{"id":2464,"date":"2019-07-01T13:41:40","date_gmt":"2019-07-01T13:41:40","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2464"},"modified":"2019-09-03T13:53:12","modified_gmt":"2019-09-03T13:53:12","slug":"o-homem-inconformado-100-anos-de-fernando-namora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/07\/01\/o-homem-inconformado-100-anos-de-fernando-namora\/","title":{"rendered":"O homem inconformado: 100 anos de Fernando Namora"},"content":{"rendered":"\n<p>Para os homens e mulheres de vida imensa n\u00e3o pode haver uma biografia simples. Quando temos dificuldade em compreend\u00ea-los e n\u00e3o podemos apenas acorrent\u00e1-los para sempre com as grilhetas da profiss\u00e3o, fazemos uma descri\u00e7\u00e3o factual da sua passagem pelo mundo, relevando um feito, uma curiosidade, uma breve mudan\u00e7a. Cem anos depois de nascermos, muitos dos que nos conheceram profundamente j\u00e1 c\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o e resta-nos essa cronologia sem encanto. Onde encontramos, ent\u00e3o, a vida a ser celebrada num centen\u00e1rio?<\/p>\n\n\n\n<p>Fernando Namora (n. 15 de abril, 1919) foi, nas suas pr\u00f3prias palavras, homem, m\u00e9dico e escritor. E dentro dessa defini\u00e7\u00e3o simples foi um universo de contradi\u00e7\u00f5es, de frustra\u00e7\u00f5es, de deslumbramentos. Nasceu numa \u00e9poca em que se come\u00e7ava a afirmar a ideia de um \u201chomem de cultura integral\u201d (Bento de Jesus Cara\u00e7a), um homem que n\u00e3o se limitasse a andar pela vida, mordendo a pr\u00f3pria cauda. E talvez seja a partir da\u00ed que descobrimos Namora. Foi um tio que, em crian\u00e7a, lhe mostrou outros mundos nos livros de Gorki e \u00c9mile Zola e com eles a consci\u00eancia do outro. Tendo crescido numa fam\u00edlia pequeno-burguesa, viu o pai ser consumido por um cancro e, para n\u00e3o dececionar a m\u00e3e depois de todo aquele sofrimento, acabou por seguir a vontade da fam\u00edlia, frequentando a Faculdade de Medicina em Coimbra contrariado. Fez parte da gera\u00e7\u00e3o de 40 com Carlos de Oliveira, Jo\u00e3o Jos\u00e9 Cochofel (seu irm\u00e3o de Coimbra), Joaquim Namorado e Jo\u00e3o Gaspar da Costa e com eles desenhou um pouco daquilo que viria a ser o Neorrealismo portugu\u00eas, muito inspirado por Afonso Duarte na poesia tel\u00farica (a sua contribui\u00e7\u00e3o para o Novo Cancioneiro \u00e9, ali\u00e1s, \u201cTerra\u201d) ou Abel Salazar,  por tantos motivos que valeriam, aqui, um outro texto. Casou, teve filhos, foi um Jo\u00e3o Semana em Monsanto e Pavia. Viveu numa Lisboa de grandes contradi\u00e7\u00f5es. Foi um dos primeiros autores portugueses a ser amplamente traduzido. Tudo isto est\u00e1 documentado e ajuda, claro, a criar uma ideia sobre Namora n\u00e3o muito diferente da de qualquer outro artista. Mas n\u00e3o \u00e9 suficiente. <\/p>\n\n\n\n<p>Porque tem Namora aquele ar circunspecto e triste que as fotografias mais antigas nos d\u00e3o, antes do sorriso aberto e franco que exibe na sua imagem mais popular? \u00c9 na poesia e nos romances deste ent\u00e3o jovem m\u00e9dico que vamos descobrir a intimidade torturada, a procura constante de uma luz que teimava em n\u00e3o vir. Procurou, inconformado. Chega a parecer, por vezes, nas suas personagens, que se desiludia de tal forma com as pessoas que as abandonava \u00e0 sua sorte. Disse, muitas vezes, que n\u00e3o tinha interesse em contar a realidade e que preferia a fic\u00e7\u00e3o. Mas, como disse bem o seu amigo Joaquim Namorado, Namora n\u00e3o se limita a contar uma hist\u00f3ria ou a ser um m\u00e9dico burocrata. Ele interv\u00e9m no meio, como homem, m\u00e9dico e escritor e \u201cempresta a sua intelig\u00eancia e sensibilidade \u00e0s personagens\u201d que viviam num mundo bem real de abandono, de fome, de ignor\u00e2ncia e de tantas outras idiossincrasias que o fizeram duvidar de tudo. Era aqui que as suas v\u00e1rias dimens\u00f5es se cruzavam, que se enredavam no meio das palavras, num remoinho desorientador ou, como o pr\u00f3prio diz na sua autobiografia, uma \u201cdesintegra\u00e7\u00e3o libertadora\u201d (\u201cAutobiografia\u201d; o jornal; 1987). Sentimo-lo, at\u00e9, perdido.<\/p>\n\n\n\n<p>Em cada percurso que fazemos com Fernando Namora, encontramos, por fim, uma luz. N\u00e3o est\u00e1 numa resposta, numa conclus\u00e3o moralista ou na trag\u00e9dia. Est\u00e1, isso sim, como o pr\u00f3prio, por detr\u00e1s desta nossa condi\u00e7\u00e3o de homens e mulheres, nesta qu\u00edmica do mundo, que nos junta, que nos separa, que nos distingue. Est\u00e1 na crian\u00e7a que nasce, no p\u00e3o que acaba por aparecer, no sol da manh\u00e3, no c\u00e9u estrelado, no gozo da chuva na cara, nas grandes paisagens amplas ou no reboli\u00e7o da cidade. E \u00e9 essa maravilha que ele nos ajuda a encontrar. [O Museu do Neo-Realismo exibe, at\u00e9 novembro, uma exposi\u00e7\u00e3o evocativa dos 100 anos de Fernando Namora, com curadoria brilhante do Prof. Doutor Ant\u00f3nio Pedro Pita.] <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Namora (n. 15 de abril, 1919) foi, nas suas pr\u00f3prias palavras, homem, m\u00e9dico e escritor. 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