu tinha tinha onze anos passou a ser obrigat\u00f3rio estudar at\u00e9 aos 13. Mas o meu pai teve o desplante de mandar uma carta \u00e0 minha m\u00e3e a dizer que se houvesse algu\u00e9m que pagasse a multa ele n\u00e3o se importava de pagar para eu n\u00e3o ir para a escola\u201d.<br><br>Ali ao lado, Ant\u00f3nio Almeida, de 92 anos, Joaquim Lopes Correia, de 87, e Albertino, de 88, est\u00e3o concentrados no domin\u00f3. V\u00e3o respondendo \u00e0s perguntas desfiando v\u00e1rios epis\u00f3dios das suas vidas. S\u00e3o tamb\u00e9m gente de trabalho. Por tr\u00e1s das pe\u00e7as, h\u00e1 um antigo porteiro de uma pens\u00e3o, um papeleiro que trabalhava num armaz\u00e9m de papel e um ex-oper\u00e1rio da Uni\u00e3o Fabril que depois foi merceeiro.<br><br>Mas estas mulheres e homens s\u00e3o j\u00e1 uma fam\u00edlia que se dedica a todo o tipo de atividades. Para al\u00e9m das conversas, fazem gin\u00e1stica, trabalhos manuais e visitas guiadas a diferentes lugares. Todos sentem que ganham em estar aqui. E at\u00e9 t\u00eam saudades quando est\u00e3o demasiado tempo fora.<br><br>Uma das mais faladoras explica que em fevereiro deste ano partiu o f\u00e9mur e que esteve sete meses em casa do filho a recuperar. \u201cJ\u00e1 tinha muitas saudades\u201d. Preocupada com a recupera\u00e7\u00e3o, decidiu repetir em casa alguns dos exerc\u00edcios que fazia n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Quando chegou \u00e0 fisioterapia, as t\u00e9cnicas ficaram surpreendidas porque achavam que estaria acamada e sem se mexer. \u201cSe eu n\u00e3o tivesse feito aquilo eu n\u00e3o andava como ando\u201d.<br> Mas estas mulheres e homens n\u00e3o s\u00e3o alheios \u00e0 condi\u00e7\u00e3o da maioria dos idosos em Portugal e denunciam que \u201cdevia respostas e solu\u00e7\u00f5es do Estado\u201d. Sabem que h\u00e1 muitos reformados e pensionistas que est\u00e3o sozinhos, praticamente ao abandono. Recordam, ent\u00e3o, os diferentes passeios que fizeram com A Voz do Oper\u00e1rio. Sintra, a Quinta Pedag\u00f3gica dos Olivais, o Museu Fernando Pessoa e uma ida ao teatro est\u00e3o entre as diferentes atividades exteriores que se realizaram no \u00faltimo ano.<br><br>Questionada sobre qual \u00e9 a sensa\u00e7\u00e3o de trabalhar diariamente no Centro de Conv\u00edvio, Vanderleia \u00e9 inequ\u00edvoca. \u201c\u00c9 uma aprendizagem. Aprendo todos os dias com eles. Fazemos um pouco de tudo\u201d. E concorda que \u00e9 \u201ccomo se fosse uma fam\u00edlia\u201d. De tal forma que quando falta um dos idosos tentam ligar-lhe para saber se est\u00e1 tudo bem.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Inscri\u00e7\u00f5es abertas para o Centro de Conv\u00edvio<\/h2>\n\n\n\n<p>O Centro de Conv\u00edvio \u00e9 um espa\u00e7o aberto e inclusivo onde quem se inscreva pode continuar a desenvolver aptid\u00f5es at\u00e9 ao fim da vida. \u201cAqui t\u00eam oportunidade de desenvolver atividades e novas experi\u00eancias, de conhecer outros lugares, de ter acesso a outras informa\u00e7\u00f5es. Por exemplo, h\u00e1 sess\u00f5es de informa\u00e7\u00e3o para a sa\u00fade\u201d, explica Rita Governo. \u201cVenham conhecer o espa\u00e7o. Aqui respeitamo-nos mutuamente e tentamos fazer o melhor poss\u00edvel para que estas pessoas se sintam o melhor poss\u00edvel\u201d.<br><br>Para a inscri\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que se fa\u00e7a s\u00f3cio d\u2019A Voz do Oper\u00e1rio. Para mais informa\u00e7\u00f5es pode contactar a secretaria do espa\u00e7o na Gra\u00e7a.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrar n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio \u00e9, muitas vezes, mergulhar numa comunidade de iguais entre diferentes. 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