{"id":2424,"date":"2019-09-03T11:22:32","date_gmt":"2019-09-03T11:22:32","guid":{"rendered":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/?p=2424"},"modified":"2019-09-03T14:25:05","modified_gmt":"2019-09-03T14:25:05","slug":"dar-receber","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/vozoperario.pt\/jornal\/2019\/09\/03\/dar-receber\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es: Dar &#038; Receber"},"content":{"rendered":"\n<p>\u2014 Est\u00e1 aqui o senhor Varia\u00e7\u00f5es para ver as primeiras provas da capa \u2014 Quem aprova a capa \u00e9 esta senhora que disto n\u00e3o percebo nada. \u2014 Vamos carregar no magenta e duas passagens de preto para a contra-capa n\u00e3o ficar an\u00e9mica. De lado, ele sorria enquanto cumprimentava os homens das m\u00e1quinas, um a um. O senhor Varia\u00e7\u00f5es. Cal\u00e7a laranja e as maravilhosas pulseiras feitas com dobradi\u00e7as de port\u00f5es: \u2014 Dou-te esta. Por que par\u00e1mos tantas vezes durante aquela curta caminhada entre a Cruz dos Poiais e a Cal\u00e7ada do Combro? Sentados nas escadas, aqui e al\u00e9m, \u00e0 soleira de quase todas as portas e quem passava cumprimentava: \u2014 Ai o senhor Varia\u00e7\u00f5es, d\u00ea c\u00e1 um beijinho. O teu respirar, Ant\u00f3nio, dificultava a marcha e eu t\u00e3o confusa: \u2014 Queres vir noutro dia? Eu vou l\u00e1 e trago-te aqui a capa, compro \u00e1gua\u2026 \u2014 Vamos devagar que n\u00e3o temos pressa, ou temos? \u2014 Temos tempo. Uma romaria de pessoas acenava alegre para o senhor Varia\u00e7\u00f5es. Onde se sentia a vibra\u00e7\u00e3o de um corpo forte e mais fraco que o meu. De bra\u00e7o dado contigo sentia-te tremer, suar: \u2014 Ficas aqui nesta sombra, vou e venho a correr\u2026 \u2014 Temos tempo, n\u00e3o temos? \u2014 Temos tempo. Lev\u00e1mos aquele \u00faltimo passeio numa confusa tristeza. Nada nele me era extravagante, da mesma forma que as mulheres o beijavam, abra\u00e7avam, e os taxistas apitavam para um adeus. Era assim, foi assim. O Ant\u00f3nio, senhor Varia\u00e7\u00f5es, sorriso terno: \u2014 S\u00f3 quero ver a capa impressa, o que fizeste est\u00e1 muito bem feito. \u2014 Pois est\u00e1. A minha arrogante \u201cmod\u00e9stia\u201d acabou por lhe arrancar uma gargalhada e tosse. Mais uma paragem: \u2014 Esta pulseira fica-me t\u00e3o bem! Agarra-te a mim, se eu n\u00e3o aguentar ca\u00edmos os dois e n\u00e3o te rias porque tosses. (E por que tosses?) <\/p>\n\n\n\n<p>Ant\u00f3nio Joaquim Rodrigues Ribeiro, onde fica Amares? Onde o diabo deu tr\u00eas gritos e nasceste a 3 de Dezembro de 1944. Tens agora 75 anos de idade e chegaste a Lisboa carregado de letras e a tua voz espantosa, desafinada, nas tintas. Querias ser gostado, foste amado. Assisti, sil\u00eancio irritado, \u00e0 galhofa tola por detr\u00e1s do teu talento. Os artistas, Ant\u00f3nio, s\u00e3o o centro do seu mundo e de uma forma surpreendente tu \u00e9s o nosso mundo portugu\u00eas antes de todos os que apareceram, descontando os que ir\u00e3o nascer. Varia\u00e7\u00f5es, explicas, \u201c\u00e9 um nome el\u00e1stico\u201d a ideia era esta, perfeita. N\u00e3o h\u00e1 Freud que se te chegue e quem tentar explicar-te cair\u00e1, rid\u00edculo, no ch\u00e3o. Os teus p\u00e9s pairavam no ar enquanto o corpo subia, descia com a m\u00fasica trabalhada por outros, mas sem equ\u00edvocos, tu eras a tua fonte. N\u00e3o se contam hist\u00f3rias da intimidade mais \u00edntima, da mesma forma que n\u00e3o se contam sonhos. Apenas as do homem p\u00fablico, popular, que reunia todas as condi\u00e7\u00f5es para ser vaiado pelo povo que lavas no rio? Tamb\u00e9m o cantaste. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas se me \u00e9 permitida a escolha do meu cora\u00e7\u00e3o, a que aponta a morte com a mais bela das intensidades, escolho a que ainda oi\u00e7o pela tua voz cansada: \u201cAdeus que me vou embora\/ Adeus que me vou embora\/\/ (\u2026)\/\/ Vou daqui para a minha terra\/ (\u2026)\/\/que eu desta terra n\u00e3o sou\/\/ que eu desta terra n\u00e3o sou\/\/Tenho minha m\u00e3e \u00e0 espera\/ Tenho minha m\u00e3e \u00e0 espera\/\/Cansada de me esperar\/ Cansada de me esperar\/\/ Naquela encosta da serra\/ (\u2026)\/\/ Vamos ser dois a chorar\/ Vamos ser dois a chorar\/\/ \u00c0 espera tenho o meu pai\/ \u00c0 espera tenho o Dar &amp; Receber meu pai\/ aos anos que o n\u00e3o vejo\/ aos anos que o n\u00e3o vejo\/\/ O tempo que vai durar\/ O tempo que vai durar\/\/ O meu abra\u00e7o, o meu beijo\/ (\u2026)\/\/ Vim solteiro e vou solteiro\/ (\u2026)\/\/ vou livre de cora\u00e7\u00f5es\/ (\u2026)\/\/ Se algu\u00e9m me quiser prender\/ (\u2026)\/\/ j\u00e1 n\u00e3o vou dizer que n\u00e3o\/ j\u00e1 n\u00e3o vou dizer que n\u00e3o\/ Adeus que me vou embora Adeus que me embora vou\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>13 de Junho, dia de Santo Ant\u00f3nio. N\u00e3o h\u00e1 ano que me n\u00e3o lembre de ti, como recordo o pai e os manos, a tia. N\u00e3o sei onde foi parar a pulseira que me deste e aqui sentada a pensar em dar &amp; receber. Ningu\u00e9m foi capaz de te inventar. Ningu\u00e9m mais foi ou ser\u00e1 como tu, a tantos anos luz da pequenez portuguesa, a m\u00e3e Deolinda que te criou. Somos muitos a chorar.<\/p>\n\n\n\n<p>*F\u00e1tima Rolo Duarte \u00e9 a autora da capa do disco Dar &amp; Receber de Ant\u00f3nio Varia\u00e7\u00f5es. O m\u00fasico trabalhou como mar\u00e7ano em jovem enquanto estudava \u00e0 noite n\u2019A Voz do Oper\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2014 Est\u00e1 aqui o senhor Varia\u00e7\u00f5es para ver as primeiras provas da capa \u2014 Quem aprova a capa \u00e9 esta senhora que disto n\u00e3o percebo nada. \u2014 Vamos carregar no magenta e duas passagens de preto para a contra-capa n\u00e3o ficar an\u00e9mica. 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